Europa, a terra dos nossos filhos
por Adriano Scianca in Institut Iliade
Viveremos como ventos fortes. / Seremos fiéis à terra, / fiéis à terra dos filhos, / fiéis à terra vindoura. Gabriele D’Annunzio
Num capítulo crucial de «Assim Falou Zaratustra», “As Tábuas Velhas e Novas”, onde Friedrich Nietzsche resume em breves capítulos muitas das teses que já tinha desenvolvido em capítulos anteriores, o filósofo alemão expressa a sua “pena pelo passado”. O passado, de facto, é assolado por dois perigos.
O primeiro perigo é o advento de “um grande déspota […], um demónio mau que forçaria todo o passado pela sua graça e pela sua desgraça”. O segundo perigo é “o povo”, que “só pode traçar a sua linhagem até ao seu avô — mas com o avô o tempo termina. Assim, todo o passado é abandonado…”. Aqui, os dois perigos são: o passado “forçado” e o passado “abandonado”. Num capítulo anterior, “Da Terra da Civilização”, Zaratustra descrevera as suas deambulações no presente, numa paisagem desolada. Os homens do presente, explicou, vangloriam-se de serem “inteiramente feitos de realidade”, mas estão cobertos de signos, de escritos, “manchados com os signos do passado, que por sua vez são cobertos com novos signos”, repletos “com as pinturas de tudo aquilo em que já se acreditou”. Ambos os discursos partilham o fio condutor de terminar com a evocação da “terra das crianças”, a terra do futuro, o projeto do futuro. Já não a terra dos pais ou das mães, mas a terra das crianças.
Tentemos decifrar a linguagem alegórica de Nietzsche. Existem três formas equivocadas de se relacionar com o passado. A primeira é a da “população” que “abandona” o passado, para quem nada remonta a mais de duas gerações. Nietzsche fala das massas embriagadas, sem história, que não sabem de onde vêm e vivem num presente eterno. A segunda forma errónea de se relacionar com o passado é a do “grande déspota”, que viola vulgarmente o passado, moldando-o às suas necessidades prosaicas. Nietzsche fala dos usos políticos da história, do poder reescrever o passado para se legitimar, mas de forma grosseira, sem outro objetivo que não fosse a sua própria perpectuação. Mas existe também uma terceira forma errónea de se relacionar com o passado. Trata-se do “realismo” dos conservadores, que aceitam toda a história passada sem questionamento, tudo o que foi dito e feito antes deles, que acreditam que o que foi é digno de interesse simplesmente por ter sido, que todo o costume, hábito, língua e instituição estabelecidos merecem respeito simplesmente por nos terem sido transmitidos.
Esquecimento, falsificação e conservadorismo. Para Nietzsche, estes são os maus usos da história. O filósofo sente “pena” por um passado assim mal utilizado e, por isso, deseja “redimi-lo” (ver o capítulo “Da Redenção”). A redenção do passado consiste na sua inclusão num projeto futuro que lhe confere um novo sentido. Mas atenção: para o futuro, a passagem da “terra dos pais” para a “terra dos filhos” não implica um construtivismo absoluto, o desprendimento de todos os pressupostos, a criação de uma cidade ideal e utópica surgida do nada. Existe sempre um vínculo filial na base; filhos e pais permanecem ligados; ninguém age no vácuo. A abordagem revolucionária de Nietzsche é colocar os filhos à frente dos pais, para garantir que os filhos “dá sentido” aos pais. É o nosso projeto para o futuro que indica qual o passado a escolher. As nossas raízes são aquilo em que nos queremos tornar. Isso continua a ser verdade hoje. Todas as disputas sobre as origens são apenas superficialmente disputas sobre o passado. Quando alguém diz que está a regressar às raízes indo-europeias, romanas, gaulesas, cristãs ou iluministas, está na realidade a dizer que deseja indo-europeizar, romanizar, galicizar, cristianizar ou iluminar. É por isso que estes debates são muitas vezes tão acesos: é claro para todos que não estamos a discutir o passado, o que fomos um dia, mas o que nos queremos tornar, o que seremos. O projeto para o nosso futuro é escrito pelos heróis ancestrais que escolhemos para nós.
