por Ronald Lasecki in Euro-Synergies
Para conhecer a essência da visão do mundo pagã, a teologia e a moral do paganismo indo-europeu, é necessário voltar-nos para um dos textos canónicos da cultura europeia: a Ilíada, de Homero. Actualmente, esta obra é lida sobretudo como um texto literário, uma vez que o cristianismo relegou para segundo plano o seu significado enquanto expressão da visão do mundo pagã. Contudo, ao procurar reconstituir o paganismo nos nossos dias, vale a pena recuperar precisamente essa dimensão da Ilíada.
O estado de natureza, ou a guerra sem regras
Como recordamos, a Ilíada narra a Guerra de Tróia, desencadeada pela fuga do príncipe troiano Páris com Helena, esposa do rei de Esparta, Menelau. Em consequência, Agamémnon, irmão do marido ultrajado, organiza uma armada composta por navios provenientes de diversas cidades gregas para recuperar Helena e lavar a honra do seu irmão.
A Ilíada começa, assim, com a transgressão do costume — o rapto de uma mulher —, que se torna a causa da guerra. Mais tarde, Agamémnon retira a Aquiles a sua concubina, Briseida, manchando igualmente a honra do herói.
Aquiles recusa então combater. O seu amigo Pátroclo veste a armadura do herói e combate em seu lugar, o que constitui uma nova violação da cultura, do costume, da honra e uma traição a tudo aquilo que deve caracterizar o comportamento de um verdadeiro herói. Como consequência dessa transgressão, Pátroclo morre em combate às mãos de Heitor.
Dominado pela fúria, Aquiles mergulha então, espiritualmente, num estado infra-humano, num estado de natureza anterior à cultura. Depois de ser vencido, Heitor suplica-lhe que permita que o seu corpo seja sepultado segundo os costumes e as tradições do seu povo e dos seus antepassados, como convém a um homem e a um herói. Aquiles responde, porém, que não podem existir pactos entre os homens e os leões, nem paz entre os lobos e as ovelhas.
Deste modo, Aquiles diz a Heitor que, na Natureza, não existem leis nem costumes, nem honra, nem piedade, nem paz. A Natureza é uma luta impiedosa de todos contra todos, onde nenhuma moral, nenhum costume e nenhuma lei têm aplicação.
Contudo, no final, Aquiles regressa à lei de Zeus, ao costume e à cultura. Com efeito, entrega o corpo de Heitor ao seu velho pai, Príamo.
A Ilíada trata, assim, da violação da lei, do costume e da cultura; da queda de Aquiles no estado de natureza, onde nenhuma lei vigora; e, finalmente, do seu regresso ao costume, à lei e à ordem cuja origem reside no deus celeste Zeus.
O mesmo significado encontra-se na Odisseia, onde Ulisses, perdido no mar, encontra povos que não respeitam as leis, os costumes e a moralidade provenientes de Zeus.
Um excelente exemplo desta categoria é o Ciclope Polifemo, um selvagem que desconhece a cultura, a agricultura e os costumes. Quando os companheiros de Ulisses entram na morada de Polifemo, invocam a lei sagrada da hospitalidade de Zeus (xenia). Mas Polifemo, que a ignora, devora-os, violando da forma mais extrema essa lei sagrada da hospitalidade.
Este esquema repete-se aventura após aventura nas peregrinações de Ulisses e dos seus companheiros.
Enquanto Ulisses permanece no mar, vivendo no estado de natureza, para lá das fronteiras da civilização, no seu reino de Ítaca um grupo de homens ocupa o seu palácio, «devorando», literalmente, a sua riqueza e os bens do reino. Por fim, com o auxílio de Atena, Ulisses recupera o poder sobre a sua casa e o seu reino e restabelece a Ordem.
Assim, a Natureza, nas obras de Homero, é entendida como uma realidade de luta impiedosa de todos contra todos, onde cada ser procura devorar o outro. Todo o organismo — seja uma bactéria, um animal ou um homem — tende para o crescimento, e esse crescimento só pode ser alcançado através do consumo.
