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A Esquerda e a homossexualidade: uma história inconveniente

«Destruam a homossexualidade e o fascismo desaparecerá». Gorky

por João Martins

A esquerda contemporânea apresenta-se frequentemente com a roupagem do fiel escudeiro das causas das minorias, da diversidade e da inclusão. No discurso político dominante em muitos partidos ditos progressistas, a defesa das minorias sexuais ocupa hoje um lugar central na narrativa moral e identitária. Não raras vezes, esse posicionamento surge de mão dada com uma atitude hostil perante os adversários políticos. Assim, é comum que a direita seja retratada como intrinsecamente retrógrada, moralmente suspeita ou estruturalmente adversa à diversidade sexual. A crítica política transforma-se, então, num verdadeiro arsenal de adjectivação – “homofóbico”, “reaccionário”, “retrógrado”, “intolerante” – utilizado não apenas para contestar ideias, mas também para encurralar, deslegitimar ou mesmo cancelar política e socialmente quem se situe fora do auto-apelidado campo progressista.

Este enquadramento moral cria uma narrativa relativamente simples: de um lado encontram-se as forças da emancipação, da tolerância e do progresso; do outro, os bastiões do conservadorismo moral e da repressão sexual. Contudo, quando se estuda com algum cuidado a história do pensamento político e dos regimes revolucionários que inspiraram grande parte da tradição socialista e comunista, emerge uma tensão difícil de ignorar. Muitos dos ídolos intelectuais e políticos da esquerda – figuras frequentemente celebradas como símbolos de libertação e justiça social – manifestaram, nas suas próprias épocas, posições profundamente hostis à homossexualidade.

E esta contradição não é apenas circunstancial nem marginal. Ela atravessa tanto certos aspectos da teoria marxista clássica quanto a prática concreta de vários regimes comunistas do século XX. Em diferentes contextos históricos, a homossexualidade foi descrita como decadência burguesa, patologia social ou desvio moral incompatível com o ideal do “homem novo” revolucionário. É precisamente esse conflito histórico entre o discurso contemporâneo de inclusão e o legado frequentemente repressivo de muitos dos seus referenciais políticos que importa examinar. É sobre essa história, e sobre as suas contradições, que nos debruçaremos nas linhas que se seguem.

Marx, Engels e o preconceito no pensamento socialista inicial
Karl Marx e Frederich Engels de mãos dadas. Ilustração de um artigo sobre homossexualidade e comunismo no Gay Liberator, Dez. 1974.

Nos escritos de Karl Marx não se encontra uma teoria sistemática sobre a homossexualidade. Contudo, é muito seguro que os pais do socialismo científico teriam uma opinião muito pouco favorável em relação ao homossexualismo. Quando o jurista alemão Karl Heinrich Ulrichs – um dos primeiros defensores públicos do meio homossexual – enviou os seus escritos a Karl Marx, este passou um dos textos a Friedrich Engels. A reacção de Engels foi de profundo desprezo. Numa carta a Marx de 22 de Junho de 1869, referiu-se ao movimento emergente dos homossexuais como uma tentativa de “transformar obscenidades em teoria” e que “Os pederastas começam agora a organizar-se e acreditam constituir um poder no Estado. Falta-lhes apenas a coragem de proclamar abertamente o seu programa[1].

O tom não deixa qualquer margem para interpretações. Engels via o nascente movimento homossexual como algo ridículo e degenerado.

Mesmo dentro da tradição socialista posterior, a homossexualidade foi frequentemente interpretada como um sintoma de decadência burguesa. A ideia de que comportamentos sexuais “não reprodutivos” seriam produtos de sociedades decadentes tornou-se relativamente comum em certos círculos marxistas do início do século XX.

A revolução bolchevique: da liberalização inicial à repressão estalinista

A história soviética oferece talvez o exemplo mais claro da ambiguidade da esquerda revolucionária sobre o tema.

