Realismo político e renascimento europeu
in VoxEuropa Herald*
Antoine Dresse é um filósofo e YouTuber belga. No seu canal Ego non, produz vídeos sobre vários pensadores europeus, como Oswald Spengler, Gustave Le Bon, Edmund Burke e Carl Schmitt. Colabora também com Romain Petitjean como diretor editorial do Instituto Iliade, bem como com o seu compatriota David Engels. É autor de À la rencontre d’un cœur rebelle : Entretiens sur Dominique Venner (escrito em co-autoria com Clotilde Venner) e Le réalisme politique: principes et présupposés.
Poderia apresentar-se e falar sobre o seu trabalho?
Sou originário de Liège, na Bélgica francófona. Estudei Filosofia em Bruxelas e, mais tarde, em Friburgo, na Suíça. Actualmente trabalho principalmente como criador de vídeos no meu canal de YouTube, Ego Non, onde produzo vídeos sobre filosofia política. Também colaboro com o Instituto Iliade há dois anos. Para além do trabalho editorial que realizo no Instituto, irei em breve co-organizar uma das suas sessões de formação na Bélgica, juntamente com Jeremy Baneton. Também escrevo regularmente para a revista Éléments e publiquei recentemente um ensaio sobre o “realismo político”.
Quais são os principais objectivos que procura alcançar com o seu trabalho?
O objectivo do meu canal Ego Non é contribuir para a reconstrução de uma visão coerente do mundo — uma visão estruturada em torno de princípios filosóficos capazes de defender a civilização europeia. Criticar os excessos e as aberrações do pensamento progressista e igualitário é necessário, mas não nos podemos limitar a apenas comentar o turbilhão dos acontecimentos actuais. Devemos ser capazes de ligar a luta política concreta a princípios subjacentes, a uma visão do mundo e a fundamentos teóricos bem desenvolvidos — não como um meio de escapismo, mas para afirmar uma força positiva. Como disse Bergson, é preciso esforçar-se para “agir como um homem de pensamento e pensar como um homem de ação”.
Em cada um dos meus vídeos, procuro apresentar um conceito-chave ou uma ideia principal de um pensador específico, procurando sempre ligá-la, de uma forma ou de outra, a uma questão política contemporânea, de forma a oferecer uma nova perspectiva de reflexão.
Como belga, está numa das encruzilhadas da cultura europeia. Que lição retira disso?
Em primeiro lugar, uma lição sobre a identidade europeia. Nascido na província de Liège, cresci perto das fronteiras holandesa e alemã, e não era invulgar fazer pequenas viagens a Maastricht ou Aachen. Estar na encruzilhada de quatro grandes culturas europeias — holandesa, alemã, francesa e inglesa — permite compreender melhor o que temos em comum. De certa forma, sempre me senti “europeu”: europeu porque sou belga e belga porque sou europeu.
Quem são as suas inspirações intelectuais e literárias? Há autores ou pensadores, particularmente alemães, que tenham influenciado especialmente o seu trabalho?
Sem dúvida! A cultura germânica tem sido muito importante para mim desde a adolescência, começando com a descoberta de Wagner, que, sem exagero, foi um dos choques mais profundos da minha vida. A partir daí, interessei-me por Schopenhauer e Nietzsche, e depois pelos grandes nomes da literatura alemã dessa época: Goethe, Schiller, Herder, Hölderlin, Kleist, Eichendorff, entre outros. Tendo estudado filosofia, a Alemanha voltou a oferecer-me figuras indispensáveis como Kant, Fichte, Hegel, Marx, Husserl e Heidegger. Devo também referir a chamada “Revolução Conservadora”, tal como definida por Armin Möhler, cujos representantes — Ernst Jünger, Arthur Möeller van den Bruck, Oswald Spengler e, especialmente, Carl Schmitt, embora este seja algo atípico nesta corrente — desempenharam um papel decisivo na formação intelectual da minha obra.