O sentido da Vida é, portanto, o crescimento, e a sua condição necessária é o consumo realizado à custa de outrem. Na visão do mundo dos antigos pagãos, a morte constitui a condição e o reverso inevitável da Vida.
Quer se trate de árvores ou de homens, ao crescerem e ao elevarem-se em direcção ao Céu, isto é, ao aspirarem ao desenvolvimento e à perfeição, têm necessariamente de consumir e, por conseguinte, de competir por recursos que são sempre inferiores às necessidades de todos aqueles que aspiram a crescer em direcção ao Céu.
A natureza da Vida é, pois, o crescimento; e as suas condições necessárias são o consumo e a luta pelos recursos limitados de que esse crescimento depende.
Aquiles recusando a Heitor o direito à sepultura, Polifemo devorando os seus hóspedes e os pretendentes de Penélope consumindo as riquezas de Ítaca: tudo isto ilustra o que acontece quando a cultura desaparece, quando a lei e o costume que fundamentam a civilização são violados e quando o estado de natureza ocupa o seu lugar.
O caminho do herói
A lei e o costume organizam a sociedade segundo uma ordem justa, para que os menos aptos não governem os melhores e para que os mais fortes não oprimam os mais fracos. Como observou Nietzsche, no estado de natureza tanto os fortes estão expostos aos ataques dos fracos como os fracos aos dos fortes. Na natureza, o leão devora a gazela, mas acaba, por sua vez, vítima dos parasitas.
As leis divinas de Zeus, o Pai Celeste (*Dyḗus ph₂tḗr proto-indo-europeu), são constantemente postas em causa e transgredidas na Ilíada e na Odisseia. Porém, essas transgressões não servem para demonstrar a relatividade da lei, mas antes para revelar o seu sentido e mostrar por que razão ela é justa e necessária.
As obras de Homero mostram-nos como funciona a Natureza, como o mundo se rege e porque necessitamos do costume, da lei, da moral e da virtude para tornar possível a civilização. Mas a Ilíada e a Odisseia não encerram apenas um ensinamento moral; encerram igualmente um ensinamento teológico. É precisamente sobre essa teologia que assenta toda a sua moral.
A divindade suprema dos Proto-Indo-Europeus era o Pai Celeste (*Dyḗus ph₂tḗr), conhecido nas civilizações da Antiguidade como Zeus ou Júpiter. A principal divindade dos nossos antepassados indo-europeus era, pois, o Céu luminoso, iluminado pela luz solar. Seu filho era o senhor do raio e do trovão, deus do relâmpago e da tempestade, conhecido na mitologia eslava como Perun e, por exemplo, na tradição germânica, como Thor, empunhando o martelo Mjölnir, símbolo do raio.
A esposa do Pai Celeste era a Mãe Terra (*Dʰéǵʰōm), cuja equivalente na mitologia eslava era Mokosh, enquanto a sua filha era *H₂éwsōs, correspondente à Zorya eslava, a deusa da Aurora.
Um panteão desta natureza é próprio dos povos que habitam as grandes planícies abertas, onde o elemento dominante da paisagem é o céu majestoso. O supergrupo étnico indo-europeu formou-se, com a domesticação do cavalo, há cerca de quatro mil anos, nas estepes póntico-cáspicas da Eurásia.
À luz da religião dos Proto-Indo-Europeus, a epopeia indo-europeia — as byliny russas, as sagas nórdicas, a epopeia da Grécia Antiga, representada pela Ilíada e pela Odisseia, bem como os Vedas arianos — permite-nos reconstruir a visão do mundo e a mitologia dos povos indo-europeus.
O percurso existencial do herói ariano corresponde ao trajecto do Sol através da abóbada celeste. O herói mergulha primeiro no espaço do Caos — tanto no caos «interior» das suas paixões como no caos «exterior» da Natureza, onde todos devoram todos — para depois ascender novamente ao mundo da justiça, da luz e da lei. Carl Gustav Jung descreve este processo através do arquétipo do herói que morre e renasce, associado à katábasis, a descida ao mundo inferior.
