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Não é crise migratória, estúpidos! É invasão!

por João Martins

A Europa ─ e Portugal sobretudo ─ enfrenta um confronto entre a realidade e o discurso hegemónico no que diz respeito à imigração, soberania e identidade nacional.

 

A linguagem nunca é neutra. Quem controla as palavras controla, em larga medida, a forma como a realidade é percebida. É por isso que a batalha política contemporânea já não se trava apenas nas fronteiras, nos parlamentos ou nas urnas. Trava-se, acima de tudo, no domínio da linguagem. E poucos temas ilustram melhor este fenómeno do que a imigração em massa para a Europa.

Nas últimas décadas, grande parte dos meios de comunicação social abandonou a pretensão de descrever os acontecimentos para passar a enquadrá-los segundo uma determinada grelha ideológica. Em vez de permitir que o leitor retire as suas próprias conclusões, fornece-lhe previamente as categorias conceptuais através das quais deve interpretar os factos.

Expressões como “crise migratória”, “fluxos migratórios”, “movimentos populacionais”, “ajuda humanitária” ou ainda “aldeia global” não são meras descrições. São escolhas semânticas que visam conferir um carácter inevitável, quase natural, a um problema que um número crescente de europeus entende resultar de decisões políticas concretas. Assim, o emprego desta narrativa tem por fito atenuar a dimensão política e estratégica da imigração.

Esta opção lexical não surge num vazio. É acompanhada por uma visão do mundo partilhada por sectores das elites económicas e políticas. As grandes multinacionais e parte da alta finança tendem a encarar a imigração como um instrumento para aumentar a oferta de mão-de-obra, manter os salários em baixa e responder ao envelhecimento demográfico através da importação contínua de alógenos. Nesta perspectiva, as fronteiras nacionais tornam-se obstáculos à livre circulação de agentes económicos.

Por outro lado, a esquerda europeia apoia políticas migratórias mais abertas por razões ideológicas e políticas. O seu internacionalismo privilegia uma concepção cosmopolita da sociedade, na qual a identidade nacional ocupa um lugar insignificante. Paralelamente, existe igualmente um cálculo eleitoral simples: à medida que os imigrantes adquirem a nacionalidade dos países de acolhimento, alteram gradualmente a composição do eleitorado e tornam-se potenciais votantes nos partidos que facilitaram a sua obtenção de nacionalidade, perpetuando a esquerda no poder.

Agente activo nesta convergência de interesses é um jornalismo ideologicamente coaptado que mostra estar cada vez menos preocupado em descrever a realidade e cada vez mais empenhado em moldá-la. A informação transforma-se em pedagogia ideológica. As palavras deixam de servir os factos e passam a servir uma determinada agenda ou visão dos factos.

Neste contexto, atente-se no recente episódio da entrada em massa de imigrantes em Ceuta, episódio que foi astutamente denominado “crise migratória”. Depois de as autoridades marroquinas terem reduzido propositadamente o controlo fronteiriço, cerca de 70 mil pessoas atravessaram a fronteira terrestre e marítima para o enclave espanhol num curto espaço de tempo. Num primeiro momento, o Governo espanhol declarou que nenhum ser humano é ilegal. Porém, quando confrontado com os números da invasão e face ao alarme social provocado por este acto de guerra híbrida lançado por Marrocos, decidiu ─ a contragosto ─ classificar o episódio como um ataque à soberania do país.

Todavia, diversos analistas, despudoradamente ideologizados, subtraíram-se à realidade e não tiveram pejo em negar aquilo que é por demais perceptível, afirmando estupidamente que “uma invasão não se faz de calções, de chanatos” ou, noutro canal televisivo, que a invasão não fora planeada e que era imperativo assegurar os direitos humanos dos invasores! Escassos foram aqueles que tiveram o discernimento e coragem para interpretar essa invasão como uma forma de pressão política exercida por Marrocos sobre Espanha, enquadrável em estratégias de guerra híbrida e assimétrica, isto é, na utilização de instrumentos não-militares para alcançar objectivos políticos, tal como demonstra Kelly M. Greenhill no livro Armas de Migração Maciça (Editora Contra-Corrente, 2021).

A despeito das imagens captadas pelas câmeras de televisão, nas quais se viam apedrejamentos de viaturas policiais por parte dos invasores, os órgãos de comunicação globalistas privilegiaram uma narrativa centrada exclusivamente na “dimensão humanitária”, destacando “histórias individuais” e o “sofrimento dos migrantes”. Essa camuflagem conceptual tem por desígnio primário relegar para segundo plano a utilização deliberada da pressão migratória como instrumento geopolítico e enfraquecer ou debelar a repulsa social.

É precisamente aqui que se manifesta aquilo que classificamos como jornalismo-activista. Em vez de limitar-se a informar, selecciona cuidadosamente o vocabulário, enfatiza determinados aspectos da realidade e minimiza outros, orientando a percepção pública numa direcção politicamente desejada. Não se trata apenas de escolher palavras mais suaves, trata-se, isso sim, de estabelecer os limites do próprio debate. Quem utiliza termos diferentes pode ser rapidamente catalogado como radical, extremista ou xenófobo, independentemente da consistência dos seus argumentos.

Numa democracia saudável, os conceitos fundamentais devem permanecer abertos à discussão. Quando nos deparamos com um malabarismo lexical em forma de manipulação cognitiva e determinadas palavras passam a ser proibidas não por serem falsas, mas porque são consideradas politicamente inconvenientes, instala-se uma espécie de ortodoxia linguística onde a discordância é tratada como um desvio moral.

A Europa ─ e Portugal sobretudo ─ enfrenta um confronto entre a realidade e o discurso hegemónico no que diz respeito à imigração, soberania e identidade nacional. A verdade é que é legítimo defender um controlo mais rigoroso das fronteiras, assim como é igualmente legítimo defender o nosso direito a preservar a nossa identidade nacional e a definir quem queremos que entre e permaneça no nosso país. O problema não reside, portanto, na existência de posições contrárias à imigração, à colonização da Europa ou à substituição demográfica, mas antes naqueles que promovem essas políticas e procuram condicionar antecipadamente o debate através da manipulação da linguagem.

As palavras importam. Não apenas porque alteram a realidade, mas porque também influenciam a forma como essa realidade é compreendida. Ora, quando o vocabulário deixa de ser um instrumento de exposição dos factos para se transformar numa ferramenta de persuasão política, o jornalismo abandona a sua função primordial: informar com imparcialidade para que os cidadãos possam julgar por si próprios.