Louis-Ferdinand Céline editado em português
Finalmente traduzida e começada a publicar em Portugal, pela E-primatur, a trilogia alemã de Louis-Ferdinand Céline tem o primeiro volume publicado e o segundo em subscrição, devendo ser editado em Maio.
A obra composta por Castelos Perigosos (1957), Norte (1960) e Rigodon (1969, póstumo), relata o seu tumultuoso exílio pela Alemanha devastada durante os últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Escritas num estilo vibrante e emotivo, estas obras captam a fuga de Céline, juntamente com a sua mulher Lucette e o seu gato Bébert, da Paris bombardeada em 1944 para Sigmaringen, um refúgio para a comunidade colaboracionista francesa. Ali, rodeado de figuras lamentáveis e carnavalescas, Céline transforma o drama histórico numa fábula burlesca, denunciando o absurdo e a miséria humana. Estes textos não se limitam a relatar factos; mergulham numa crítica mordaz às redes colaboracionistas, às hierarquias decadentes e às ilusões de poder, enquanto expõem o declínio de uma Europa devastada pela guerra. As interações com figuras como Robert Le Vigan, um actor que abandonou o cinema francês para se juntar a este movimento, realçam os compromissos e as traições de um certo segmento da elite cultural francesa.
A viagem continua até Copenhaga, em 1945, onde Céline espera um indulto, mas é surpreendido pelas autoridades francesas que exigem a sua extradição. Preso em Vestre Faengsel durante mais de um ano e depois colocado em prisão domiciliária em Korsør sob duras condições, suporta um exílio de cinco anos marcado pelo medo e pelo isolamento. Estes anos dinamarqueses, muitas vezes negligenciados, revelam um Céline apátrida, trabalhando sob constante ameaça, mas perseverando na sua escrita. A trilogia ilumina as tensões entre o seu génio literário e as suas escolhas políticas controversas, nomeadamente o seu anti-semitismo virulento e os seus contactos com as autoridades alemãs entre 1940 e 1944, que lhe valeram a desgraça. Levanta a questão da responsabilidade dos intelectuais em contextos de identidade e de crise nacional.
Esta trilogia mostra como as redes de influência, muitas vezes oportunistas, levaram figuras como Céline a fazer concessões, em detrimento dos povos europeus nativos, vítimas da devastação da guerra. Compreender estas obras exige ir além da mera admiração literária e examinar as estruturas de poder e as traições que marcaram aquela época.