O herói triunfa sobre as forças do caos presentes no mundo exterior e domina igualmente a sua própria natureza interior: os instintos, os impulsos, os desejos e os medos. Domina as forças da Natureza e orienta-as para a divindade, isto é, para o Céu e para o Pai Celeste.
*Dyḗus ph₂tḗr simboliza a luz, a razão, a justiça, a harmonia, a ordem, a perfeição suprema, a nobreza, o poder e a glória. Tanto Aquiles, na Ilíada, como Ulisses, na Odisseia, caem inicialmente no caos da Natureza e das suas paixões, para depois se elevarem à razão e à cultura, isto é, à ordem, cuja salvaguarda cabe, respectivamente, a Zeus e a Atena.
Na Odisseia, Ulisses desce ao Hades, onde Tirésias lhe profetiza que os seus companheiros apenas regressarão a Ítaca se conseguirem dominar os seus desejos e resistirem à tentação de devorar os bois de Hélio quando a fome apertar.
Quando o navio de Ulisses chega à ilha de Hélio, os seus homens sucumbem à fome e matam o rebanho sagrado. O costume é violado e, como consequência, todos perecem.
Ulisses, pelo contrário, regressa transformado. Aprendeu a dominar as suas emoções, oculta a sua verdadeira identidade e prepara pacientemente a vingança contra os pretendentes de Penélope, restaurando por fim a ordem na sua casa. O domínio de si próprio é simbolizado pela constante protecção da deusa da sabedoria, Atena.
Do mesmo modo, na Ilíada, é Atena quem segura Aquiles pelos cabelos quando este se prepara para desembainhar a espada contra Agamémnon. O episódio simboliza a aprendizagem do domínio da cólera e do orgulho através da submissão ao costume e à lei do Pai Celeste.
Este mesmo esquema repete-se na instituição indo-europeia do kóryos, da qual existem testemunhos entre povos germânicos e eslavos. Os jovens cuja violência, orgulho, agressividade e voracidade os impediam de viver harmoniosamente na comunidade eram expulsos para a floresta. Ali, nus e armados apenas com facas, viviam como lobos, em pleno estado de natureza. Só lhes era permitido regressar à sociedade quando tivessem domado o lobo que habitava dentro deles — isto é, a voracidade, o egoísmo e a agressividade.
Nas byliny russas do ciclo de Kiev, este rito iniciático é vivido pelo príncipe Vladimir, o Sol Vermelho. Na tradição romana, Rómulo e Remo eram netos de um rei destronado por um irmão usurpador. Abandonados na natureza, foram amamentados por uma loba. Mais tarde, regressaram à sua cidade, depuseram o usurpador e restauraram a ordem legítima.
Na Saga dos Völsungos, o patriarca da linhagem é traído e assassinado. O seu filho Sigmund e o neto Sinfjötli refugiam-se então na floresta, fora da civilização. Vivem como homens-lobo, saqueando e matando viajantes. Finalmente, queimam as peles de lobo que envergavam, vingam a injustiça cometida contra a sua linhagem e restabelecem a ordem e a justiça.
Vestir a pele do lobo — isto é, libertar a natureza lupina, mergulhar numa fúria bestial em que o homem esquece o costume e a cultura — constitui, entre os povos indo-europeus, uma etapa iniciática. É durante essa prova que o homem enfrenta a sua natureza animal, incorpora-a, combate-a e acaba por dominá-la, conquistando simultaneamente o domínio sobre si próprio e sobre a Natureza.
É precisamente a essa dimensão voraz e agressiva da natureza humana que recorriam os berserkir, deixando-se possuir pela fúria do combate.
