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“Passei pelo inferno em vão”: O testemunho de um migrante senegalês que regressou a casa após seis anos na Europa

“Passei pelo inferno em vão”: O testemunho de um migrante senegalês que regressou a casa após seis anos na Europa

“Passei pelo inferno em vão”: O testemunho de um migrante senegalês que regressou a casa após seis anos na Europa

por YV in Breiz Info

Em Popenguine, uma aldeia católica na Petite Côte, no Senegal, as ondas rebentam suavemente na praia. Os pescadores recolhem as suas redes enquanto pirogas coloridas repousam na areia quente. Foi aí que conheci Moussa, um homem de 34 anos com olhos cansados, marcados por uma viagem que quase lhe custou a vida.

Durante seis anos, viveu na Europa. Hoje, regressou ao Senegal graças ao programa de regresso voluntário conduzido, nomeadamente, pela Organização Internacional para as Migrações, com o apoio da União Europeia. Sentado à sombra de uma árvore, inicialmente cauteloso (foi ameaçado por alguns dos seus compatriotas na Europa, que tentaram forçá-lo ao tráfico de pessoas), conta a sua história com calma.

“Saí porque queria ajudar a minha família. Nada mais.” Tinha amigos que tinham feito a travessia. Que estavam a trabalhar. Que publicavam vídeos das suas vidas no Snapchat. Nunca pensei em ir para a Europa quando era mais novo. Não pensava em ajuda humanitária nem em política. Só queria trabalhar.”

Como muitos jovens da região, Moussa sonhava com a Europa. As histórias de primos que tinham partido antes dele circulavam pelos bairros, pelas aldeias, pelos cafés.

 

A Viagem: fome, medo e morte no mar

Moussa fala da sua partida com um misto de vergonha e lucidez. “Quando se parte, pensa-se que se é corajoso. Na realidade, é-se apenas ingénuo.” A viagem começou com um itinerário que quer manter em segredo, seguido de meses de espera em vários países do Norte de África. Aí, descobriu um mundo brutal dominado por redes de contrabando. “Batem-te. Ameaçam-te. Pedem dinheiro repetidamente. Se não podes pagar, apanhas. Alguns são torturados.” Refere as casas clandestinas onde os migrantes são mantidos em cárcere privado durante semanas, por vezes meses. Locais onde a violência é comum.

Depois veio o mar. “A piroga estava cheia. Demasiado lotada. Estávamos amontoados. Alguns nem sabiam nadar.” A travessia foi um pesadelo. Dias inteiros quase sem comida nem água. O frio à noite. Medo constante. Mortes. Ele faz uma pausa.

Quando vês alguém morrer assim, percebes que esta viagem pode matar-te. Mas já é tarde demais.”

 

Europa: a desilusão

Após uma viagem interminável, Moussa chegou finalmente à Europa. Mas o que descobriu não tinha nada a ver com o que imaginara.

A Europa não é como nos vídeos.” Inicialmente, viveu em habitações precárias e muitas vezes sobrelotadas. Quartos a abarrotar de trabalhadores migrantes de África, Ásia e Médio Oriente.

Éramos dez num apartamento. Às vezes, mais.” Ao contrário das fantasias que circulavam no Senegal, o quotidiano era difícil.

Trabalha-se muito, mas está-se sempre vulnerável. Se se perde o emprego, não se tem nada.” Durante cinco anos (o seu percurso durou um ano), Moussa fez uma série de biscates. Trabalhou em cozinhas, restaurantes e, por vezes, em estaleiros de obras. “Trabalho sempre muito.” Nunca obteve o estatuto legal. “Nunca tomei as medidas necessárias.” E, além disso, era quase impossível.” Chegou a receber uma OQTF (Ordem de Expulsão do Território Francês) após uma verificação, que foi o rastilho para o seu regresso.

 

Tensões entre comunidades

Outro aspecto que o impressionou rapidamente foram as tensões entre as diferentes comunidades migrantes. “Muitas pessoas pensam que todos os migrantes se apoiam mutuamente. Isso não é verdade.” Nos bairros degradados de Paris onde vivia, as rivalidades eram frequentes. “Havia problemas entre africanos, árabes, afegãos… cada um vivia no seu próprio grupo.” Relata as discussões, as brigas ocasionais, o tráfico de pessoas, os roubos, a lei do mais forte, a desconfiança constante. “Não é uma vida tranquila.” A França, que imaginara como uma terra de oportunidades, parecia-lhe fria e distante.

