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Pedofilia e esquerda libertária, uma longa tradição

por Lionel Placet 

O dever de memória leva-nos a reproduzir um texto com 16 anos, publicado originalmente no nº1 de Nations Presse Magazine, para recordar como alguma esquerda, saiu em defesa – e até na promoção – da pedofilia, principalmente no jornal Libération, ainda hoje venerado pela esquerda portuguesa (sobre esta matéria recomendamos a leitura de 4 artigos publicados, em 2024, no Observatoire du Journalisme, «Libération et la pédophilie, une longue histoire»).

 Em 2001, o semanário L’Express publica, no âmbito de um dossiê sobre a omertà, um artigo intitulado «Os remorsos de Cohn-Bendit», a propósito de uma passagem do seu livro Le Grand bazar (editado pela Belfond em 1975), onde o  líder dos Verdes fala da sua actividade de educador num jardim-escola libertário em Frankfurt. «Aconteceu-me várias vezes que algumas crianças abrissem a minha braguilha e começassem a fazer-me cócegas. Eu reagia de maneira diferente consoante as circunstâncias, mas o seu desejo colocava-me um problema. Perguntava-lhes: «Porque é que não brincam entre vocês, porque é que me escolheram a mim, e não aos outros miúdos?» Mas se insistissem, acabava por os acariciar na mesma», escrevia ele.

Acusado então, com toda a razão, de comportamento pedófilo, Daniel Cohn-Bendit adoptará, através das colunas do diário Libération, um sistema de defesa que consiste em negar os factos – «É nojento. Pretender que eu era pedófilo é uma insanidade. (…) Não houve da minha parte nenhum acto de pedofilia.» – e em justificar os seus escritos pela sua «insustentável leveza» e pelo espírito da época («Sem procurar justificar-me, era o debate da época. Na introdução do livro, preciso que sou o cruzamento do esquerdismo. Retomo todos os debates do esquerdismo, sobre (…) a educação, a sexualidade»). Este sistema de defesa permanecerá imutável ao longo dos anos, face a todos aqueles que, de François Bayrou a Marine Le Pen, evocarem este caso.

É verdade que «o espírito da época» no seio da esquerda de então não era nada hostil à pedofilia. A leitura do Libération dá testemunho disso: em Janeiro de 1977, o diário publica uma longa petição (assinada, entre outros, por Bernard Kouchner, André Glucksmann, Jack Lang e pelo teórico anarquista, então muito conhecido, Daniel Guérin) que toma a defesa de três homens que comparecem perante o tribunal de júri de Versalhes por actos de natureza pedófila; em Abril do mesmo ano, anuncia, sem se inquietar minimamente, a criação de uma Frente de Libertação dos Pedófilos; um pouco mais tarde, é uma carta aberta à Comissão de Revisão do Código Penal, exigindo que sejam «revogados ou profundamente modificados» os artigos de lei relativos ao «desvio de menor», no sentido «de um reconhecimento do direito da criança e do adolescente a manter relações com as pessoas da sua escolha», que figura em bom lugar nas suas colunas; em 1979, a sua rubrica «correio dos leitores» publica a carta de um pedófilo preso; repetição, a 20 de Junho de 1981, com a publicação da entrevista, intitulada «abraços infantis», de um certo Benoît. O jornalista que interroga o nosso homem precisa, sem se escandalizar, que: «Quando Benoît fala das crianças, os seus olhos escuros de pastor grego inflamam-se de ternura», e o dito Benoît, com os olhos cheios de ternura, relata… actos de pedofilia sobre uma criança de cinco anos!

«Dormir com uma criança? Uma liberdade como as outras.»

Mas o espírito da época não explica nada. Não é a causa, mas a consequência, é o que confessa, talvez inconscientemente, Sorj Chalandon, no número de 23 de Fevereiro de 2001 do Libération: «Estamos no final dos anos 70. Os vestígios de Maio das barricadas ainda estão nas paredes e nas cabeças. (…) Neste tumulto, esta reviravolta dos sentidos, este ancoramento de novos referenciais, nesta nova apreensão da moral e do direito, esta fragilidade e esta urgência, tudo o que se ergue no caminho de todas as liberdades tem de ser abatido. (…) A pedofilia, que não diz o seu nome, é um simples elemento desta tormenta. (…) Dormir com uma criança? Uma liberdade como as outras.»

O «espírito da época» de então não é, portanto, senão a consequência da desordem libertária de Maio de 68. Mas esta, na realidade, apenas colocou em primeiro plano ideologias que existiam até então de forma mais ou menos subterrânea e que não tocavam senão em franjas muito limitadas da população francesa. De todos os tempos, estas fizeram a promoção da pedofilia, e os seus partidários praticaram-na frequentemente em nome de uma nova pedagogia que se baseia na ideia de que a criança é um ser acabado desde o seu nascimento. O pedagogo não tendo senão um único papel: o de o ajudar a revelar o que tem em si, incluindo os seus desejos, a sua sexualidade e a livre escolha dos seus parceiros… A ideia não é recente, pois encontra-se já em 1858 em “Da justiça na Revolução e na Igreja” de Proudhon, que evoca já a possibilidade de actos pedófilos como normais. Será posta em prática desde o final do século XIX numa série de escolas libertárias. As primeiras são fundadas por Paul Robin. O homem não é um qualquer: é um anarquista de primeira linha que frequentou Marx, Bakunin, Kropotkin, Reclus e que pertenceu à direcção da Primeira Internacional. Será acusado em Abril de 1909 de ter tido relações com «rapazes de 14 anos e raparigas de 12». Paul Robin, no final da sua vida, é próximo de Sébastien Faure. Este dirigente dos anarquistas franceses durante o primeiro terço do século XX, director do semanário Le Libertaire, foi também o criador de uma escola alternativa «La Ruche», onde foi acusado de se entregar a actos pedófilo-pedagógicos sobre os seus alunos! Entre os próximos de Faure encontrava-se um certo Ernest Juin. Ele também era um militante anarquista muito conhecido, colaborou no Libertaire, fundou os seus próprios jornais, entre os quais L’en dehors, nas colunas do qual, a meio dos anos 20, legitimou e preconizou a pedofilia com argumentos emprestados à sexologia e a Charles Fourier… Poder-se-ia pensar que se trata de aberrações ligadas a uma época particular se tais exemplos não se reencontrassem mais perto de nós nos mesmos meios. O melhor exemplo sendo a escola libertária «Marie Pantalon», onde oficiava, nos anos 90, Patrick Font, então estreitamente ligado a Philippe Val. Em 1996, foi acusado de «tocamentos sobre menor em enquadramento institucional» e condenado a seis anos de prisão.

Ora, não se deve esquecer que muitos daqueles que participaram no Libération, que tiveram laços de amizade aos seus jornalistas da época, que peticionaram, que apoiaram as escolas «alternativas», pertencem agora à hiper-classe – tais como Serge July, Roland Castro, André Glucksmann, etc. –, e estão mesmo por vezes no poder – como Bernard Kouchner – ou nas suas antecâmaras, como um Philippe Val (que se sabe ligado a Carla Bruni por «laços afectivos muito fortes») ou um Jack Lang… Tudo isto permite compreender sem dificuldade o apoio de que beneficiaram recentemente tanto um Roman Polanski como um Frédéric Mitterrand, certamente em nome de recordações e de sonhos comuns.