A Ordem nascida do Caos
Na ontologia indo-europeia encontramos, assim, o Pai Celeste como fonte da ordem e da justiça, a concepção da Natureza como um domínio onde todos devoram todos e, por fim, o Caminho do Herói, que segue a trajectória do Sol: aventurando-se no estado caótico da natureza, onde impera a luta de todos contra todos, para, no final, restaurar em si mesmo a Ordem, alcançando desse modo a glória e recebendo o esplendor irradiado pelo Pai Celeste.
O sentido da teologia indo-europeia, o núcleo da visão do mundo indo-europeia, reside, portanto, na luta pela Ordem no seio do Caos. O Caos encerra em si a morte, a decomposição e a fealdade. Nele não existem harmonia nem ordem; cada ser procura devorar o outro. Isto aplica-se tanto à natureza humana como ao estado de natureza em que o homem vive.
Em contraste, a Ordem é harmonia, beleza, perfeição, glória; é o aspecto criador da Natureza e, em última análise, a própria Vida.
No mito indo-europeu, o herói trava uma guerra contra o Caos, tanto dentro de si como no mundo que o rodeia. Procura ordenar a Natureza — isto é, a sua própria natureza interior e o mundo natural — segundo uma hierarquia cujo cume é ocupado pela Vida na sua máxima plenitude, em oposição à Morte, irradiando força e beleza, perfeita como o Pai Celeste.
O facto de a divindade habitar os Céus possui aqui uma importância fundamental, pois relaciona-se com a luta permanente da vida biológica contra a Morte. Ao longo dos sucessivos ciclos da Terra em torno do Sol e da sucessão das gerações, a Vida renasce incessantemente. A Vida emerge da Morte; a matéria organiza-se a partir do Caos para dar origem à Vida, tal como o Sol surge todos os dias sobre o horizonte, dissipando as trevas da noite.
Na Natureza, todos os organismos vivos terminam a sua existência individual na morte. Isto é verdadeiro tanto para o homem como para os animais e para as plantas. Todavia, graças ao milagre da reprodução, a Vida renasce em cada geração e em cada ciclo, vencendo a Morte e reorganizando-se continuamente a partir do Caos.
Cada renascimento constitui um elo da cadeia transgeracional da Vida. A Vida organiza-se sem cessar, nas suas manifestações individuais, resistindo à entropia e à dissolução.
O homem alcança a imortalidade transmitindo a chama da Vida e as tradições herdadas dos seus antepassados. Alcança-a igualmente através de actos heróicos cuja glória será admirada e celebrada pelas gerações futuras, que cantarão poemas em honra do herói, conservarão vivo o seu nome e procurarão seguir o caminho por ele aberto, aspirando também elas a conquistar igual glória.
O impulso para a divindade
É este o sentido do mito de Perséfone, que regressa ao mundo subterrâneo no termo de cada ciclo da vida biológica. Mas, tal como o Sol emerge todas as manhãs das trevas da noite, também a cada Primavera a Vida renasce da terra sob a influência do Sol, elevando-se em direcção ao Céu.
Do mesmo modo, em cada nova geração os seres humanos nascem das trevas e da humidade do ventre materno, orientando naturalmente as suas aspirações para a perfeição divina.
A divindade encontra-se no Céu porque é daí que procede o impulso que anima a Vida. O Sol «arranca» literalmente as plantas da terra, do domínio da morte. Algumas flores fecham-se durante a noite, mas, quando a Aurora as toca com os seus dedos rosados, a força vivificante do Pai Celeste alcança-as e elas tornam a abrir-se.
Quando os seres vivos morrem, «regressam à terra»; a sua matéria dispersa-se no solo.
Na Primavera, porém, a Vida renasce, reorganizando novamente essa matéria. A Vida nasce da terra, mas orienta-se para o alto, para o Céu, para o Pai Celeste, contrariando a força niveladora da gravidade, que tende a fazer regressar toda a matéria à terra e, por conseguinte, à morte.
É sabido, no domínio da biologia, que em certas espécies, como os cães, as raças de maior porte e massa corporal tendem a viver menos tempo, sucumbindo mais rapidamente aos processos de degradação física associados ao peso e ao envelhecimento. Em contrapartida, nos relatos míticos e lendários, aqueles que atingem a condição divina vencem frequentemente a gravidade, elevando-se pelos ares ou caminhando sobre as águas.
