A Hungria escolheu uma mudança de governo, não uma mudança de valores.
Lemos o programa. Não os resumos da imprensa, nem os perfis lisonjeiros dos correspondentes estrangeiros, nem os comunicados de imprensa entusiásticos de Bruxelas. O texto original: A Működő és Emberséges Magyarország Alapjai — “Os Fundamentos de uma Hungria Funcional e Humana” — o programa eleitoral completo do partido Tisza e de Péter Magyar, publicado em fevereiro de 2026, 243 páginas escritas em húngaro com a contribuição de mais de mil especialistas. Um documento denso e ambicioso, que reserva algumas surpresas para aqueles que pensavam estar a votar num equivalente a Macron ou Hollande.
Primeira observação: este programa não é de esquerda.
A estrutura analítica que os media aplicaram a Magyar é simples: Orbán = direita nacionalista = má, Magyar = opositor de Orbán = bom = progressista = pró-europeu = do nosso lado. Esta equação é falha nas suas premissas e enganadora nas suas conclusões. A esquerda simplesmente deixou de existir eleitoralmente na Hungria.
O programa começa com uma declaração de treze valores fundamentais. Entre estes incluem-se: paz e estabilidade, patriotismo e respeito pelas tradições, soberania nacional, desempenho e concorrência leal, solidariedade social — mas também, explicitamente, o facto de “não existir direita nem esquerda, apenas húngaros”. Este posicionamento transversal não é um floreado retórico. Permeia todo o programa. Magyar não quer governar para um único campo. Quer governar para toda a Hungria — “conservadores, liberais e sociais-democratas”. É precisamente por esta razão que conseguiu formar uma coligação eleitoral tão ampla. Mas este activismo inclusivo não deve obscurecer o que o programa diz sobre as questões que realmente importam aos húngaros.

Imigração: Mais rigoroso que Orbán num ponto crucial
Esta é provavelmente a secção do programa que recebeu menos atenção. O seu título é inequívoco: Zéró tolerancia az illegális bevándorlással szemben — “Tolerância Zero à Imigração Ilegal”. Os compromissos são claros e inegociáveis.
O programa mantém a vedação na fronteira sul do país e promete reforçar a protecção das fronteiras. Rejeita explicitamente as quotas de migração da União Europeia e o Pacto Global para as Migrações. Aplica uma política de tolerância zero em relação à imigração ilegal e ao tráfico de pessoas.
Mas eis o ponto em que Magyar vai além de Orbán: a partir de 1 de Junho de 2026, o programa proíbe a importação de trabalhadores migrantes de países fora da Europa. Este é um compromisso que o anterior governo nunca assumiu — Orbán, pelo contrário, tem importado em massa trabalhadores asiáticos desde 2022 para compensar a escassez de mão-de-obra na indústria automóvel, particularmente nas fábricas de baterias. Magyar denuncia explicitamente estas práticas como um negócio clientelista, “empresas NER construídas sobre a imigração” — NER referindo-se ao sistema de Relações Económicas Nacionais estabelecido pelo Fidesz.
O programa afirma claramente: “Os empregos húngaros e o futuro da Hungria são a prioridade”. A Hungria, sob o governo de Magyar, “continuará um país seguro, sem imigrantes”. Esta não é a retórica de um progressista sediado em Bruxelas.
Família: Duplicar de todos os benefícios, continuidade e expansão
O programa contém um capítulo inteiro intitulado “Programa Família 100%”. Magyar não está a desmantelar as políticas pró-natalidade de Orbán. Está a duplicá-las, literalmente.
Os principais compromissos incluem o dobro dos abonos de família e os benefícios de maternidade, o dobro do GYES e do GYET (equivalentes húngaros à licença parental remunerada) e o fornecimento de um kit de oferta “O Meu Bebé Nasceu” no valor de 50.000 florins por cada nascimento.
De uma forma mais abrangente, o programa sublinha que a “reversão demográfica” não será conseguida através de slogans, mas sim através da construção de um país onde a vida seja boa — e onde as pessoas queiram ficar. A política familiar é apresentada como um investimento estratégico na sobrevivência nacional, e não apenas como mais uma medida social.
