Pseudo-identidades
por António Rendeiro Porto Soares
Preâmbulo
As últimas décadas do século XX e as primeiras deste século relançaram nas ribaltas políticas e metapolíticas a questão da Identidade.
Vários fenómenos contribuíram para isso: o avanço galopante da mundialização, o tsunami migratório e a reorganização geopolítica mundial, entre outros. Todos eles reconfiguraram problemáticas identitárias sobretudo nas seguintes dimensões: etno-cultural, luta de classes e soberania nacional.
Na realidade, esta problemática começou a germinar a partir da Revolução Francesa de 1789 que marcou o nascimento cultural, político e social da Modernidade liberal/capitalista. Até então, nas sociedades tradicionais (pré liberais) a questão da Identidade era praticamente inexistente na medida em que o “indivíduo” não existia como tal, sendo considerado como um elo numa longa cadeia orgânica colectiva familiar, tribal, nacional, profissional ou outra. Com o advento da Revolução Francesa a questão da Identidade passa do “pertenço/identifico-me com algo” ao “quem sou eu?”
A ideologia liberal tentou abolir todo o sentimento de pertença às comunidades orgânicas e respectivos usos e costumes, transitando-se da realidade da Comunidade que regia os cidadãos através de vários determinismos etno-culturais, políticos ou outros para a Sociedade atomizada de indivíduos desenraizados, supostamente livres dos “arcaísmos” de tais pertenças ou determinismos, passando a ser regidos por um mero “contrato social”.
Todas estas vicissitudes geraram novos fenómenos identitários e, também, a perversão dos mesmos pelo politicamente correcto das chamadas causas fracturantes: ideologia de género/teoria queer LGBT, feminismo moderno mas não só…
Os fenómenos acima citados têm um ponto em comum: apareceram inicialmente na América, verdadeira alma mater do manicómio ocidental. Influenciados, numa primeira fase, pela Escola de Frankfurt (pelo menos parte deles), rapidamente adquiriram mestres de pensamento autóctones e tiveram uma génese que começou no pós-segunda guerra mundial, acelerou nos anos 60 e 70 e institucionalizou-se (pelo menos no meio universitário) a partir do início deste século.
A localização inicial destes fenómenos em solo americano não é casual: a América, vanguarda do capitalismo e da ideologia liberal, fundada por messiânicos em ruptura com a velha Europa, é o caldo de cultura ideal destas alucinações. A “terra dos livres”, entenda-se, dos alienados apátridas, refugo de todas as civilizações, apresenta um conjunto de características que são, de todo, a antítese de uma Identidade tradicional: fluidez, efemeridade, desenraizamento, ausência da mais longa memória… Daí, a eclosão lógica no seu seio de tais derivas ideológicas.
Teoria queer e movimento LGBT
Abandonando esta breve digressão, comecemos por dissecar a teoria queer, fundamento ideológico do movimento LGBT.
A teoria queer afirma-se, essencialmente, como uma libertação de todos e quaisquer determinismos ligados à sexualidade, entendidos como construções sociais emanadas de um fantasmagórico patriarcado falocrático. Sendo assim, esta concepção nega toda e qualquer realidade biológica que fundamente a divisão da Humanidade em Homens e Mulheres e em polos Masculinos e Femininos remetendo esta divisão para uma mera norma linguística entendida como eminentemente opressiva.
A base teórica desta concepção tem como principal precursor Michel Foucault, sendo a sua consolidação obra de intelectuais americanos tais como Judith Butler (em lugar destacado), Eve Sedgwick, Gayle Rubin, David Halperin, Adrienne Rich et alii.
Na perspectiva de Foucault, exposta sobretudo na sua obra História da sexualidade, a sociedade capitalista criou uma “maquinaria” discursiva, tendente a criar uma grelha normativa no que toca ao fenómeno da sexualidade, sendo a ciência o principal veículo de tal norma. Como tal, importará “desconstruir” não só a linguagem como também a biologia, entendidas ambas como meras representações da “opressão heteropatriarcal”.