Após a Revolução de Outubro de 1917, o novo governo bolchevique aboliu o antigo código penal czarista. Como consequência indirecta, as leis contra a sodomia desapareceram. Durante alguns anos, a União Soviética teve uma das legislações mais liberais da Europa no que diz respeito à homossexualidade.

Marinheiros russos com jovens vestidos com roupas femininas.

Contudo, essa tolerância inicial não reflectia necessariamente uma aceitação ideológica profunda. Muitos dirigentes bolcheviques continuavam a ver a homossexualidade como um fenómeno patológico ou socialmente indesejável.

A situação mudou drasticamente sob Estaline. Em 1933 foi introduzido o Artigo 121 do Código Penal soviético, que criminalizava relações sexuais entre homens “muzhelozhstvo”, punindo-as com até cinco anos de trabalhos forçados[2].

A própria propaganda oficial reflectia esse novo clima moral. A Grande Enciclopédia Soviética, edição de 1952, afirmava: “A homossexualidade é uma perversão sexual vergonhosa. Na sociedade soviética, baseada em princípios morais saudáveis, tal comportamento é considerado criminoso[3].

Também figuras culturais alinhadas com o regime adoptaram uma retórica virulentamente homofóbica. O escritor soviético Maxim Gorky escreveu num artigo no jornal Pravda de 1934: “Destruam a homossexualidade e o fascismo desaparecerá[4]. A frase ilustra bem a associação, comum na propaganda soviética da época, entre homossexualidade, decadência moral e inimigos políticos do regime. Hoje é sabido que muitos homossexuais foram estigmatizados como “elementos degenerados” e sujeitos a internamentos psiquiátricos, isto quando não eram enviados para os infames gulags.

Cuba revolucionária: campos de trabalho e “reeducação”

Se a União Soviética oferece um exemplo europeu, Cuba fornece talvez o caso latino-americano mais emblemático. Durante as décadas de 1960 e 1970, o regime de Fidel Castro perseguiu abertamente os homossexuais. Muitos foram enviados para as UMAP (Unidades Militares de Ajuda à Produção), campos de trabalho agrícola destinados à “reeducação” de indivíduos considerados desviantes, incluindo religiosos, dissidentes políticos e homossexuais. O lema atribuído a alguns desses campos sintetiza bem o espírito da época: “El trabajo los hará hombres”. A lógica ideológica era clara: o revolucionário ideal deveria encarnar um modelo de masculinidade viril e produtiva.

Décadas mais tarde, numa entrevista concedida em 2010 ao jornal mexicano La Jornada, Fidel Castro reconheceu as políticas contra homossexuais nos anos 1960 declarando que “tínhamos tantos problemas de vida ou morte que nem lhe prestámos atenção…” para concluir “estou a tentar definir os limites da minha responsabilidade em tudo isto[5].

Agentes policiais cubanos à paisana detêm participantes na marcha pelos direitos LGBT. (2019)

Também Che Guevara partilhava essa posição anti-homossexual. Numa carta de 1959 ao dirigente revolucionário Armando Hart, afirmou que não deveriam ser integrados nas milícias “elementos de conduta duvidosa, como os homossexuais[6]. Era uma visão dominante que associava a homossexualidade à fraqueza moral ou à decadência burguesa, uma atitude que ajudou a legitimar a criação das já mencionadas UMAP.

Salvador Allende e o determinismo biológico

Mesmo figuras associadas à esquerda democrática apresentaram posições que hoje seriam consideradas profundamente problemáticas, para não dizer racistas e homofóbicas[7].

No domingo, 22 de abril de 1973, ocorreu o primeiro protesto LGBT da história do Chile, reprimido por… Salvador Allende.

Antes de se tornar presidente do Chile, Salvador Allende escreveu uma tese de medicina em 1933 intitulada Higiene Mental y Delincuencia. Nela, abordava a homossexualidade em termos de degeneração biológica e chegou a sugerir intervenções médicas para corrigir o que considerava uma anomalia. Entre as propostas mencionadas estava a ideia de implantes hormonais derivados de tecido testicular, numa tentativa de “normalizar” a orientação sexual[8]. Esse tipo de abordagem reflectia o paradigma médico dominante da época, que tratava a homossexualidade como patologia.