Contudo, as minhas inspirações não se limitam ao mundo germânico. Há muito que sou um apaixonado pela literatura russa e por pensadores originais como Tchadaiev, Danilevski, Konstantin Leontiev, Vladimir Soloviev, Berdiaev e Soljenítsin. Os pensadores contrarrevolucionários também forneceram uma base sólida para a reflexão. Mas gostaria de referir especialmente autores difíceis de classificar, com os quais me identifico cada vez mais, como Maquiavel, Gustave Le Bon, Vilfredo Pareto, Isaiah Berlin e Julien Freund.
De que forma a sua experiência como filósofo influenciou a sua abordagem intelectual?
Creio que a minha abordagem deriva inteiramente do meu interesse pela filosofia. Aos juízes que lhe ofereceram a liberdade sob a condição de abandonar a filosofia, Sócrates respondeu: “Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”. Este princípio reflete a minha própria mentalidade. Praticar filosofia passa, principalmente, por clarificar os próprios pensamentos e libertar-se de “opiniões” não examinadas, e foi isso que me levou aos pensadores que apresento no meu canal.
O que significa ser “europeu” no contexto contemporâneo?
A própria necessidade de colocar esta questão demonstra o quanto o conhecimento geral e a consciência histórica entre os europeus se deterioraram. Desde Carlos Magno — apelidado em vida de “Rex Pater Europae” — que os europeus raramente duvidaram de que faziam parte de um único espaço civilizacional. A consciência nacional surgiu tardiamente, no seio de uma sociedade europeia preexistente. Hoje, muitos sentem solidariedade com o resto do mundo antes da Europa ou, inversamente, exibem um chauvinismo estreito, caricatural e antitradicional. Sofremos, por isso, tanto com uma educação cosmopolita desenraizada como com uma reescrita demasiado nacionalista da história do século passado.
Ser europeu hoje significa rejeitar a ideologia cosmopolita e igualitária que trata os indivíduos como intercambiáveis, e também reconectar-se com raízes históricas profundas, procurando naturalmente inspiração nas mesmas fontes que outros povos europeus. Mas é mais do que isso: ser europeu significa também reconhecer um passado partilhado e compreender que enfrentamos um desafio comum. O colapso da nossa cultura, o declínio antropológico e a substituição demográfica são ameaças que afectam a Europa no seu todo.
Como devemos defender e promover o património europeu?
Politicamente, a nível estatal, isto implica definirmo-nos, antes de mais, como parte de um todo civilizacional específico, o que significa rejeitar tudo o que prejudique esse espaço.
A nível pessoal, significa recusar a mediocridade promovida pela subcultura de massas. A cultura europeia aliou de forma primorosa requinte e grandeza, sofisticação e força; devemos cultivar ambas as qualidades na nossa vida interior: demonstrando força ao resistir ao declínio antropológico e à erosão da coragem, como Soljenítsin alertou, e cultivando uma apreciação pelas artes que elevam o espírito. Para elevar o espírito, é por vezes necessário distanciarmo-nos do ciclo das notícias políticas.
Por último, defender o património europeu significa, em última análise, transmiti-lo. A cultura só existe através das pessoas que a transportam; a preservação de qualquer cultura depende, antes de mais, da continuidade da população fundadora. Enquanto houver europeus, a cultura europeia poderá viver transformações e renascimentos.
Um termo popular à direita é “remigração”. Como o entende?
O termo “remigração” está, de facto, cada vez mais presente nos debates da direita. Para alguns, é uma miragem; para outros, uma necessidade. Até agora, porém, poucas propostas concretas foram apresentadas. Tanto quanto sei, Martin Sellner, figura chave do movimento identitário austríaco, é um dos poucos que refletiu seriamente sobre como a remigração de estrangeiros cultural, económica, política e religiosamente inassimiláveis poderá ser bem-sucedida. No início deste ano, publicou um pequeno, mas muito interessante livro com a editora Antaios (Remigration, ein Vorschlag), que tem o mérito de abordar esta questão de forma séria, evitando as várias fantasias que o conceito frequentemente provoca. Este é um caminho que também devemos trilhar no mundo francófono. Depois de popularizarmos a ideia de remigração online, devemos agora abordá-la com calma e reflexão.
