«O 28 de Maio representou uma revolução orientada para a construção da ordem e da estabilidade, priorizando a reorganização do Estado e a restauração da autoridade política.»
por João Martins
O centenário de um golpe militar que redundou em revolução
O golpe militar de 28 de Maio de 1926 assinala o fim da Primeira República e inaugura um período de restauração da autoridade do Estado, que culminaria no Estado Novo. Grande parte da historiografia, por inclinação ideológica ou por cobardia intelectual, lê este episódio à luz do período subsequente, sobretudo após 1933, como o prelúdio inevitável da ascensão de Salazar.
No centenário, propõe-se uma abordagem alternativa, centrada no próprio momento de 1926, salientando o carácter resoluto, mas improvisado, plural e mesmo contraditório do golpe. Os militares envolvidos estavam decididos a pôr termo ao caos demo-liberal-parlamentar, ainda que a diversidade ideológica e a falta de um programa unificado marcassem os primeiros dias da intervenção.
Posto isto, propomo-nos a escalpelizar a arrancada de 28 de Maio em sete sucintos pontos.
O golpe como acto improvisado e plural
O 28 de Maio não se apoiou num programa político coerente. Entre os oficiais que assumiram o comando havia republicanos autoritários, monárquicos moderados e sidonistas, cada um com visões divergentes sobre o Estado, a intervenção militar e a política económica. A sucessão rápida de chefias militares — Gomes da Costa, Mendes Cabeçadas, Óscar Carmona — evidencia a ausência de um projecto comum, orientando a acção mais pelo interesse nacional imediato do que por qualquer coerência ideológica. Não havia um plano claro, apenas a necessidade de restaurar a autoridade, estabilizar o país e pôr fim à anarquia parlamentar.
Esta perspectiva permite ler o golpe como uma revolução da ordem, que deu prioridade à restauração da autoridade do Estado sobre os programas ideológicos, diferindo profundamente de um golpe fundador de um regime totalitário.
Reacções sociais e quotidiano imediato
A recepção do golpe por funcionários públicos, professores, juízes e oficiais subalternos oscilou entre adesão cautelosa, alívio e indiferença. A mudança imediata no quotidiano foi relativamente limitada: escolas, tribunais e administrações funcionaram com normalidade, e muitos oficiais intermédios aguardaram instruções sem se comprometerem activamente.
A imprensa relatava soldados nas ruas, mas, para o comércio e o aparelho de ensino, pouco parecia ter mudado.
Este comportamento sugere que o golpe foi percebido como uma solução técnica para problemas de ordem e governação, mais do que como um acto de transformação ideológica, reforçando a ideia de pragmatismo militar.
A revolução de Maio no contexto histórico português
Desde 1910, a intervenção militar era recorrente: golpes, ditaduras temporárias e tutela das Forças Armadas sobre os governos civis. O 28 de Maio representa a culminação desta tradição. A sua leitura como ruptura isolada ignora a continuidade de actos de força que visavam restaurar a ordem e resolver crises administrativas — um padrão repetido ao longo da Primeira República.
Perspectiva comparativa internacional
A arrancada de 28 de Maio de 1926 não é um fenómeno isolado no contexto europeu:
- Espanha, 1923 – Ditadura de Primo de Rivera: intervenção militar justificada pela inabilidade do Parlamento.
- Itália, 1922 – Marcha sobre Roma: Mussolini ascende ao poder através de uma demonstração de força organizada, garantindo, em seguida, a desejada estabilidade política.
- Polónia, 1926 – Golpe de Piłsudski: os militares intervêm para estabilizar uma democracia parlamentar considerada ineficaz.

Estas comparações situam Portugal no panorama europeu da década de 1920, em que as intervenções militares ou golpes de força surgem como resposta pragmática às crises de governação.
O golpe como resposta à crise da democracia parlamentar
A instabilidade governativa e a crise financeira do Estado português criaram um contexto em que o golpe emergiu como uma solução funcional. Ao reorganizar a administração e redefinir hierarquias, o 28 de Maio constituiu, como já vimos, uma revolução da ordem, assegurando a continuidade do Estado e procurando prevenir colapsos institucionais imediatos. A dimensão ideológica assumiu, neste contexto, um papel secundário face à necessidade de estabilização política.
Fernando Pessoa constitui um exemplo de uma adesão intelectual favorável à ditadura militar instaurada após o golpe de 28 de Maio de 1926, expressa no pequeno ensaio político Interregno (1928). Nesse texto, Pessoa apresenta a democracia parlamentar como inoperante e desorganizada e, nesse enquadramento, considera que uma ditadura temporária poderia ser necessária para restaurar a autoridade do Estado e preparar uma nova ordem política.
Memória, esquecimento e centenário
Durante o Estado Novo, o 28 de Maio foi celebrado oficialmente como um momento fundacional de ordem e autoridade. Após o 25 de Abril de 1974, este acontecimento histórico foi propositadamente eliminado da memória pública, em contraste com a crescente relevância simbólica da Revolução dos Cravos, cuja mitologia foi sendo construída e difundida de forma sistemática na esfera pública.
Este apagamento da memória pública do 28 de Maio contribuiu para a sua menor presença simbólica na vida colectiva contemporânea, embora tal ausência não corresponda à importância de que esta revolução se reveste.

O 28 de Maio vs 25 de Abril: revoluções contrastantes
O 28 de Maio representou uma revolução orientada para a construção da ordem e da estabilidade, priorizando a reorganização do Estado e a restauração da autoridade política. Por oposição, o 25 de Abril de 1974 constituiu uma revolução anárquica e de desconstrução, marcada pela mobilização popular e por uma profunda reconfiguração do sistema político e institucional.
Síntese final
O centenário do golpe militar de 28 de Maio de 1926 oferece uma oportunidade para repensar o acontecimento para além de leituras estritamente binárias. Considerado no contexto do seu tempo, nas reacções sociais, na tradição de intervenção militar e na comparação internacional, a Revolução Nacional revela-se um notável acto de pragmatismo político, em que o interesse nacional se sobrepôs às ideologias partidárias. Esta leitura permite enquadrar a importância do acontecimento e compreender a sua longevidade institucional, sem necessidade de recorrer a discursos exclusivamente laudatórios ou condenatórios.
