Conheçam o Bruno. Por favor, conheçam o Bruno. É ele que vos pede!
por João Pereira dos Santos
O Bruno acordou há uns tempos em Bruxelas, olhou para o Parlamento Europeu e pensou:
“E se ninguém reparar em mim?”
Era um risco. Em Bruxelas, uma pessoa pode trabalhar anos, estudar dossiers, negociar legislação e acabar como a Liliana Góis. Não sabem quem é? Eu também não sabia. Mas foi eurodeputada.
“Tenho de aparecer!”, pensou o Bruno. O parlamento europeu não é pródigo a criar primeiros ministros, e o Bruno está predestinado. A vocação dele é ser primus inter pares.
Um dia viu Charlie Kirk ser assassinado e, no meio das celebrações, percebeu uma coisa: o homem era mesmo muito famoso!
Campus cheios. Jovens aos milhares. Vídeos a circular. Meio mundo a discutir um tipo que fazia perguntas a estudantes debaixo de uma tenda.
Bruno ficou surpreendido. Não com a ideologia, naturalmente. Deus o livre. O Bruno é do bem. Ficou surpreendido foi com os emojis!
Perguntas. Jovens. Câmaras. Frases tiktokaveis. Influência política.
Mas Kirk tinha um problema: aceitava confronto. Fazia perguntas e aguentava respostas. Entrava na arena e saía arranhado. Ao ponto de ser assassinado por quem não tinha outros argumentos.
“Demasiado risco. Alguém pode responder fora do guião e o Ventura aproveita para fazer um vídeo a abanar a cabeça a olhar para mim.”
Era preciso adaptar. Ficaram os jovens, as câmaras e o tik tok. Saiu o debate e entrou a sensibilização.
Onde Kirk dizia “provem que estou errado”, o Bruno diz “se disseres que estou errado, és um malvado sem coração.”
E assim nasceu a operação influencer do Bruno, o Bora. Não com o orçamento das garrafas de champanhe do Vítor Escária, até porque esse está apreendido, mas sim com o orçamento do Parlamento Europeu.
“Perfeito. Isto não é campanha. É pedagogia financiada pela democracia, e por isso nem corro o risco de me acontecer o mesmo que à Le Pen.”
Muito melhor. Bruno olhou para a sua obra, e viu que era bom.
E assim o debate morreu, assassinado na versão fofinha dos campos de reeducação da esquerda: sem arame farpado, sem botas, e sem retratos na parede. Só cadeiras de escola, linguagem fofinha, microfones, empatia e aquela pressão macia que explica ao adolescente que ele é livre, totalmente livre, desde que chegue à conclusão certa.
O Bruno é o serial killer do debate. Aproxima-se sorridente, chama-lhe diálogo, cobre-o com empatia e, quando o debate dá por si, já morreu numa sala de sensibilização, a ouvir o último sermão do Bruno, tal como fazia o Dexter.
O Bruno não faz política. Isso tem conflito, escolha e responsabilidade. O Bruno prefere educar sobre o certo e o errado. Ele não disputa o poder. Isso está abaixo dele. A estratégia dele é atrair o poder como inevitabilidade do destino.
E assim foi às escolas. Influencers ao lado, adolescentes à frente, televisões e jornais à porta, agência de comunicação a fazer reels.
As crianças estavam na sala, claro. Mas eram figurantes. A audiência era outra: os camaradas.
“Camaradas, isto não é promoção pessoal. É voluntariado remunerado.”
Pensou o Bruno que era preciso chegar aos rapazes. Ou, mais precisamente, chegar às televisões dizendo que se chegou aos rapazes.
Alguns dizem que estão sozinhos, sem futuro, sem valor, sem lugar. “Perigoso. Ainda se atrevem a apelidar de sofrimento a radicalização fascizante.”
E então lá entra a empatia, de bata branca, a fazer triagem. “O rapaz não discorda: foi capturado.” “O miúdo não protesta: está radicalizado”. “Não estás a sofrer: estás a ser manipulado para pensares que estás a sofrer”. “Não precisas de soluções: precisas de sensibilização”.
“Excelente!!” pensou o Bruno. “Assim não respondo ao problema. Trato a pessoa.”
O Bruno tem empatia por todos. Pela Mariana Monteiro. Pela Mariana que foi Mariano. Pelo direito da Mariana que foi Mariano a querer um Bruno.
O Bruno apoia. O Bruno compreende. O Bruno quer normalizar, e quer que a Mariana que foi Mariano tenha o seu Bruno, desde que esse Bruno não seja ele.
“Eu apoio, naturalmente. Mas apoiar não é… quer dizer… é complexo. Eu até apoio, mas calhei de gostar de outra. Podia ter gostado mas conheci a outra Mariana primeiro.”
A empatia do Bruno é universal no discurso e cautelosa no corpo. Protege a Mariana. Protege a Mariana que foi Mariano. Protege o direito da Mariana que foi Mariano a querer um Bruno, e, finalmente, protege este Bruno da hipótese de ser o Bruno que namora com o ex-Mariano.
No fim, Bruno olha para o telemóvel. A fotografia está boa e os jovens parecem atentos. Os jornais escreveram, a televisão filmou, e a agência de comunicação recolheu os reels. A legenda respira virtude. Bruno conseguiu passar a sessão a falar sobre abstrações como ódio, amor, tolerância, empatia, diálogo, fazendo trabalho de relojoeiro para evitar coisas concretas como emprego, saúde, reformas ou habitação.
“Boa. Parece espontâneo.” Bruno olhou para a sua obra, e viu que era boa.
A democracia foi defendida. O algoritmo também.