O clima também é difícil para nós. O frio, a solidão.” Acrescenta uma frase que resume os seus sentimentos: “Vi-me na Europa… mas rodeado durante cinco anos quase exclusivamente por africanos.”

 

Uma análise crítica das organizações de ajuda

Moussa menciona ainda organizações de ajuda a migrantes. O seu julgamento é severo. “Elas prometem muito. Mas há migrantes a mais. Não podem ajudar toda a gente.” Não fala com raiva, mas com resignação. “As pessoas pensam que na Europa serão cuidadas. Isso não é verdade.” A realidade, diz, é composta por longas demoras burocráticas, habitações precárias e empregos mal remunerados. “Se quer viver, tem de trabalhar. Muito.” Mas a parte mais preocupante da sua história diz respeito às redes criminosas. Para financiar a sua viagem, Moussa pediu dinheiro emprestado. “Pessoas que emprestam… mas que esperam algo em troca.” A princípio, pensou que poderia pagar trabalhando. Depois a pressão começou. “Eles queriam que eu fizesse certas coisas para eles.” Não dá detalhes, mas a mensagem é clara. “Trabalho sujo.” Recusando-se a entrar neste sistema, torna-se um alvo. “Percebi que tinha que ir embora.”

 

A decisão de regressar

Depois de seis anos na Europa, Moussa tomou uma decisão difícil: regressar ao Senegal. Iniciou o processo de regresso voluntário, um programa disponível tanto para migrantes indocumentados como para aqueles com situação regularizada.

Este programa permite que os migrantes que pretendam regressar aos seus países recebam apoio financeiro e assistência para a reintegração. “Ajudaram-me com a passagem e a recomeçar aqui.” Regressar não foi fácil. “Quando regressa, algumas pessoas acham que falhou.”

Mas, para Moussa, a escolha foi clara. “Percebi que o meu lugar é aqui.”

Hoje, Moussa volta a trabalhar no Senegal. Trabalha como segurança numa das muitas residências turísticas da Petite Côte. Ele está a tentar reconstruir a sua vida.

A sua visão da Europa é radicalmente diferente da que tinha quando partiu. “A Europa não é o paraíso. Muitos jovens aqui não sabem o que os espera.” Segundo o próprio, as redes sociais e as histórias exageradas alimentam uma ilusão.

Mostram-lhes carros, casas… mas nunca as cozinhas onde trabalhamos doze horas por dia.”

 

Uma mensagem para os jovens senegaleses

Moussa quer agora partilhar a sua história. Não para dar lições, mas para alertar os outros. “Se pudesse falar com todos os jovens que querem ir embora, diria: pensem bem.” Não nega as dificuldades económicas do Senegal. Mas afirma que a imigração ilegal não é a solução.

Pode morrer antes mesmo de chegar. Muitos nunca mais voltam. Precisamos de construir aqui.” E acrescenta ironicamente, com um sorriso envergonhado: “Arruinei-me e endividei-me ao ir para a Europa, e ganhei dinheiro ao voltar para casa.” A história de Moussa ilustra uma realidade raramente discutida no discurso político ou mediático: a dos migrantes que, depois de enfrentarem perigos extremos para chegar à Europa, acabam por optar por regressar.

Todos os anos, milhares de pessoas utilizam programas de regresso voluntário. Para muitos, este regresso marca o fim de um sonho e o início de uma nova vida. Para Moussa, é sobretudo uma lição. “Esta viagem ensinou-me uma coisa: ninguém vai construir o nosso futuro por nós.” Na praia de Popenguine, como em muitas praias ao longo da costa, as canoas continuam a navegar em direção ao horizonte, enquanto outras seguem rotas diferentes, ainda mais complicadas, entre a terra e o deserto.

Mas, para ele, a história acabou. “Vi o que está do outro lado.” E o seu veredicto é inequívoco. “A verdadeira batalha é aqui“.