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Remigração em ‘Lume Brando’

Uma editora independente e identitária

entrevista de Filipe Carvalho

A emergência do conceito de “remigração” no discurso político europeu contemporâneo

Nos últimos anos, o termo “remigração” tornou-se num dos conceitos mais controversos no debate político europeu sobre imigração, sendo sobretudo utilizado em círculos identitários e da nova direita. Embora não faça parte da linguagem jurídica ou académica dominante, a expressão ganhou visibilidade mediática a partir de 2023-2024, sobretudo na Alemanha e na Áustria, antes de se expandir a outros contextos políticos europeus.

Segundo investigação académica recente, a “remigração” é frequentemente apresentada pelos seus defensores como uma política de “retorno” de imigrantes ou de pessoas de origem migrante aos seus países de origem, incluindo, em interpretações mais amplas, cidadãos naturalizados e descendentes de imigrantes nascidos na Europa. Este enquadramento tem sido amplamente criticado por investigadores, que o descrevem como uma forma de projecto etno-nacionalista orientado para a reconfiguração demográfica das sociedades europeias.

O conceito ganhou notoriedade pública após a divulgação, em 2024, de uma reunião em Potsdam, na Alemanha, onde activistas e políticos da Alternative für Deutschland (AfD) terão discutido estratégias associadas à “remigração”, num encontro que desencadeou protestos massivos no país e uma forte controvérsia política.
Entre as figuras mais frequentemente associadas à difusão contemporânea do termo encontra-se o activista austríaco Martin Sellner, ligado ao movimento identitário europeu, cuja obra e intervenções públicas contribuíram para a consolidação do conceito no espaço político da direita radical. O seu livro Remigration: Ein Vorschlag sistematiza a ideia de retorno forçado ou incentivado de populações migrantes ou de origem migrante, independentemente do seu estatuto de cidadania, tendo sido amplamente debatido no espaço mediático e académico.

Na Alemanha, a co-líder da AfD, Alice Weidel, tem utilizado o termo em discursos políticos e comícios, onde “remigração” surge associada a propostas de deportação em larga escala de imigrantes em situação irregular ou considerados “não assimilados”, segundo a retórica do partido. Estas posições têm sido alvo de contestação por parte de outros partidos e da sociedade civil alemã, que as consideram incompatíveis com os princípios constitucionais do país.

Na Áustria, o líder do FPÖ, Herbert Kickl, tem igualmente defendido políticas migratórias altamente restritivas, em que o conceito de “remigração” surge enquadrado numa visão de “homogeneidade cultural” e de reversão dos fluxos migratórios recentes.

Embora estes actores políticos se situem em contextos nacionais distintos, a literatura recente sublinha a existência de redes transnacionais entre partidos e movimentos da direita radical europeia, nas quais o conceito de “remigração” circula como parte de um repertório ideológico comum. Este fenómeno tem sido analisado como expressão de uma reconfiguração mais ampla do espaço político europeu, marcada pelo reforço das clivagens culturais em torno da imigração, identidade nacional e globalização.

Do ponto de vista sociológico, vários autores enquadram a crescente visibilidade do conceito no contexto das tensões políticas geradas pelas migrações para a Europa desde a década de 2010, bem como pela ascensão de narrativas que interpretam essas dinâmicas como ameaça identitária. Ainda assim, o termo permanece altamente contestado, sendo frequentemente associado a debates sobre os limites da democracia liberal e o papel da imigração nas sociedades contemporâneas.

Lume Brando das ideias: a coragem de editar

Num panorama editorial cada vez mais dominado pela velocidade, pelo efémero e pela uniformização das ideias, surgem, por vezes, projectos que escolhem um caminho diferente. A Lume Brando apresenta-se como uma editora independente que afirma publicar obras dedicadas à razão, à tradição e à identidade cultural da civilização ocidental, procurando abrir espaço a autores e temas que considera insuficientemente representados no mercado editorial português.

A publicação traduzida de Remigração – Uma Proposta, de Martin Sellner, constitui um dos exemplos mais marcantes dessa linha editorial. Trata-se de uma obra que desperta debate, suscita objecções e dificilmente deixa o leitor indiferente. Independentemente da posição que cada um possa assumir relativamente às teses defendidas pelo autor, a publicação levanta questões pertinentes acerca do papel das editoras independentes, dos limites do debate público e da importância de tornar acessíveis obras que influenciam a discussão política e cultural contemporânea.