Mao e a moral revolucionária

Na China de Mao Tsé-Tung, a homossexualidade também foi tratada como comportamento desviante associado à decadência burguesa. Durante a Revolução Cultural, indivíduos suspeitos de comportamentos “imorais” podiam ser perseguidos, humilhados publicamente ou enviados para programas de reeducação.

Embora Mao não tenha legado citações específicas sobre homossexualidade, a política do regime enquadrava-a frequentemente como “repulsiva” ou como uma degeneração moral.

Cartaz homoerótico chinês (década de 1950).

Apenas em 1997 a ditadura comunista chinesa deixou de criminalizar formalmente as relações homossexuais[9].

Álvaro Cunhal e o conservadorismo moral do comunismo português

O caso português também ilustra esse conflito histórico. Há relatos de que um militante e dirigente do PCP, Júlio Fogaça, terá sido expulso do partido devido a ser homossexual[10]. Álvaro Cunhal, dirigente e referência máxima do Partido Comunista Português, foi questionado numa entrevista televisiva conduzida por Carlos Cruz sobre a homossexualidade. A sua resposta foi breve e assaz reveladora: “É uma coisa muito triste[11].

A frase sintetiza uma atitude bastante comum entre os dirigentes comunistas da geração formada no ambiente moral de esquerda do século XX e que concebia a homossexualidade como desvio ou problema social.

A contradição histórica

A ironia histórica é por demais evidente. Muitos movimentos de esquerda contemporâneos apresentam-se como os principais defensores das minorias sexuais e da diversidade de género. Porém, grande parte do panteão revolucionário que inspira essa tradição política governou e viveu em contextos onde a homossexualidade era vista como expressão de degeneração ou doença, sendo legalmente criminalizada e os homossexuais sujeitos a processos de chantagem sexual, reeducação, medicação coerciva e campos de trabalho.

As ideias evoluem e as sociedades transformam-se, mas a esquerda actual pontapeia a sua própria história e afiança que não pode ser julgada pelas posições dos seus antecessores, visto que tal deve ser devidamente entendido à luz da época, uma posição que, diga-se, não reconhece à direita em nenhuma circunstância.

Contudo, a História recorda-nos que a relação entre a esquerda e a apregoada diversidade sexual nunca foi linear. Pelo contrário, foi marcada por ambivalências, contradições e, documentadamente, por uma repressão aberta. Fazer tábua rasa destes factos ou intencionalmente ignorar essa herança histórica é uma manobra de evasão da realidade e, consequentemente, revela-se intelectualmente desonesto.

Um quadrante político que pretende falar em nome da emancipação humana e que assume a bandeira das chamadas minorias sexuais deveria recuperar uma prática entretanto caída em desuso – a autocrítica – e encarar honestamente a sua própria história.

 

[1] Cf. https://www.marxists.org/archive/marx/works/1869/letters/69_06_22.htm

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/LGBTQ_history_in_Russia

[3] https://www.marxists.org/glossary/terms/h/o.htm#homosexuality

[4] https://libcom.org/article/gay-gulag

[5] https://www.jornada.com.mx/2010/08/31/mundo/026e1mun

[6] Samuel Farber, The Origins of the Cuban Revolution Reconsidered, 2006.

[7] Víctor Farías, Salvador Allende: antisemitismo y eutanásia, Editorial Maye, 2005.

[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/Salvador_Allende

[9] https://thechinaproject.com/2021/07/22/chinas-complicated-relationship-with-lgbtq-rights/ 

[10] https://dezanove.pt/a-dicotomia-politica-esquerda-direita-e-a-homossexualidade-2443759/

[11] https://www.caoquefuma.com/2018/03/esquerda-direita-gays-e-jornalismo.html