Assim, a Vida opõe-se simbolicamente à gravidade, ao peso da matéria. Era isto que Nietzsche pretendia exprimir quando colocava na boca de Zaratustra as palavras: «Matemos o espírito da gravidade!»
As plantas crescem voltadas para o Céu. A Vida resiste à entropia e à decomposição porque os organismos vivos, ao desenvolverem-se, constroem continuamente uma ordem interior, uma hierarquia própria e uma estrutura cada vez mais complexa.
A guerra da Ordem contra o Caos
É neste contexto que deve ser entendida a oposição entre a Ordem e o Caos. Na visão do mundo indo-europeia, a Ordem não significa rigidez nem estagnação; representa antes a força que harmoniza e estrutura o mundo. A expressão suprema dessa harmonia, dessa ordem e dessa estrutura é a Vida, que cresce e se regenera ciclicamente no plano biológico.
A Vida nasce do caos da matéria desordenada, organizando-a numa estrutura, numa hierarquia e numa harmonia. Não se trata de uma permanência imóvel, mas de uma força dinâmica, expansiva e combativa, orientada para o crescimento, o desenvolvimento e o aumento da sua potência. Através da reprodução, vence milagrosamente a morte, renascendo continuamente em novas formas individuais. Assim, a Vida recompõe incessantemente a sua própria estrutura, resistindo às forças da decomposição e da entropia, restaurando em cada geração a ordem que torna possível a sua existência.
A Vida é, pois, a Ordem que emerge do Caos, elevando-se em direcção ao Céu e à força vivificante que dele dimana, voltando-se para a luz e para aquilo que é divino. Eis o núcleo da teologia ariana, a essência da visão do mundo dos povos do supergrupo étnico indo-europeu, surgido há cerca de quatro mil anos nas estepes póntico-cáspicas.
Todavia, na teologia ariana, a luta entre a Ordem e o Caos nunca termina com o aniquilamento de um dos dois. Nenhum pode eliminar o outro, porque ambos se encontram indissoluvelmente ligados. Se os mortos ressuscitassem para viver eternamente, deixaria de haver lugar para novos nascimentos. Se a Morte fosse abolida, também a reprodução desapareceria e a Cadeia da Vida ficaria definitivamente interrompida.
A Vida necessita de consumir para que os organismos possam construir a sua estrutura e crescer. Não é possível eliminar da Natureza, nem da própria natureza humana, esse aspecto destruidor, sem destruir simultaneamente a própria Vida e tudo aquilo que nela existe de belo, de nobre e de criador.
Na mitologia nórdica, a serpente Nidhogg repousa junto das raízes da Árvore da Vida. A serpente Jörmungandr envolve o mundo, e, durante o Ragnarök, combate contra Thor, enquanto o lobo Fenrir, acorrentado, aguarda o momento de devorar Odin. Todos os dias um lobo persegue o Sol através do céu; todas as noites outro lobo persegue a Lua. Ordem e Caos, Vida e Morte, composição e decomposição, forças de crescimento e forças de dissolução permanecem envolvidos numa luta cósmica permanente, sem que nenhuma delas possa alcançar uma vitória definitiva.
A hierarquia das coisas
Como ensinam os poemas de Homero, a ordem do ser exige uma hierarquia no topo da qual se encontra o Pai Celeste, fonte da Ordem, legislador supremo e guardião da Tradição. Habita nos Céus, para onde as plantas se orientam em busca da luz e para onde os homens dirigem o seu olhar em busca do esplendor da glória imortal.
Zeus constitui o ponto de referência último de toda a existência, sendo a fonte da Vida, da luz, da justiça, da ordem, da nobreza e da perfeição. O mundo encontra-se devidamente ordenado quando Zeus ocupa o vértice da hierarquia do ser, reinando dos Céus sobre a Natureza e organizando o Caos.