Judith Butler, fiel seguidora de Foucault e Derrida, mantem-se na mesma linha, recusando drasticamente qualquer fundamentação biológica para os sexos, géneros e sexualidade, sendo para ela, tão somente uma construção social e que género e sexo não têm qualquer relação entre si. Tais teses foram expostas nos seus livros Bodies that matter e Problemas de Género, reiterando abundantemente o poder normativo do discurso, o qual “cria” fenómenos e os regula e categoriza.
Daqui decorre que para ela, o género corresponde às coisas que alguém faz (sob a influência da construção social) e não o que ela é. Na concepção ideológica de Butler, os seres humanos não nascem com a percepção de serem Homens, Mulheres, heteros ou homossexuais. Negam-se, portanto, os factores inatos (biológicos), remetendo-se todas as características e actuações inerentes ao sexo e ao género para o domínio de uma mera socialização exteriormente imposta.
Não há Biologia (leia-se Natureza), há, somente, uma mera construção social/discursiva!
Para Judith Butler e seus adeptos, impõe-se fazer tábua rasa do bom senso, da Ciência e da Natureza que são bagatelas reaccionárias, fruto do “falocentrismo hetero-patriarcal”. Como é óbvio, o resultado desta utopia woke só pode ser a distopia totalitária ocidental. É o que acontece quando se submete a Realidade à Ideologia!
Do feminismo histórico ao feminismo histérico
O que se convencionou de chamar “feminismo histórico” surgiu no século XIX. Houve obviamente figuras precursoras como Safo, Christine de Pisan e, posteriormente, Mary Wolstonecraft (com a sua obra Vindication of fights of women) e sobretudo a mais radical das precursoras: Olympe de Gouges que escreveu, em resposta à Declaração dos Direitos do Homem, a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Escusado será dizer que a Revolução Francesa, conciliando o seu amor infinito pela “Humanidade” e o seu desprezo pelos Homens e Mulheres, a guilhotinou.
Na sua fase inicial, o feminismo histórico focou-se essencialmente em temáticas sociais: acesso ao sufrágio (lembremo-nos que a primeira vez que as Mulheres Portuguesas puderam eleger deputadas foi durante o Estado Novo), direitos laborais e acesso livre à educação.
Na realidade, esta primeira vaga feminista que postulava, há que reconhecê-lo, propostas e exigências relevando do mais elementar bom senso e justiça social, não pode ser dissociada da evolução da Revolução Industrial capitalista nem do puritanismo burguês, expressão anglo-saxónica da moral judaico-cristã. Relativamente ao primeiro vector, há que enfatizar que com o acelerar da expansão capitalista industrial a necessidade de massa assalariada aumentou drasticamente. Ora tal necessidade coexistia com uma economia rural que absorvia uma parte significativa da mão-de-obra masculina. Isso forçou o recrutamento de um proletariado feminino, incluindo a respectiva componente infantil. Precariedade permanente, alcoolismo, tuberculose, tais eram alguns dos flagelos que castigavam o assalariado feminino.
Se juntarmos a isto, a insuportável menoridade social e até intelectual conferida pela rançosa moral vitoriana à condição feminina, reduzida à dicotomia entidade biológica meramente reprodutiva ou objecto sexual, temos o caldo de cultura ideal para o aparecimento do primeiro feminismo. Sublinhe-se que este fenómeno não evidenciava a misandria descarada do feminismo histérico, limitando-se a combater os excessos perpetrados pelo capitalismo patriarcal misógino.
As décadas passaram e chegámos a Maio de 68, efeméride marcante para o triunfo do liberalismo cultural, sendo o feminismo uma das áreas essenciais para tal vitória. À crítica das injustiças inerentes ao capitalismo patriarcal, sucedeu-se uma misandria agressiva e também a entrada do factor racial.
