Intervenção no VIII Colóquio Anual do Institut Illiade, em 2021.
por Alain de Benoist
«O liberalismo contra os povos». Esta expressão pode ser entendida de duas maneiras diferentes. Há, por um lado, a teoria liberal, a ideologia liberal, cuja uma das características consiste precisamente em negar a existência dos povos. Há, por outro lado, a prática. Esta exerce-se por intermédio de um sistema, o sistema capitalista, que me parece indissociável do liberalismo enquanto doutrina ou ideologia, visto poder definir-se como um dispositivo geral de instrumentalização do mundo tendente a estabelecer o primado do valor mercantil sobre todos os outros, o que implica precisamente a generalização do modelo antropológico liberal, que é o do «homem económico», do Homo œconomicus. É por isso que falar de liberalismo ignorando o capitalismo equivale a falar no vazio.
Porque nega a teoria liberal a existência dos povos? Porque assenta sobre uma base antropológica simultaneamente «economicista» e individualista. Historicamente falando, a modernidade liberal corresponde ao momento em que a sociedade deixa de ser considerada primeira, passando o indivíduo a ser concebido como anterior ao todo social, o qual não é então mais do que um simples agregado de vontades individuais. Considerado de forma abstracta como um ser fundamentalmente independente dos seus semelhantes, plenamente proprietário de si mesmo, não vinculado por qualquer pertença anterior à sua própria existência, o homem é paralelamente redefinido como um agente que procura permanentemente maximizar o seu interesse próprio, adoptando assim o comportamento do negociante no mercado. Esta viragem sem precedentes é precisamente obra do liberalismo, cujo aparecimento coincide com a ascensão da classe burguesa no seio das sociedades ocidentais.
Fundamentalmente, o liberalismo pensa o mundo à escala do indivíduo. Para os pensadores liberais, o homem, longe de ser constituído enquanto tal pelos seus vínculos com os outros, deve ser pensado como um indivíduo desligado de toda a pertença constitutiva, isto é, fora de qualquer contexto cultural ou histórico-social. A liberdade, colocada como um direito inalienável, reduz-se à liberdade individual concebida ela própria como emancipação em relação a tudo o que exceda o indivíduo. Considera-se igualmente que a soberania não deve estender-se para além do indivíduo nem exercer-se acima dele, o que deslegitima a noção de soberania nacional ou de soberania popular. A ideia geral é a de que o homem é antes de mais aquilo que escolheu livremente ser, que é inteiramente senhor das suas escolhas e que deve ser deixado livre para se construir a si próprio, não a partir de um dado pré-existente, mas a partir do nada. Esta ideia conduz evidentemente à indiferença relativamente às diferentes concepções do bem. Como justamente afirma Pierre Manent, o liberalismo é antes de mais a renúncia a pensar a vida humana segundo o seu bem ou segundo o seu fim. O resultado é o desaparecimento de toda a ideia de bem comum.
Nesta óptica, os povos não passam de simples agregados de indivíduos, o que significa que não possuem qualquer característica própria enquanto povos que lhes permita distinguir-se dos outros povos. O mesmo sucede com as comunidades, as nações e as culturas. «A França não é mais do que um agregado de seres humanos», afirma assim o economista liberal Bertrand Lemennicier. «A sociedade não existe» («There is no society»), declarava Margaret Thatcher. A sociedade torna-se então apenas o produto contingente das vontades individuais, um simples conjunto de indivíduos procurando todos defender e satisfazer os seus interesses particulares. Uma tal sociedade já não tem de ser governada, mas gerida como auxiliar do mercado. Não estamos longe do velho sonho saint-simoniano de substituir o governo dos homens pela administração das coisas.
O liberalismo, deste ponto de vista, é directamente antagónico da afirmação das identidades colectivas. Uma identidade colectiva não pode, com efeito, ser analisada de maneira reducionista, como simples soma das características possuídas por indivíduos reunidos no seio de uma determinada colectividade. Exige que os membros dessa colectividade tenham clara consciência de que a sua pertença engloba ou excede o seu ser individual, isto é, que a sua identidade comum resulta de um efeito de composição. Implica igualmente reconhecer que existem, no seio de um conjunto dado, propriedades emergentes distintas das características dos indivíduos singulares que o compõem. Ora, o liberalismo nega a existência dessas propriedades emergentes — aquelas que fazem com que uma floresta seja mais do que uma adição de árvores, um povo mais do que uma soma de indivíduos.