Na mitologia grega, Zeus derruba o domínio de Cronos, que devorava os próprios filhos. Do mesmo modo, Teseu mata o Minotauro, pondo termo ao costume de oferecer jovens atenienses em sacrifício ao deus-touro.
Segundo o autor, esse costume provinha da tradição cananeia e fenícia, posteriormente continuada em Cartago, onde eram sacrificados seres humanos a divindades taurinas, como El e Baal. As vitórias de Zeus e de Teseu simbolizam, assim, o fim da necessidade de apaziguar a Natureza mediante o sacrifício da vida inocente. Em lugar desse ritual, o herói institui a cultura, a justiça, a lei e a ordem.
Este é um motivo recorrente em toda a mitologia ariana: o herói põe termo ao domínio do aspecto destruidor e voraz da Natureza, que devora a Vida logo após o seu nascimento, instaurando uma ordem divina que assegura a continuidade da Cadeia da Vida e permite à Vida elevar-se na sua procura da perfeição.
A morte permanece necessária ao florescimento da própria Vida.
É por isso que Ulisses rejeita a proposta da ninfa Calipso, que lhe oferece a imortalidade individual. Em vez de procurar uma eternidade apenas para si, escolhe a Cadeia da Vida. Decide regressar a Ítaca para reencontrar o pai, a esposa e o filho e, juntamente com eles, restaurar a Ordem, isto é, a disposição legítima das coisas.
O mundo encontra-se devidamente ordenado quando as gerações mais antigas cedem lugar às mais novas; quando as plantas murcham no fim do seu ciclo vegetativo para que outras possam nascer na estação seguinte. Pelo contrário, deixa de haver ordem quando as gerações mais velhas devoram as mais novas, quando a Vida se consome a si própria, rompendo a continuidade da cadeia das gerações.
Na mitologia nórdica, a serpente Nidhogg habita junto das raízes de Yggdrasill, a Árvore da Vida, porque são as raízes que retiram da terra os nutrientes que permitem à árvore crescer e elevar os seus ramos em direcção ao Céu.
A Árvore da Vida representa, assim, a Vida organizada segundo uma estrutura correcta, em que o aspecto consumidor alimenta o aspecto criador e ascensional, a tendência para a perfeição. A serpente simboliza o elemento caótico submetido à Ordem, mas que pode sempre revoltar-se e atacar violentamente, tal como a natureza humana, quando liberta do domínio da Ordem, permite que as paixões e os instintos espalhem destruição, como ensinam as mitologias arianas.
Esta ordem cósmica deve igualmente estruturar a personalidade do homem-herói. Aqueles cujos actos são governados pelas paixões, pela fome, pelos desejos e pelos impulsos inferiores, incapazes de conhecer e dominar a sua própria natureza ou de conter os seus apetites, acabam inevitavelmente por atrair a destruição sobre si, tal como aconteceu aos companheiros de Ulisses ao devorarem os bois de Hélio, ou aos pretendentes de Penélope ao consumirem os bens de Ulisses.
Contudo, o homem-herói não rejeita os seus instintos. Antes os submete a uma disciplina que os ordena, lhes dá uma orientação justa e lhes confere uma expressão adequada. O elemento consumidor da sua natureza deve alimentar aquele que se manifesta no crescimento, no aperfeiçoamento e no enobrecimento, do mesmo modo que as raízes alimentam os ramos da árvore que se elevam em direcção ao Céu.
O corpo alcança a sua máxima eficácia, força e beleza através da disciplina e de um treino metódico orientado para um fim. Do mesmo modo, o homem-herói serve-se da virtude e da razão para disciplinar a sua natureza e orientá-la para a perfeição, procurando alcançar o esplendor da glória eterna.
O realismo ontológico
Nunca existiu um Éden na Terra. A vida nasceu do caos dos gases, dos relâmpagos e do oceano primordial. Desde então, ao longo de mais de três mil milhões de anos de evolução da vida, é muito provável que tenham surgido cerca de dez mil milhões de espécies. Todas elas travaram uma luta impiedosa entre si para crescer, expandir-se e obter os recursos necessários à sua sobrevivência, resistindo à Morte, à entropia, ao «peso» da matéria e à decomposição.
