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A “Revolução Silenciosa” de Gabriele Adinolfi, radicalmente europeia

Adinolfi defende uma terceira via, entre uma UE ineficaz e formas de soberania autodestrutivas: A soberania europeia.

por Johan Hardoy  in Polèmia

O mais recente livro de Gabriele Adinolfi, La Révolution silencieuse (Éditions du Paillon, 206 págs., 20€), apresenta a mundividência de um antigo activista nacional-revolucionário que se tornou teórico político. Defensor de um Império Europeu inspirado pelo pensador esotérico Julius Evola, o autor apoia a integração europeia, enquanto manifesta uma forte oposição à soberania nacional e uma hostilidade declarada em relação à Rússia. As suas teses, aqui resumidas sem comentários, agradarão a alguns, mas provocarão certamente fortes reacções por parte de outros leitores. Mas a verdade emerge do choque de ideias.

Uma Rússia “Antieuropeia”

Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a Rússia dividiram o mundo entre si, mas os americanos mudaram de atitude “quando os russos tentaram crescer à custa dos seus aliados e rivais, como foi o caso no Afeganistão em 1979”.

Após a queda da URSS, os Estados Unidos apressaram-se “a ajudar a Rússia a reconstruir-se e a recuperar”.

Em 1999, ano da Guerra do Kosovo, Gabriele Adinolfi foi o primeiro italiano “putinista”. A sua posição mudou quando observou “a metamorfose da política russa”. A Rússia “decidiu então abandonar a linha que tinha seguido até 2006 — a colaboração com a Europa — e dois anos depois abraçou o neo-sovietismo ou o neo-czarismo”.

“Certamente, a mudança na linha política dos russos agradou muito aos americanos e, juntamente com os britânicos, contribuíram para isso, manobrando no seu próprio quintal para reduzir a influência adquirida pelo poder económico e diplomático alemão e romper o elo energético entre Moscovo e Berlim.”

A principal razão para esta nova orientação estratégica reside, antes de mais, na mentalidade russa, “geralmente retrógrada” e movida por uma “lógica autocrática de poder [que] sempre foi coerciva e baseada no terror”.

Segundo o autor, a Rússia não atingiu o estádio de uma “civilização plenamente desenvolvida”: “Daí surgiu o ciúme e a animosidade em relação a nós, uma constante na ideologia russa e na matriz da sua política, que, desde Napoleão, sempre foi antieuropeia, contrária às identidades populares e ao próprio conceito de liberdade, que aí ressoa como uma palavra suja”.

“Paris e Berlim conseguiram minorar a situação com os Acordos de Minsk”. […] Até 23 de Fevereiro de 2022, um dia antes da invasão da Ucrânia, a Alemanha e a França cumpriram todas as exigências de Putin e garantiram-nas, mas sem sucesso.

Para justificar a invasão, Moscovo inventou a história da “minoria de língua russa ameaçada” e leis linguísticas discriminatórias que alegadamente provocaram a revolta [no Donbas — que o autor escreve com um único “s” em ucraniano]. O problema é que a população russófona não se sentia russa.

Quanto às 14.000 mortes no Donbas entre 2014 e 2022, “que os russos exibem como se fossem exclusivamente dos seus próprios cidadãos”, “pouco menos de metade são de lealistas ucranianos!”

Em relação à NATO, a sua crítica “baseia-se numa série de mistificações e divagações absurdas”. É acusado de ter ameaçado a Rússia (a Rússia de Estaline!) já em 1949 e de continuar a fazê-lo até hoje. […] Mas então: qual seria o crime em combater uma potência asiático-europeia (e não euro-asiática) que, desde a sua origem, sempre agiu contra nós?

