por Constantin Von HoffMeister
Os comentários que se acumulam em torno de Le Camp des Saints são, por si só, reveladores: giram incessantemente em torno da exactidão da previsão, enquanto a realidade descrita pelo romance continua a expandir-se. O livro deixou de funcionar como advertência; passou a funcionar como diagnóstico já confirmado.
A Europa Ocidental está a cometer suicídio, e os sessenta mil migrantes africanos que acabam de romper as barreiras de Ceuta são apenas a mais recente prova disso. Enquanto as forças espanholas cedem sob a pressão, os políticos do continente limitam-se a emitir comunicados, as câmeras registam tudo e nada de substancial é feito. A invasão prossegue porque, literalmente, ninguém está preparado para a travar. Esta é a fase terminal de uma civilização que já decidiu morrer.
As linhas policiais estão a colapsar sob o peso dos números; habitações são invadidas, propriedades destruídas e as forças locais debatem-se para manter até a mais elementar ordem pública. As figuras da direita europeia emitem as declarações esperadas. Alice Weidel, da AfD, aponta a Alemanha como o destino óbvio e exige o encerramento imediato das fronteiras e deportações implacáveis. Herbert Kickl, do Partido da Liberdade da Áustria, declara que apenas uma «Fortaleza Áustria» pode responder ao historial ininterrupto de fracassos da União Europeia. Marine Le Pen e Jordan Bardella, da União Nacional, prometem «reformar Schengen» e reservar a livre circulação exclusivamente aos cidadãos da União Europeia. Nigel Farage chama a atenção para os jovens que surgem nos vídeos e prevê que, em breve, estarão em Calais. Geert Wilders classifica o fenómeno como uma «invasão islâmica» e exige que toda essa massa seja devolvida. A retórica é uniforme, a urgência é teatral e o resultado prático continua, até agora, a ser idêntico ao de todas as crises anteriores.
Literalmente, NINGUÉM na Europa está VERDADEIRAMENTE empenhado em pôr termo a isto. Governos e oposições limitam-se a assistir ao espectáculo. Não surge qualquer defesa efectiva, não aparece qualquer resistência organizada, nada interrompe o fluxo contínuo. O espectáculo é triste e inevitável. Oswald Spengler cartografou-o em O Declínio do Ocidente (1918-1922). A imigração em massa é um sintoma do declínio, não a sua causa. A civilização ocidental entrou na sua fase de Inverno; o processo obedece à sua própria lei de ferro e não pode ser invertido. Um homem de oitenta anos não volta a ter dezasseis, e o Ocidente não recupera a vitalidade que já consumiu. A indiferença não se limita às elites. A maioria dos europeus comuns partilha a mesma letargia. O paralelo é a Roma Imperial na sua fase terminal, quando a própria cidade era composta em oitenta por cento por estrangeiros e apenas vinte por cento por romanos étnicos. Mesmo então, o imperador dirigia-se a uma humanidade abstracta, em vez de ao povo romano. Hoje, o culto do universalismo continua a consumir o Ocidente por dentro. O fim aproxima-se uma vez mais.
O livro Le Camp des Saints (1973)[1], de Jean Raspail, permanece como a mais clara antecipação ficcional desta mesma sequência de acontecimentos. Nesse romance, as frotas chegam, as autoridades ficam paralisadas, o vocabulário moral volta-se contra os europeus autóctones e a civilização francesa dissolve-se sob o peso de números que se recusa a enfrentar. Quem regressa ao livro após cada nova vaga migratória no Mediterrâneo constata quão pouca imaginação foi necessária ao autor. Os comentários que se acumulam em torno de Le Camp des Saints são, por si só, reveladores: giram incessantemente em torno da exactidão da previsão, enquanto a realidade descrita pelo romance continua a expandir-se. O livro deixou de funcionar como advertência; passou a funcionar como diagnóstico já confirmado.
Uma larga fatia dos chamados partidos «de direita» denuncia ferozmente a imigração em massa durante as campanhas eleitorais; contudo, uma vez chegada ao poder, nada faz de substancial. Este padrão deu origem à expressão «efeito Melonização». Tanto Giorgia Meloni como Donald Trump recorreram a uma retórica extremamente dura sobre as medidas concretas que tomariam contra a invasão. Ambos quebraram essas promessas assim que alcançaram o poder. O fosso entre a linguagem da oposição e a prática da governação deixou de surpreender; tornou-se estrutural. Estes partidos existem para canalizar a indignação popular para vias inofensivas, enquanto a transformação demográfica subjacente prossegue sem interrupção. A Grande Substituição é uma realidade.
Trata-se da clássica sobre-extensão imperial: as energias do Ocidente permanecem concentradas na tentativa de subjugar ou reorganizar terras distantes, enquanto o próprio centro mergulha cada vez mais profundamente na decomposição. A Roma Imperial oferece o precedente: a mesma potência que projectou o seu poder sobre três continentes descobriu, por fim, que a sua própria capital se tornara demográfica e culturalmente irreconhecível. O Ocidente contemporâneo repete este padrão com escassas variações.
As declarações emitidas pelos partidos da direita desempenham, por isso, um duplo papel. Por um lado, reconhecem a dimensão da crise; por outro, demonstram simultaneamente os limites da resposta política possível dentro da ordem vigente. Os apelos ao encerramento das fronteiras, à suspensão de Schengen ou à devolução de todos os recém-chegados permanecem palavras lançadas ao vazio. A máquina do Estado continua a processar o fluxo de entradas; os tribunais e as burocracias continuam a funcionar segundo os pressupostos universalistas herdados; e a aritmética demográfica prossegue, de forma constante, o seu trabalho.
[1] Traduzido para português e publicado em 1977 pelas Edições Europa-América com o título Mortos: Duzentos Milhões – Todos Nós. (NdR)
