Eduardo Neto
6 de setembro de 2026 ficará marcado na História da Europa democrática ou do pós-guerra, como o começo da nova primavera dos povos.
O resultado histórico no pequeno estado alemão da Saxónia-Anhalt consagra o processo político que se tem vindo a desenrolar no resto da Europa, pois apesar dos partidos da família política da AfD terem vindo a conseguir grandes resultados eleitorais e até terem formado governo em estados da União Europeia, tal nunca ocorreu na Alemanha. A AfD pode, pela primeira vez governar e implementar um programa político a nível regional, que poderá ser o modelo para um eventual governo nacional. Esta virada à direita no maior e mais poderoso país da União Europeia dará início a toda uma mudança política e socioeconómica na Europa, traduzindo-se finalmente numa agenda identitária e até mesmo num processo de revitalização nacional.
Desde 2021 que o partido Alternativa para a Alemanha, tem vindo a obter grandes resultados eleitorais por toda a Alemanha, nomeadamente no Leste, associado à antiga RDA, aonde o partido ronda os 20-30%, chegando mesmo a ter resultados para formar governo na Turíngia em 2024, com Bjorn Höcke à proa do ramo local. O sistema uniu-se e surgiu uma coligação pouco natural entre o SPD, a CDU e o BSW[1], para impedir o legítimo governo da AfD. Acontece que tanto a nível nacional, quanto regional, os partidos do sistema têm usado a estratégia do cordão sanitário para impedir que a AfD chegue ao poder onde quer que seja, com especial atenção à figura de Bjorn Höcke, líder da ala identitária e de linha dura do partido. Bjorn perdeu a imunidade parlamentar do Landtag da Turíngia simplesmente por ter proferido o lema “Tudo pela Alemanha”, sendo este lema associado às SA pelo sistema atual. A vitória obtida dois anos mais tarde representa precisamente o desejo de uma população de contrariar este espírito de culpabilização eterna e de vergonha para com a própria História. Note-se que a mínima demonstração de orgulho nacional, seja na forma do hino, no hastear da bandeira, no entoar de palavras de ordem sem qualquer conotação política ou associação com o regime nacional-socialista é escrutinada ao milímetro e se de alguma forma for associada ao discurso de ódio, é severamente punida.
A AfD tem vindo, felizmente a questionar a problemática do orgulho nacional e o revisionismo histórico vigente, na forma do seu programa político, onde propõe medidas a nível da cultura e da educação, que promovam um maior orgulho na História da Alemanha, com enfoque no período da Unificação e da governação de Bismarck, além de promover o respeito e a homenagem aos veteranos das duas grandes guerras.
Precisamente, o programa traçado para a Saxónia-Anhalt, falava duma reforma curricular, que promova o ensino da História nacional da Alemanha de uma forma verdadeiramente rigorosa e verossímil, enfatizando o século XIX que tem sido negligenciado no currículo[2] e também abordando o século XX de uma forma mais rigorosa, sem as agendas do costume que demonizam constantemente o povo alemão, desvirtuando a sua memória colectiva. Porque é que os veteranos de uma nação têm de ser sempre retratados como criminosos? Os outros exércitos não cometeram atrocidades semelhantes? As vidas dos civis alemães valem menos que a dos outros todos?
Focando agora nos números, no candidato e nas linhas gerais do seu programa. A AfD obteve 43,8% dos votos, conseguindo 39 lugares no landtag, faltando apenas 3 para a maioria absoluta. O BSW, partido que pode ser a chave para a viabilização de um governo AfD conseguiu chegar à marca dos 5,2% com 4 lugares. É possível um acordo entre os dois partidos, sendo o BSW de esquerda, mas com pautas semelhantes no que toca à imigração, à questão da Ucrânia e à reversão da desindustrialização que afecta o Leste, por vezes evocando a antiga RDA. Estas eleições representam também o colapso da estratégia do cordão sanitário e evidenciam a falta de popularidade de Mertz. Mostram também que o povo alemão quer menos imigração, quer menos precariedade, quer emprego, quer dignidade, naturalmente o livre desenvolvimento familiar, rejeitando pautas wokistas, demonstrando um desejo de preservar a sua identidade nacional e a coesão social que tem vindo a ser erodida nas últimas décadas, resultado das desastrosas políticas de Merkel. Destaca-se também a jovialidade e energia do candidato Ulrich Siegsmund, jovem de 35 anos, formado em psicologia empresarial, escolheu como slogan de campanha “Alles ist möglich” (Tudo é possível) e de facto provou mesmo isso, pois apesar das pressões externas e internas não moderou o discurso, não afastou a pauta da Remigração, não apelou a promessas populistas vazias e conseguiu galvanizar o voto de todas as faixas etárias e de todos os grupos sociais. Focou-se tanto na questão da imigração, quanto na questão cultural, na reforma das universidades e na reindustrialização da Saxónia-Anhalt.
Sem qualquer surpresa, os meios de comunicação e os políticos do sistema repetiram os chavões do costume, procurando demonizar o partido e infantilizar o eleitorado. A fórmula usada é a mesma de sempre, unem-se os partidos, os políticos, os intelectuais da esquerda e do centrão, os actores, os escritores, as celebridades e outras figuras da esfera pública que procuram controlar os danos, através da descredibilização do voto popular. Olham para o eleitorado de modo paternalista, pois este só vota porque está descontente, por ignorância e porque é alheio aos valores democráticos. Resumindo, o eleitorado não vota porque as ideias ou o programa do partido AfD são benéficas para o país, mas sim porque é um voto eterno de protesto e porque no fundo o eleitorado é infantil e incapaz de pensar por si mesmo, nunca é porque o programa dos outros é pior ou porque falharam para com o eleitorado.
Concluo o artigo, com a evidência de que a Alemanha carrega um peso político único, sendo o maior membro da União Europeia. O resultado de dia 6/09/2026 pode catalisar a mudança dentro da Alemanha, que por sua vez pode criar uma verdadeira reforma dentro da União Europeia. Os próximos anos e a gestão deste governo serão decisivos na mudança política da Europa. Uma Alemanha liderada pela AfD poderá guiar a Europa para um caminho mais soberano, mais forte, mais orgulhoso, inspirando um novo curso aos restantes estados-membros, incluindo o nosso Portugal. Viva a Europa das Pátrias livres.
[1] Importante referir que a líder local foi contra as directivas do próprio partido e fez coligação para impedir o governo da AfD.
[2] É importante referir que o programa especificou duas datas fundacionais importantes, a batalha de Leipzing em 1813 e a Unificação Alemã em 1871.