A Hegemonia americana

“Aqueles que denunciam a unipolaridade americana não sabem realmente do que estão a falar. A unipolaridade nunca existiu: foi antes uma hegemonia que, após o colapso da estabilidade de Ialta, adotou a Doutrina Brzezinski para manter a sua liderança através de uma política de acordos multilaterais, acompanhada da criação de competição entre outros actores. Tudo isto não foi suficiente para impedir o crescimento da autonomia e da influência europeias, e muito menos a ascensão da China. Ainda hoje, esta doutrina revista e corrigida é perseguida sem interrupções pela Casa Branca.”

Por sua vez, os BRICS constituem “um sistema de acordos e compensações entre estas economias, mas não uma alternativa ao sistema global”, em que estes países “querem exercer poder negocial dentro do sistema global”.

Gabriele Adinolfi rejeita também o conceito de multipolaridade, que considera irrealista e inatingível: “A sua glorificação não serve outro propósito senão mascarar a nostalgia pela partilha da Europa por potências estrangeiras.”

Critica ainda “o refrão constante sobre o número de bases da NATO em Itália, considerada um instrumento do imperialismo americano”, porque “a dominação americana é primordialmente cultural e financeira”. Assim, “a Turquia, dentro da NATO, pode fazer quase tudo o que lhe apetece”.

Uma construção europeia considerada positiva

As culturas asiáticas e africanas não podem ser homogeneizadas e não podem conduzir à unidade devido às vastas diferenças nas conceções ancestrais e arquetípicas, nos costumes, nos gostos, na estética e nas sensibilidades.

“O mesmo se aplica aos brancos. Encontrar um terreno comum entre mediterrânicos, nórdicos e eslavos é já complexo, mas possível; alargar esta possibilidade para além do Atlântico ou em direção ao Médio Oriente ou à Rússia é inconcebível.”

“Os russos, americanos ou australianos brancos não poderão participar, excepto como minoria e através de antigas tradições familiares, num processo de europeização.”

Gabriele Adinolfi argumenta, por isso, a favor da construção europeia, que, no seu entender, constitui não um modelo acabado, mas uma “dinâmica”.

A Itália perdeu a sua soberania estratégica para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, mas a “cedência de soberania” à União Europeia permitiu-lhe recuperá-la parcialmente, sobretudo desde a ascensão de Giorgia Meloni ao poder.

Segundo o autor, a verdadeira soberania “não pode existir sem uma dimensão continental, nem sem um poder capaz de a impor”. Assim, “a União Europeia é o culminar de um processo iniciado em 1940 por italianos e alemães, e depois retomado após a guerra, com todas as suas estruturas, pelas nações da Europa Ocidental. Este processo foi inicialmente contestado pelos Estados Unidos, antes de ser aceite em troca da adesão à NATO”.

“Na realidade, embora a União Europeia possa não ter um peso político ou militar significativo, a convergência de pontos de vista e interesses entre os principais actores europeus está a acelerar e parece destinada a crescer. A transformação da UE é provavelmente inevitável, e isso não é uma má notícia.” “Ouvimos frequentemente: ‘Somos profundamente europeus, mas não para esta Europa. Ela tem de ser destruída para que se possa construir outra’. Com todo o respeito pelas opiniões alheias, este é o raciocínio de tolos ou daqueles que preferem guetos, prontos a confiar a sua identidade a indivíduos preocupantes e hesitantes.” A integração europeia está em curso, e a sua reconstrução sobre outras bases, após o seu colapso, levaria séculos enquanto outras potências se mantivessem unidas.

“Além disso, raciocinamos como se esta Europa não significasse nada, como se tivesse havido um desembarque alienígena em Bruxelas impondo uma governação supranacional de cima para baixo, como se todo o edifício europeu não fosse um reflexo das políticas nacionais e, sobretudo, uma expressão das classes dominantes de cada país.”

“Nenhuma saída é concebível, e o mero pensamento disso é nauseante.” Isto não significa apoiar a UE tal como ela é, mas ir além dela, numa lógica de progresso, e não de regressão.

