Uma oportunidade que a Europa não pode perder
in Éléments
Há muito tempo retratada pelos seus adversários, frequentemente reduzida a slogans ou caricaturas, a Nova Direita carecia de uma narrativa abrangente.
É essa lacuna que François Dambelin preenche. Das origens da Europe-Action ao nascimento da GRECE, dos anos de conquista intelectual às crises, cisões, renascimentos e legados actuais, este livro relata mais de meio século de história metapolítica.
Nascida no tumulto dos anos 60, a Nova Direita visava travar uma batalha de ideias e rearmar intelectualmente o pensamento dissidente europeu, colocando a cultura, a memória de longa data, a identidade, o enraizamento, a ecologia, o sagrado e uma crítica à modernidade no centro da sua abordagem.
Baseando-se em leituras, testemunhos, fontes primárias e num longo envolvimento com esta escola de pensamento, este livro ilumina os seus principais temas, enquanto reconstrói os seus debates internos, ambiguidades e transformações.
Um livro essencial para a compreensão da história, das redes, dos conceitos e do legado de um movimento que, muito para além do seu nome, continua a influenciar o debate intelectual contemporâneo.
Nascido em 1967 em Suresnes, perto de Paris, François Dambelin é um executivo sénior que se interessa por história, ideias políticas, estratégia e literatura há muitos ano e que concedeu uma entrevista ao sítio da revista Éléments, por ocasião da publicação do seu ensaio intitulado La Nouvelle Droite – Un panorama historique et métapolitique (Institut Iliade/La Nouvelle Librairie, 2026).

Éléments: Como definiria a Nova Direita: uma corrente de pensamento, uma escola, uma sensibilidade, um método?
François Dambelin: O GRECE (Grupo de Investigação e Estudos para a Civilização Europeia), que é o núcleo originário daquilo a que se chama Nova Direita, sempre se viu como uma comunidade de trabalho e de pensamento, com a vontade de desenvolver uma nova visão do mundo assente num corpo de doutrinas, nunca fixas, abordando todos os domínios da vida do espírito e da ciência. A ambição inicial era, de facto, tornar-se uma escola de pensamento, «uma espécie de síntese da Escola de Frankfurt, da Acção Francesa e do CNRS», como recordava Alain de Benoist, quase cinquenta anos mais tarde, em Mémoire vive. Não é evidentemente por acaso que deu à revista de estudos que fundou em 1968, a par do GRECE, o título Nouvelle École.
Hoje, quando o GRECE se apagou há já quase vinte anos, é mais justo qualificar a Nova Direita como uma corrente de pensamento.
Mas o método de acção permanece o mesmo: o combate das ideias para derrotar a ideologia dominante, que combina economicismo, individualismo e universalismo e que sufoca a Europa.
Éléments: Quais são os grandes eixos intelectuais que a distinguem das outras direitas, conservadora ou liberal? Qual é a sua singularidade?
François Dambelin: Entre os principais eixos intelectuais que se podem citar e que a distinguem das outras direitas:
- a visão da Europa como uma comunidade de povos irmãos que partilham origens comuns, mas também uma cultura, um imaginário e mitos comuns;
- o apego à ideia de império, que, melhor do que a ideia de nação, é capaz de garantir a organização soberana do espaço geopolítico europeu, respeitando a sua complexidade e diversidade;
- o lugar atribuído ao realismo biológico, que não é um reducionismo, mas o simples reconhecimento da parte animal do homem e da importância da herança genética;
- o reconhecimento da pertença identitária como enraizamento numa comunidade humana orgânica, numa história, numa cultura, num território, em paisagens;
- a escolha de um antirracismo diferencialista, que consiste em ter em conta e aceitar as diferenças que existem entre os indivíduos e entre os grupos de indivíduos para permitir a sua coexistência harmoniosa; daí decorre, evidentemente, a recusa de todas as formas de colonização;
- a procura sistemática de uma terceira via para se libertar das alternativas «betonadas»;
- a recusa da mercantilização do mundo (quando tudo tem um preço e nada tem valor, segundo a fórmula de Alain de Benoist), que passa por uma rejeição absoluta do liberalismo e pela procura de uma economia orgânica, integrada na sociedade e submetida ao político;
- e, finalmente, a concepção politeísta (ou pagã) do mundo. Trata-se aqui de uma singularidade profunda e essencial da ND, como viram muito bem dois observadores estrangeiros, autores de obras sólidas sobre a nossa corrente de pensamento[1], e não de um simples «folclore», como parece pensar Mathieu Bock-Côté (Élémentsº 218). É perfeitamente coerente, com efeito, rejeitar os monoteísmos universalistas que nivelam as diferenças e as identidades e preferir-lhes os valores e as normas que se escondem por detrás dos rostos dos nossos deuses e heróis ancestrais. Não se trata de pôr entre parênteses os dois milénios cristãos, mas de os ultrapassar para «retomar o fio de uma cultura que encontra em si mesma as suas razões suficientes».
É apenas um esboço, muito pessoal. Seria preciso escrever um livro para responder!
Éléments: Por que razão optar pela metapolítica em vez do compromisso político directo? Como definiria essa «metapolítica»? A Nova Direita terá renunciado ao poder? Contudo, mostra que as suas ideias se difundiram: pode falar-se hoje de uma vitória cultural sem vitória política?