Foi com esse propósito que procurámos conversar com a Lume Brando. Mais do que discutir uma única obra, interessa-nos compreender a visão da editora, os critérios que orientam as suas escolhas e o lugar que pretende ocupar no panorama editorial português.

Entrevista

Como nasceu a Lume Brando e que necessidade procurou responder no panorama editorial português?

A Lume Brando nasceu de uma simples brincadeira entre amigos, numa altura em que o projecto não passava de uma ideia informal e sem qualquer contorno sério. No entanto, as sucessivas e cada vez maiores mudanças na sociedade e no mundo ditaram a necessidade de dar uma estrutura concreta a esta iniciativa. Com a crescente transformação do panorama global, surgiu também um número cada vez mais expressivo de pessoas interessadas em procurar fontes de informação alternativas que pudessem explicar tais dinâmicas.

Em Portugal, assistiu-se a uma forte expansão da direita, com particular destaque para a direita identitária e nacionalista, um sector que actualmente fervilha com a produção de novos autores, conceitos, teorização e obras. Apesar deste dinamismo, a equipa da Lume Brando identificou uma lacuna clara: a carência de hábitos de leitura e de conhecimento básico por parte das pessoas que se revêem no espaço da chamada direita.

Beneficiando do privilégio de conhecer profundamente o meio identitário por dentro, a equipa do projecto tem uma facilidade acrescida no acesso e na obtenção de obras exclusivas. Embora reconheçam a existência de um legado vasto deixado por outros projectos editoriais que abriram caminho no passado, os fundadores consideraram essencial dar o seu próprio contributo. 

O projecto da editora Lume Brando, acabaria por ganhar contornos mais sérios ao longo do ano 2025, o seu lançamento oficial em Setembro do ano passado.

A publicação de Remigração – Uma Proposta inevitavelmente gerará reacções divergentes. O que levou a Lume Brando a considerar importante publicar esta obra em português?

A publicação da obra Remigração – Uma Proposta surge num tempo decisivo para o futuro da civilização europeia, partindo da premissa de que, se nada for feito, assistiremos a um processo de substituição populacional. Para a Lume Brando, constituiu um acto de grande ombridade que este tenha sido o seu primeiro lançamento editorial. Trata-se de uma obra considerada fundamental e importante, escrita por Martin Sellner, um autor que a editora encara como um exemplo para qualquer patriota.

A decisão de publicar este livro fundamenta-se também na constatação de que a direita, e em especial a direita portuguesa, carece de planos concretos e de conceitos estruturados. Esta obra vem responder a essa lacuna ao oferecer um plano exequível que, caso a sociedade decida apoiar a causa identitária europeia, servirá certamente de inspiração para muitos governos.
Por fim, a Lume Brando considerou essencial a publicação desta obra em português com o objectivo de combater o estigma que actualmente existe em torno do termo e do conceito de remigração.

Que critérios utilizam para avaliar se um livro merece integrar o catálogo da Lume Brando?

A selecção das obras que integram o catálogo da Lume Brando assenta em critérios rigorosos que procuram reflectir as preocupações das novas gerações dentro do pensamento identitário.

A prioridade da editora é publicar livros que estejam bem referenciados e cuja argumentação seja claramente articulada. Existe uma rejeição deliberada de abordagens simplistas ou de teorias da conspiração, procurando-se antes analisar a sociedade através de obras que ofereçam solidez intelectual e profundidade conceptual.

Por fim, que mensagem gostariam de deixar aos leitores que descobrem agora a Lume Brando?

Aos leitores que descobrem agora a Lume Brando pela primeira vez, a mensagem principal é a de que vale a pena apoiar um projecto editorial patriota.

Mesmo que possam existir discordâncias em particularidades ou pontos específicos, o essencial reside no fortalecimento de uma alternativa cultural e intelectual. Apoiar esta iniciativa significa contribuir para o debate de ideias e para o enriquecimento de um espaço de pensamento que se pretende sólido e fundamentado.

Recomendamos que estejam atentos ao catálogo da Lume Brando onde brevemente serão publicadas as seguintes obras: Charlie Kirk, coragem, família e fé de Gabriele Caramelli; Mudança de regime à direita de Martin Sellner; Manifesto Lume Brando; Defender a Europa civilizacional de David Engels; Quem são os brancos de Julien Rochedy; Tatuagens no Cristianismo de Alex Rio; 10 pilares da cultura portuguesa coordenado por Luís Graça