Vejamos agora o que se passa do lado do capitalismo. Digamos antes de mais que o maior erro que se poderia cometer seria vê-lo apenas como um sistema económico. O capitalismo não é antes de tudo um sistema económico, mas um «facto social total» (Marcel Mauss), do qual decorre a forma fetichizada assumida pelas relações sociais nas sociedades liberais. É portanto vão procurar apreciar o seu valor em função da sua «eficácia» real ou suposta. O sistema capitalista é incontestavelmente superiormente eficaz na produção de mercadorias, mas a eficácia não é um fim em si mesma. Ela qualifica apenas os meios postos em prática para atingir um fim, nada nos dizendo acerca do valor desse fim. As mercadorias geram dinheiro, o qual permite produzir mais mercadorias, que por sua vez permitem criar mais dinheiro. A mais-valia assim obtida permite a transformação do dinheiro em capital, e a sobreacumulação do capital permite ao dinheiro aumentar-se perpetuamente a si próprio. Mas o capital é antes de mais uma relação social, que dá forma a um imaginário específico e implica maneiras de viver, mas também de conceber o mundo.
A essência do capitalismo é a ilimitação, o «sempre mais», a negação dos limites e das fronteiras, a negação da medida, e antes de mais da medida humana. A sua característica fundamental é a orientação para uma acumulação sem fim, no duplo sentido do termo: processo que nunca pára e que não possui outra finalidade senão a valorização do capital. É esta ilimitação, tanto na intenção como na prática, que faz do capitalismo um sistema assente na desmesura (hybris), na negação de todo o limite.
A abolição das fronteiras é necessária ao livre-câmbio e ao princípio do «laissez faire, laissez passer». O capitalismo liberal exige efectivamente que tudo aquilo que possa constituir obstáculo à troca mercantil seja progressivamente erradicado. Exige a livre circulação dos homens, das mercadorias e dos capitais. É uma das razões pelas quais nada tem a opor à imigração; a outra razão é que não concebe o povoamento dos territórios senão em termos de indivíduos: um milhão de extra-europeus que se instalam na Europa não representam mais do que um milhão de indivíduos que vêm juntar-se a milhões de outros. A isto acrescenta-se o princípio da liberdade individual, a única reconhecida pelos teóricos liberais: todo o homem deve ver reconhecido o direito de se deslocar à sua vontade (entendendo-se, como diz Hayek, que a liberdade económica prevalece sobre a liberdade política). «A imigração», lia-se recentemente num sítio liberal, «continua a ser uma expressão da liberdade individual que importa salvaguardar» (Contrepoints, 23 de Abril de 2020)!
Em todo este sistema, o dinheiro ocupa evidentemente um lugar central. Em O Capital, Marx escreve justamente que «o dinheiro é a mercadoria cujo carácter é a alienação absoluta, porque é o produto da alienação universal de todas as outras mercadorias». Acrescenta que «o movimento do capital não tem nem fim nem medida, visto que a valorização do valor só existe pela circulação do dinheiro considerado como capital». Georg Simmel mostrou igualmente muito bem que a natureza intrínseca da economia fundada sobre o dinheiro consiste em afastar a questão dos fins em benefício da dos meios. Enquanto equivalente universal, o dinheiro é aquilo que permite avaliar tudo, quantificar tudo por meio de uma medida única, sendo o valor sistematicamente reduzido ao preço. Ao criar uma perspectiva a partir da qual as coisas mais diferentes podem ser avaliadas por um número, a moeda torna-as de certo modo iguais: reduz todas as qualidades que as distinguem a uma simples lógica do mais e do menos. Ora, toda a quantidade, seja ela qual for, pode sempre ser aumentada de uma unidade. A todo o número é sempre possível acrescentar um algarismo, de modo que o melhor se confunde automaticamente com o mais. E aquilo de que se pode ter sempre mais, nunca é evidentemente suficiente…
A sociedade liberal é portanto simultaneamente uma sociedade de indivíduos e uma sociedade de mercado, onde a razão económica subordina a si todas as relações sociais, fazendo delas o lugar da concorrência generalizada, da guerra de todos contra todos, onde cada um procura maximizar o seu interesse próprio em detrimento do de outrem. O reino do capitalismo traduz-se finalmente num encerramento do sentido praticamente sem precedentes na História. Este encerramento do sentido, cujos efeitos hoje observamos, contribui poderosamente para a ascensão do niilismo. Em conclusão, direi portanto que a restauração do comum e do bem comum constitui o programa que hoje se oferece a todos os antiliberais, se quisermos sair de um mundo onde nada possui já valor, mas onde tudo tem um preço.
Resta-me um minuto que, se o tempo não estivesse contado, seria para mim um minuto de silêncio. Estamos a 29 de Maio de 2021. Ontem, 28 de Maio, fez precisamente cento e cinquenta anos que se travaram em Paris os últimos combates da Comuna de 1871. Derrubadas as últimas barricadas, massacrados os últimos insurrectos, começava uma repressão atroz que faria milhares e milhares de mortos. A Comuna de Paris, comunard, comunalista, federalista, reuniu duas aspirações que nunca deveriam ser separadas: a causa do povo e o serviço da pátria. Foi simultaneamente um movimento patriótico contra o invasor estrangeiro e um movimento socialista e proletário contra a burguesia capitalista, razão pela qual quero saudar a sua memória e prestar-lhe homenagem. Honra a ela! Honra aos Comunards!