Na viragem para este feminismo histérico, destaca-se a influência de intelectuais e activistas como Simone de Beauvoir, Germaine Greer (que teorizou a suposta miséria sexual das mulheres submetidas à “falocracia”), Bela Abzug e Betty Friedan (oriundas de uma comunidade hiper representada no liberalismo cultural), particularmente activas no ataque à maternidade tradicional (uma análise cuidadosa da respectiva imagem pessoal poderá explicar bem os recalcamentos e neuroses subjacentes a este ataque) e, finalmente, Kate Millet que analisou os alegados estereótipos machistas subjacentes às representações do sexo feminino na literatura masculina.
Com a entrada do conceito de interseccionalidade, que misturava a questão feminista, racial e LGBT, completa-se a génese do novo feminismo. Na criação deste novo paradigma feminista, destacam-se ensaístas/polemistas como Judith Lorber, Jane Pilcher, Candace West, Don Zimmerman, Bell Hooks, Patrícia Collins, além de outras e outros de menor importância.
Enquanto, até bem entrada a década de 80, a abordagem feminista seguia a grelha marxista da luta de classes, abordando a condição feminina como um novo proletariado, explorado no meio laboral e familiar, a partir dos anos 90, sob a influência da interseccionalidade, tudo mudou. A ensaísta Judith Lorber, no seu livro Shifting paradigms and challenging categories analisou magistralmente essa mudança da luta entre opressor masculino e oprimido feminino para uma dialéctica desviada da típica luta de classes e fundamentada na fragmentação de sexos, géneros e sexualidades.
A polarização já não se cristaliza na classe mas no género (com a infinidade inerente de sub-géneros), centrado em múltiplos estratos e hierarquias. A esta primeira constatação, seguem-se outras: o género e a sexualidade são meras construções sociais criadas por um discurso socialmente legitimado para definir o papel da mulher. Finalmente, o factor racial entrou também em jogo na medida em que a nova geração feminista inclui um considerável contingente de activistas negras, as quais criticam e problematizam (com alguma razão) a excessiva preponderância das suas congéneres brancas (essencialmente pertencentes à classe burguesa),incluindo um substancial número de activistas provenientes de uma certa comunidade abundantemente representada nestas causas fracturantes.
Para esta facção, a mulher negra é duplamente oprimida como mulher e como negra. Funciona aqui o jogo do papel de quem é mais oprimida, típico destas causas neo-identitárias, entendendo as feministas negras que as problemáticas específicas da sua dupla condição de mulheres/negras não se enquadram nos discursos de conhecimento brancos/ocidentais/masculinos. Por outro lado, reiteram que as experiências de vida das suas alter egos brancas de classe média alta (80% das feministas) lhes são estruturalmente alheias porquanto as origens de classe e étnicas das mesmas lhes atenuam ou evitam o grau de opressão que as mulheres negras sofrem.
Conclusão
Para terminarmos esta digressão “à vol d’oiseau” sobre estas pseudo-causas identitárias, concluiremos que as mesmas não só não constituem qualquer perigo para o sistema liberal/capitalista como o reforçam. A inclusão das várias “diversidades” (LGBT, feministas, minorias étnicas) nas estruturas capitalistas e nos seus agentes directos não tornou o capital menos explorador ou opressivo, apenas lhe deu uma nova legitimidade moral. As políticas woke/inclusivas das multinacionais acomodam-se perfeitamente com a exploração semi-esclavagista da mão-de-obra das sweat-shops do terceiro mundo.
Recorrendo às incisivas análises de Alain de Benoist ou de Patrick Marcolini, às identidades objectivas (pertença a um povo ou classe social), sucederam as novas “identidades” subjectivas e artificiais (gays, trans, racializados pós-coloniais), testemunhos vivos da putrefacção das sociedades multiculturais. O cacarejado “direito à diferença” postulado pelos neo-identitários desagua invariavelmente numa homogeneização total, a do “homo consumans”, verdadeira antítese do homem enraizado e diverso.