“Não há saída concebível, e o mero pensamento nisso é nauseante.” Isto não significa apoiar a UE tal como ela é, mas ir além dela, numa lógica de progresso, e não de regressão.

“O autor defende uma terceira via, entre uma União Europeia ineficaz e formas de soberania “desesperantes e autodestrutivas”: “A soberania europeia. Uma soberania que não é mecanicista, nem jacobina, nem federalista nem confederal, mas harmoniosa, animada por um espírito gibelino renovado e dotada de uma auctoritas imperial que não só não atropela, como exalta as particularidades, as autonomias e as nacionalidades — caso contrário, não poderia ser nem imperial nem gibelina.”

Morte demográfica e imigração na Europa

Gabriele Adinolfi não concorda com a tese de que a imigração é “uma conspiração para nos destruir através da substituição étnica, favorecida pelos capitalistas que precisam de um exército de trabalhadores de reserva para manter os salários baixos”.

Embora reconheça o papel da “ideologia anti-identitária” inerente à ONU, às igrejas, ao comunismo e ao liberalismo, acredita que o cerne do problema reside na queda da taxa de natalidade na Europa: “É a morte demográfica e o desaparecimento da figura paterna, da disciplina e da hierarquia que constituem o problema”.

Segundo ele, os desafios impostos pela imigração não serão resolvidos fechando fronteiras, expulsando migrantes ou impondo um bloqueio naval, mas sim abordando-os na sua origem.

As soluções que perspetiva passam por “preencher o vazio criado pela demografia através do aumento da automatização”, “investir nas taxas de natalidade” e “controlar a imigração através da seleção prévia”, favorecendo aqueles que são compatíveis com as nossas necessidades e costumes.

Além disso, lamenta que a questão do Islão não esteja a ser abordada com “inteligência e firmeza”. “Certamente, pode argumentar-se que é uma religião intolerante, que procura conquistar, converter ou massacrar, porque é isso que dizem os seus textos”, mas no Talmude, “o sentimento negativo em relação aos outros é talvez ainda mais violento”, enquanto o cristianismo nem sempre foi tolerante, como demonstra o massacre dos cátaros.

Trata-se, pois, de abraçar “a própria identidade, de a reivindicar e de se orgulhar dela, sem a definir unicamente em oposição aos outros”.

Por um lobby do povo

“A arrogância ideológica, jurídica e cultural de elites decadentes, que se tornaram incapazes de raciocinar, é um problema. Mas menos em si mesma do que pelo vazio em termos de direção e pontos de referência que criaram. […] Cedo ou tarde, teremos de ajudar a nossa sociedade a dar à luz novas elites, com princípios claros em mente. Não dogmas, mas princípios.”

“Uma vez que presumimos que o poder está firmemente enraizado, em vez de nos concentrarmos na construção de redes de comunicação e na promoção de iniciativas que permitam a reorganização de uma sociedade desligada dos seus órgãos representativos tradicionais, perdemos a possibilidade de criar o que há muito chamo de lobby popular. Este deveria fundamentar toda a ação política, pois teria poder contratual e influência independentes das lutas eleitorais.”

Não se trata de mitificar o povo como estando sempre certo contra a elite, porque ‘a história é o trabalho contínuo de minorias organizadas que formam as elites’, mas sim de gerar novas elites, ‘capazes de perpetuar o Mito — e não as utopias, sejam metafísicas ou geopolíticas — que proliferam nas pseudoideologias de muitos círculos identitários atuais’.

É neste espírito que Gabriele Adinolfi criou os Lansquenets da Europa, uma ‘comunidade de comunidades’ que reúne ‘pessoas de origens por vezes localmente rivais’, que são encorajadas ‘a superar muitas reservas’ para ‘cavalgar o tigre da (pós)modernidade sem hesitação’.

‘De um modo geral, perdemos de vista o facto de que cada acto, cada pensamento, cada conquista artística ou estética, cada exemplo, age à nossa volta e contribui para moldar o palco da infinita comédia humana.’”