François Dambelin: Os fundadores do GRECE foram, durante os anos 60, jovens militantes revolucionários, soldados políticos, que sacrificaram tudo ao seu compromisso durante quase dez anos. Os fracassos que encontraram, bem como a leitura colectiva de Gramsci, permitiram-lhes compreender que nenhuma vitória política séria era possível sem previamente conquistar o poder cultural. Lançaram-se, então, no combate das ideias, o combate metapolítico, forjando antes de mais uma visão do mundo inovadora e coerente para desafiar as ideologias dominantes.
Como dizia Jean-Claude Valla, grande jornalista que foi o primeiro secretário-geral do GRECE, a metapolítica é «o domínio dos valores que não pertencem ao político, no sentido tradicional do termo, mas que têm uma incidência directa na consistência ou na ausência do consenso social regido pelo político». O trabalho metapolítico é, de certo modo, aquilo que permite deslocar a janela de Overton.
Os que travam o combate metapolítico não têm, portanto, como objectivo tomar o poder, mas impor uma nova visão do mundo. Caberá a outros dar tradução política a essa mudança.
Por enquanto, infelizmente, ainda se está longe disso. Há tomadas de consciência (a «política civilizacional»), avanços aqui e ali, escaramuças vitoriosas e alguns sucessos tácticos, mas a vitória não está ainda ao alcance. O sistema ideológico da esquerda moral, liberal e universalista mantém-se e conserva o apoio da esmagadora maioria das elites. Pode, portanto, perguntar-se que mudanças concretas poderão resultar, nestas condições, de uma vitória da corrente nacional-populista, cujas «convicções» evolutivas permanecem, de qualquer modo, bastante afastadas das da ND…
Éléments: A Nova Direita é frequentemente associada a certas figuras, a começar por Alain de Benoist: pode falar-se de uma escola estruturada ou de um arquipélago de pensadores?
François Dambelin: A escola estruturada da ND francesa desapareceu mais ou menos no início dos anos 90. Resta uma corrente ou uma nebulosa. Alain de Benoist, com a sua obra imponente, rica e diversa, e com as suas revistas Krisis e Nouvelle École, é o seu pólo principal. Mas há também a revista Éléments, que se tornou um pólo de atracção ao federar à sua volta ensaístas, jornalistas e publicistas, e o Instituto Iliade que, com a sua missão de formação, faz emergir novos talentos e se torna igualmente um pólo de produção de ideias com a sua revista teórica Cahier d’études pour une pensée européenne. Entre os jovens autores que emergiram ao longo dos últimos dez anos na nossa movência, é sem dúvida Guillaume Travers quem mais me impressiona. Os seus ensaios ou artigos para Nouvelle École e Éléments são sempre notáveis e inovadores.
Mas seria redutor falar apenas da França. A ND é há muito uma corrente de pensamento europeia, uma «Revolução conservadora» à escala do continente. E, desde há alguns anos, graças, nomeadamente, ao trabalho do Instituto Iliade e de uma rede de editoras como La Nouvelle Librairie, JungEuropa, Passaggio al Bosco, Arktos e outras, os ensaios importantes publicados aqui e ali na Europa tornaram-se acessíveis a todos os neo-direitistas europeus. Trata-se de uma verdadeira revolução, que considero particularmente entusiasmante!
Éléments: O duplo momento contemporâneo, populista e identitário, valida algumas intuições antigas da ND?
François Dambelin: A ascensão da questão identitária foi percebida muito cedo pela ND. Recordo-me de um texto de uma conferência proferida por Alain de Benoist no colóquio do GRECE em 1985, intitulado «Reflexões sobre a identidade nacional», que terminava com a seguinte fórmula: «SOS Racismo, dizem alguns. Nós respondemos: SOS Raízes.»
Quanto à questão do populismo, parece-me que surgiu num número de Éléments (n.º 84), de meados dos anos 90, cujo dossier era dedicado à insegurança social. No seu editorial, Robert de Herte assinalava «um afastamento cada vez mais generalizado da sociedade global em relação às elites, e muito particularmente de uma classe política convencida de não ser hoje mais do que um intermediário político dos mercados financeiros». Os germes da revolta populista estavam ali, e Alain de Benoist aprofundou esta temática ao longo dos anos seguintes.
Éléments: A Nova Direita está ainda viva? Sob que forma: movimento, herança ou clima de ideias?
François Dambelin: Tendo diante de mim o director da revista Éléments, que acaba de publicar o seu ducentésimo décimo nono número, e estando nós no colóquio do Instituto Iliade, repleto de gente, com muitos jovens e uma quase paridade entre os sexos, penso que não me desmentirá se disser que a ND está bem viva. Evoluiu, evidentemente, diluiu-se por vezes um pouco, mas uma coisa é certa: continua a tirar o sono aos guardiões do politicamente correcto e aos pregadores bem-pensantes!
[1] Tomislav Sunic, Against Democracy and Equality: The European New Right, Peter Lang Publishing, Nova Iorque, 1990; e Pawel Bielawski, European Apostasy – The Role of Religion in the European New Right, Arktos, Londres, 2025.