Soberania nacional: um pilar inabalável
O programa consagra a soberania nacional entre os seus valores fundamentais. Define-a da seguinte forma: “A soberania significa que o país pode decidir livremente o seu presente e o seu futuro, sem influência externa”. Magyar quer que a Hungria deixe de ser aquilo a que chama “kompország” — literalmente um “país-balsa”, um país à deriva entre duas margens sem direcção própria, vassalo ora do Oriente, ora do Ocidente, consoante as circunstâncias. A sua resposta não é submeter-se a Bruxelas, mas ancorar-se firmemente no espaço europeu, defendendo o interesse nacional húngaro com clareza e método: “Basta de reverência às grandes potências, mas de um interesse nacional firmemente definido e representado”. Quer reforçar o Grupo de Visegrád, manter a cooperação regional e construir uma parceria com os aliados europeus baseada no respeito mútuo — e não na subserviência.
Anticorrupção: o verdadeiro motor da mudança
O programa cria um Gabinete Nacional para a Recuperação e Proteção de Ativos (Nemzeti Vagyonvisszaszerzési és Védelmi Hivatal) encarregado de desmantelar dezasseis anos de corrupção sistémica. Promete tornar públicos todos os documentos das reuniões governamentais entre 2010 e 2026, revelando acordos secretos, empréstimos ocultos e concessões disfarçadas. Ordena uma auditoria completa aos activos do Banco Nacional da Hungria sob a direcção de György Matolcsy, um associado próximo de Orbán.
O imposto sobre a riqueza dos multimilionários é a única medida do programa que poderia ser descrita como “de esquerda” — embora este tipo de medidas exista em países com uma tradição muito liberal. É apresentado como uma ferramenta para a justiça fiscal e o financiamento parcial de reformas, e não como uma ideologia redistributiva.
Economia: Abertamente Liberal-Conservadora
Na economia, o programa é claramente orientado para o mercado. Inclui cortes de impostos para todos, exceto para os multimilionários, uma política pró-PME, uma redução drástica da burocracia para as empresas e um ambiente “favorável às startups” e à inovação. Visa substituir “fábricas de montagem e de baterias poluentes” por centros de inovação que empreguem húngaros qualificados.
Não há nacionalizações, controlo de preços ou planeamento estatal. A principal promessa económica é libertar os 18 mil milhões de euros em fundos europeus congelados pela Comissão — aproximadamente 8 biliões de florins — e redireccioná-los para as PME húngaras e para a economia real. Trata-se de uma política de crescimento liberal financiada pela restauração do Estado de Direito, e não pela redistribuição de rendimentos.
O que Magyar diz sobre si próprio — e que ninguém traduz
A introdução do programa, assinada pelo próprio Magyar, contém uma declaração que diz muito sobre a sua visão política: “Juntos, vamos pôr fim à era Orbán-Gyurcsány” — ou seja, a dezasseis anos de governo nacionalista-conservador E ao legado do socialismo corrupto dos anos 2000. Posiciona-se deliberadamente fora dos dois campos que governaram a Hungria desde a transição democrática.
Esta postura é a de um reformista conservador-liberal que acredita no Estado de Direito, na propriedade privada, nas fronteiras soberanas, na família como unidade básica da sociedade e na adesão à União Europeia como estrutura geopolítica — mas não na ideologia progressista que Bruxelas por vezes exporta com a mesma insistência com que criticou Orbán pelos seus próprios ditames.
O que a esquerda e o centro elogiaram sem ler
Quando Emmanuel Macron felicitou Magyar pela sua vitória “pela Hungria na Europa”, quando Ursula von der Leyen declarou que “a Hungria escolheu a Europa”, celebraram o fim de Orbán. Ao fazê-lo, endossaram um programa que mantém o muro anti-imigrantes, proíbe a entrada de trabalhadores não europeus, duplica os benefícios familiares, consagra a soberania nacional como um valor inviolável e recusa-se a enviar armas para a Ucrânia.
Esse é o direito deles. Mas seria honesto admitir que a Hungria não escolheu a esquerda europeia. Escolheu uma mudança de governo, não uma mudança de valores.
O programa de Magyar chama-se “Os Fundamentos de uma Hungria Funcional e Humana”. Funcional e humana — eis os dois adjectivos. Não é de esquerda. Não é politicamente correto. Não é multicultural.
A Hungria continua a ser a Hungria. Simplesmente mudou de capitão.
fonte: Breizh Info