Como demonstra Sellner, uma política de remigração consistiria essencialmente em incentivos para partidas voluntárias, reformas na legislação sobre a nacionalidade ou expulsões baseadas em critérios claramente definidos, como as actividades criminosas. Segundo o próprio, trata-se de um processo que demoraria 30 a 40 anos.
Além de demonstrarem a viabilidade, os europeus também precisam de ser convencidos da sua conveniência. Muitos ficam inicialmente chocados com a ideia de remigração, associando-a a cenários desumanos e inaceitáveis. No entanto, verifica-se o contrário: como Aristóteles observou na Antiguidade, as sociedades multiétnicas são inerentemente propensas a conflitos. O único cenário humano para evitar a escalada da violência é, portanto, uma política racional de remigração.
A França e a Alemanha são as duas maiores nações da Europa. Para que a Europa funcione adequadamente, precisam de caminhar no mesmo sentido. Como podem a França e a Alemanha colaborar?
Em primeiro lugar, examinando criticamente as suas próprias histórias nacionais. Desde a época de Francisco I, a França tem agido frequentemente contra a Europa, por exemplo, incitando os povos não europeus a intervir contra os seus vizinhos. A Alemanha, por outro lado, tendeu a conceber a Europa sob hegemonia alemã (como se verifica na reinterpretação histórica do Sacro Império Romano-Germânico como um proto-Estado alemão, quando era originalmente um império europeu).
Os franceses e os alemães devem, portanto, proceder a uma inversão histórica e reconhecer que estas tendências contraditórias conduziram gradualmente ao declínio da Europa. Embora a reescrita do passado seja inútil, considero a divisão do Império Franco em 843 — e a separação dos “Francos Ocidentais” e dos “Francos Orientais” — como a catástrofe original da Europa. Como observou o historiador austríaco Jordis von Lohausen: “O núcleo europeu ficou, a partir de então, dividido numa parte atlântica e outra virada para o Mar do Norte. Esta foi a tragédia da Europa.”
Devemos construir um “Vorfeld” europeu, uma rede de estruturas para fortalecer os laços culturais e metapolíticos?
Presumo que se esteja a referir ao livro de Benedikt Kaiser, Die Partei und ihr Vorfeld (O Partido e o seu Vorfeld). Tem toda a razão ao encorajar os seus compatriotas a criar um “mosaico” de direita que, apesar de abranger diversas tendências, caminhe no mesmo sentido e se apoie mutuamente, tal como fazem os grupos de esquerda. Este “Vorfeld” deve existir não só a nível nacional, mas também como rede transeuropeia. Os intelectuais e as figuras identitárias, pelo menos, têm o dever de olhar para além da sua realidade nacional e compreender as tendências mais amplas em toda a Europa.
No seu âmbito, o Instituto Iliade procura já construir uma rede europeia, através de parcerias com outros think tanks e editoras (Instituto Carlos V, Passagio al Bosco, JungEuropa Verlag, etc.). Também discuto isto com amigos como David Engels e Julien Rochedy, e certamente trabalharemos para alcançar este objetivo no futuro.
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é uma iniciativa que dá voz aos que moldam a Europa de hoje: políticos, ensaístas, filósofos, ativistas, artistas e influenciadores. Estes retratos são respostas coletivas às crises que abalam a nossa Europa. Perante as grandes transformações da nossa época, o VoxEuropa Herald dá voz àqueles que, por toda a Europa, partilham soluções e visões para o futuro. A mensagem é clara: as realidades europeias exigem respostas europeias.
