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Napoleão contra a sensibilidade moderna

por Chad Crowley in Riding the Tiger

«Sou pelos Brancos, porque sou Branco; não tenho outra razão, e, contudo, essa razão basta.» — Napoleão

À primeira vista, alguns duvidarão instintivamente da autenticidade da citação acima, descartando-a como um artifício moderno, uma dessas frases atribuídas a figuras há muito mortas, quer parafraseadas, fabricadas ou tão profundamente distorcidas que perderam todo o sentido, sobretudo quando a sua linguagem colide com as normas discursivas modernas e com aquilo que hoje passa por discurso aceitável numa cultura discursiva cada vez mais politizada e dominada pelo dogma liberal. Tal dúvida reflecte sensibilidades modernas tão profundamente condicionadas a acreditar que uma visão racializada do mundo é um fenómeno moderno, em vez de uma corrente perene que acompanha a humanidade desde tempos imemoriais.

Tais pressupostos, e a tentativa mais ampla de imaginar o passado como livre destas distinções, estão profundamente errados. A frase surge em The Life of Napoleon Buonaparte (1828), de William Hazlitt, uma obra em quatro volumes composta apenas sete anos após a morte de Napoleão em 1821, quando o seu legado ainda era activamente disputado por toda a Europa. Hazlitt não inventou a afirmação; traduziu-a de uma fonte francesa anterior.

Essa fonte é Le Consulat et l’Empire («O Consulado e o Império»), volume três, página 323, de Antoine-Claire Thibaudeau, estadista que serviu nos mais altos círculos administrativos da França napoleónica. Thibaudeau não era um compilador distante de anedotas, mas conheceu Napoleão pessoalmente, tendo servido com ele no Conselho de Estado e participado directamente nas suas deliberações. Deputado durante a Revolução, depois conselheiro sob o Consulado e finalmente administrador sob o Império, ocupava uma posição a partir da qual podia observar de perto a linguagem e o temperamento de Napoleão. As suas memórias preservam essas impressões com a autoridade da experiência em primeira mão.

Hazlitt recorreu ao relato de Thibaudeau juntamente com os de Louis-Antoine Fauvelet de Bourrienne, secretário privado de longa data de Napoleão durante a sua ascensão ao poder, e Emmanuel de Las Cases, que o acompanhou no exílio final em Santa Helena e registou ali as suas conversas. Através destas testemunhas directas, Hazlitt procurou recuperar o carácter de Napoleão das distorções partidárias e apresentá-lo tal como aparecia aos que o haviam conhecido em vida, em vez da imagem cultivada pelos seus inimigos para fins de propaganda.

O contexto em que a citação aparece diz respeito à Martinica, local de nascimento de Joséphine de Beauharnais, esposa de Napoleão, nascida na ilha em 1763 no seio de uma família crioula proprietária de plantações, de meios modestos. Thibaudeau regista a observação como parte de uma conversa, captando a resposta de Napoleão no decurso de uma discussão mais ampla sobre política colonial e agitação nas Caraíbas, num momento em que as possessões ultramarinas francesas atravessavam graves dificuldades. A frase surge em relação directa com a insurreição de São Domingos, frequentemente descrita como a «jóia da coroa» do império colonial francês, cuja convulsão, iniciada em 1791 e culminando na Revolução Haitiana de 1804, conduziu à destruição da ordem colonial existente, incluindo o brutal massacre em massa e fuga da população europeia da ilha, forçando assim uma reorientação da política imperial francesa na região.

Neste contexto, as revoltas de escravos não eram receios abstractos, mas realidades imediatas e desestabilizadoras, e os acontecimentos em São Domingos tornaram claro que sociedades coloniais inteiras podiam ser violentamente derrubadas por uma casta servil em rápida expansão. A afirmação reflecte, assim, a ansiedade mais ampla das populações coloniais europeias, desde as Carolinas costeiras até às plantações do Brasil, de que tais insurreições se pudessem propagar, sendo ainda enquadrada pela declaração de Napoleão de que, em tais circunstâncias, se colocaria ao lado dos seus semelhantes brancos — uma perspectiva que, contrariamente aos costumes contemporâneos, era amplamente considerada normal ao longo de toda a história registada.

À luz disto, as objecções à veracidade histórica da citação tendem a concentrar-se na sua linguagem, particularmente no uso da designação racial «Branco», frequentemente presumida, como já foi referido, como uma construção moderna. Historicamente, porém, o termo reflecte o vocabulário da época e não constitui, como muitas vezes se afirma, uma projecção moderna.

Nas Antilhas Francesas, blanc («Branco») já era utilizado no século XVII para distinguir os europeus de les noirs («os Negros») e les gens de couleur («as pessoas de cor»). A mesma terminologia surge contemporaneamente, e nalguns casos até mais cedo, nas colónias inglesas da América do Norte, onde «White» entrou tanto no uso jurídico como social em Maryland e Virgínia no início do século XVII, incluindo em estatutos como a lei da Virgínia de 1662 sobre a escravatura hereditária, que distinguia europeus de africanos e indígenas. Assim, contrariamente às objecções modernas, «Branco» tem sido utilizado, sob uma forma ou outra, como designação racial desde pelo menos o século XVII.

Este uso não era meramente prático, nem se limitava à esfera do direito colonial. No século XVIII, naturalistas e filósofos europeus já haviam formalizado estas distinções na linguagem emergente da história natural e da antropologia racial primitiva, desenvolvendo uma nomenclatura científica que procurava classificar a humanidade segundo a forma física e a origem geográfica, marcando as primeiras etapas da conceptualização da raça. Pensadores como Buffon, Voltaire, Linnaeus, Kant, Blumenbach e mais tarde Cuvier operavam dentro de um quadro taxonómico que falava explicitamente de la race blanche («a raça branca»), la race jaune («a raça amarela») e la race noire («a raça negra»), classificando a humanidade segundo a forma física e a origem geográfica. Neste contexto, a terminologia da citação conforma-se ao vocabulário conceptual da sua época e não pode ser considerada um anacronismo posterior.