Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

Flotilha à la carte

por Filipe Carvalho

«a comédia nacional nunca teve tanta graça»

Lisboa acordou mais segura de si mesma, banhada pela luz dourada da virtude e pelo perfume inconfundível do activismo à la carte. O Médio Oriente, esse novelo secular de tensões e conflitos geopolíticos complexos, está finalmente prestes a encontrar a paz. E a quem devemos este milagre da diplomacia internacional? Aos tanques da ONU? Aos tratados de Genebra?

De um lado, um dos maiores e mais conhecidos comediantes do planeta; do outro, a nossa falange de bravos intelectuais das redes sociais, batendo com a porta com o estrondo de quem acaba de salvar a humanidade ao carregar no botão «publicar» do Instagram. A assimetria da contenda roça a comédia involuntária. Imaginar a reacção de Jerry Seinfeld ao saber que os Cebola Mol ou o Conjunto Cuca Monga lhe retiraram o cumprimento é um exercício delicioso. É o equivalente humorístico a um pardal zangado recusar-se a voar sobre o Empire State Building em sinal de protesto.

O titã da comédia americana ficou decerto paralisado de horror ao perceber que não partilharia o mesmo oxigénio com o tributo pop de Carolina Deslandes e Bárbara Tinoco. A lógica da coerência destes nossos criativos é de uma beleza plástica magnífica. O activismo moderno exige, acima de tudo, que a indignação seja extremamente selectiva e, de preferência, que não belisque os contratos de publicidade que pagam as contas ao fim do mês.

Manifestam um asco profundo a pisar o mesmo espectáculo que Seinfeld, mas o escrutínio humanitário parece esfumar-se quando se trata de promover marcas de telemóveis produzidos em condições laborais medievais, ou quando aceitam patrocínios de gasolineiras que poluem o planeta com a mesma alegria com que um comediante repete uma piada velha.

O importante aqui é manter o filtro da pureza ideológica impecável para a bolha lisboeta aplaudir e para que Inês Aires Pereira já possa dormir descansada, sabendo que fez a sua parte para a harmonia universal. O mundo pode estar a arder, mas a comédia nacional nunca teve tanta graça.