Em que sentido pode a Europa ser a “terra dos nossos filhos”? Para nós, activistas europeus do terceiro milénio, duas das tarefas delineadas por Nietzsche são cruciais, mas também evidentes. Lutamos contra o esquecimento — o esquecimento das nossas origens e da nossa história — e contra a violência do poder que reescreve vulgarmente o passado para se legitimar. O terceiro perigo, porém, é-nos mais insidioso, porque o “realismo conservador” também nos pode seduzir. Afinal, se os nossos adversários querem “apagar” o passado, é natural que o salvemos na íntegra. Não é por acaso que a nostalgia pelo passado parece ser o vício congénito de muitos indivíduos ou grupos movidos pelas melhores intenções de identidade. As redes sociais estão repletas de páginas que querem salvar a cultura europeia daqueles que a questionam, mas cuja iconografia mal ultrapassa o século XIX (o “estúpido século XIX” de Léon Daudet). Para muitos europeus bem-intencionados, a “beleza como horizonte” parece terminar com a Belle Époque ou, para os mais ousados, com 1945. De qualquer modo, temos a impressão de que o passado ficou para trás, quando, na verdade, o horizonte, por definição, é o que deveria estar à nossa frente. Mesmo a resposta adequada à sujidade, à decadência, à insegurança e à vulgaridade das nossas cidades, consequência da imigração em massa, termina muitas vezes no beco sem saída da nostalgia apolítica. Por falar em redes sociais, vejo com frequência vídeos que retratam cenas do quotidiano nas grandes cidades europeias numa época em que a imigração ainda não tinha desfigurado a nossa sociedade, como se estivéssemos a falar de uma época dourada. É por isso que estamos a lutar? Para trazer Roma, Paris e Berlim de volta aos anos 80? O soberanismo, tal como a mitificação dos Estados-nação e a riqueza imaginária garantida pelas moedas nacionais antes do euro, é a peça mais recente neste mosaico de mediocridade política.
O fascínio da passividade é tal que até um autor brilhante que fez do dinamismo, da imaginação e da provocação a sua imagem de marca, como Guillaume Faye, ao ter de imaginar o mundo de amanhã num livro tão importante como «Arqueofuturismo», não pôde deixar de temperar os seus imaginativos “saltos para o futuro” com elementos “arcaicos” para tornar a sua visão menos traumática. Mas o futurismo não precisa de ser “arcaico” para estar enraizado. Uma nave espacial europeia lançada para conquistar Marte não precisa de imitar uma trirreme grega para expressar uma identidade que já possui. Ela é já, em si mesma, a continuação de milénios de exploração e aventura liderados pelo génio europeu.
Se queremos ser os construtores de uma nova civilização, devemos vencer a tentação desta constante referência ao passado, que é como uma armadura excessivamente pesada: bela de se ver, mas que nos impede de avançar. Devemos fazer um imenso esforço de imaginação e visualizar realmente a Europa como a terra dos nossos filhos. “Uma pátria como nunca vimos”, disse Drieu La Rochelle. E, dado que as vacinas funcionam através da injeção controlada do vírus, pode questionar-se se um pouco de esquecimento não faria bem aos patriotas europeus mentalmente confinados a um museu a céu aberto. Apenas um pouco, o suficiente para redescobrir a inocência que sempre pertenceu aos criadores da nova ordem mundial. Talvez os construtores da nova Europa se assemelhem àqueles bárbaros primordiais descritos por Nietzsche em «Genealogia da Moral»: “Chegam como o destino, sem causa, sem razão, sem consideração, sem pretexto; estão lá com a velocidade de um raio, demasiado terríveis, demasiado repentinos, demasiado convincentes, demasiado outros” para sequer serem objecto de ódio. O seu trabalho consiste em criar formas instintivamente, impressões marcantes; são os artistas mais involuntários e inconscientes que existem: “Onde quer que apareçam, em pouco tempo surge algo de novo, uma engrenagem soberana que ganha vida…”
Este texto foi publicado na edição especial da revista «Livr’Arbitres», Actas do XI colóquio anual do Instituto Ilíada – 2024.