Nunca existiu um Paraíso. A Vida foi sempre inseparável da Morte e do sofrimento. Para crescer, foi, é e será sempre necessário consumir e destruir. A Ordem só pode emergir do Caos.
O homem é um elo desta grande Cadeia da Vida, que combate incessantemente as forças da inércia e da entropia, as quais tendem a arrastar toda a matéria para o Caos. Aquilo que distingue o homem dos restantes animais é a capacidade de ordenar e orientar os seus próprios instintos e a sua natureza em direcção ao divino.
Os outros animais permanecem entregues ao estado natural da luta de todos contra todos, onde cada ser devora o outro. Nenhum deles é capaz de disciplinar e orientar conscientemente os seus instintos. Assim, a Vida representa a forma mais elevada de organização existente no Universo, e o homem constitui a expressão mais elevada dessa força organizadora no mundo natural.
Enquanto comunidades humanas, encontramo-nos constantemente ameaçados pela atrofia da vontade, que pode aprisionar-nos no caos dos desejos e dos impulsos, onde a cultura se torna impossível e onde cada um procura devorar o outro.
Outro perigo reside nas ideologias utópicas, que exortam o homem a afastar-se da dimensão trágica da Vida, encarando-a como um «mal moral», em nome do sonho de «mundos ao contrário», onde as Leis da Natureza deixariam de vigorar.
Em oposição tanto a essa paralisia espiritual provocada pelo envenenamento ideológico como à inércia resultante da indolência física, o autor coloca o realismo ontológico e ético que, na sua interpretação, caracterizava a maneira como os antigos antepassados arianos compreendiam o mundo.
Segundo esta visão, apenas existe um caminho legítimo: a aspiração firme e inabalável à perfeição e à plena realização das potencialidades da natureza humana. Tal objectivo só pode ser alcançado mediante a subordinação, tanto no plano individual como no plano sociopolítico, do que é inferior ao que é superior, do mesmo modo que o Pai Celeste triunfa sobre o Caos e o Sol dissipa as trevas da noite.
Os antigos sabiam igualmente que essa ordem exigia disciplina, tanto na vida pessoal como na organização da comunidade: um carácter firme, uma vontade concentrada, perseverança no cumprimento da honra e na procura da glória e da perfeição. É através do predomínio, no homem e na sociedade, daquilo que possui uma forma mais elevada e mais plenamente desenvolvida sobre aquilo que permanece mais próximo do Caos que se tornam possíveis a autoridade legítima e a cultura.
Segundo o autor, a perda desta visão do mundo na sociedade contemporânea constitui uma das causas da desagregação da cultura e da própria humanidade. Na sua perspectiva, o «serpente do Caos» voltou a insinuar-se na vida dos povos, paralisando-os e envenenando a sua alma colectiva. Esqueceu-se a ordem do Cosmos e o lugar que o homem nela ocupa; abandonou-se a memória dos antepassados indo-europeus, as tradições eurasiáticas e a ideia da Cadeia da Vida. O autor considera esse esquecimento um veneno espiritual que conduz, lenta mas inexoravelmente, à dissolução das comunidades humanas.
Quem não compreende os seus antepassados nem a sua visão do mundo; quem ignora de onde eles vieram ou de que modo essa visão se formou — ou, pior ainda, quem rompe deliberadamente com as suas raízes étnicas e rejeita a sua pátria ancestral — dificilmente poderá compreender a sua própria natureza e os imperativos ontológicos que, segundo esta concepção, dela decorrem.
Ao rompermos a Cadeia da Vida, quebramos igualmente o vínculo espiritual com os nossos antepassados. Amputamos o núcleo transgeracional daquele «eu» que, do ponto de vista humano, participa de uma continuidade quase eterna, renascendo simbolicamente em cada geração a partir do caos obscuro da Morte.
