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A Esquerda carnavalesca: revolução de iPhone em punho

por João Martins

Quem denuncia a crise da habitação, mas se recusa a discutir a imigração […] deve calar-se e recolher ordeiramente à casa dos progenitores.

Há qualquer coisa de involuntariamente cómico em observar jovens urbanos, vestidos com marcas globalistas, telemóveis de última geração no bolso e uma vida quotidiana sustentada pelos circuitos do capitalismo internacional, a encenarem a revolução nas ruas de Lisboa e do Porto. Reclamam o fim da exploração, mas consomem os seus símbolos. Denunciam o sistema, mas confundem a indignação nas redes sociais com a sua superação. É a revolta de faz-de-conta convertida em estilo de vida: radical no vocabulário, conformista nos hábitos e pueril na análise.

O radicalismo de esquerda contemporâneo, à semelhança de certas correntes da esquerda extremista dos anos 60 e 70 do século passado, insiste em falar de revolução sem qualquer conexão com a realidade. Manifesta-se entre cartazes improvisados, palavras de ordem gastas, proferidas com sotaques importados, e uma multiplicidade de causas extravagantes e manicomiais, apresentadas como se a sua mera justaposição constituísse um programa político. A habitação, os salários, a imigração, a identidade sexual, o combate ao racismo e a contestação do capitalismo surgem reunidos num mesmo desfile ideológico, como se todas estas questões pudessem ser resolvidas pela simples proclamação de um desiderato colectivo.

Naturalmente, o problema não está em exigir habitação digna — uma necessidade material elementar —, mas em transformar uma questão estrutural numa barulhenta procissão de criaturas de abjecta e abominável fealdade, como se o mercado imobiliário pudesse ser vencido por homens em trajes femininos, cartazes artesanais pejados de impropérios que convertem Marx num fornecedor de insultos, bandeiras palestinianas, uma sucessão interminável de proclamações universalistas e muitas poses fotográficas para as redes sociais. A crise da habitação exige compreender a propriedade, o crédito, a especulação, os salários, a concentração económica e as decisões do Estado. Exige, sobretudo, perceber que uma cidade não existe isolada da economia nacional nem pode acolher indefinidamente toda a pressão demográfica gerada pela imigração sem consequências sobre a procura, as rendas e os serviços públicos.

É aqui que esta patética retórica internacionalista revela a sua pobreza analítica. A imigração não é uma abstracção moral: é também um fenómeno económico, enquadrado por empregadores, interesses empresariais e políticas públicas. Uma oferta acrescida de mão-de-obra estrangeira enfraquece invariavelmente o poder negocial dos trabalhadores nacionais, sobretudo nos sectores mais expostos à precariedade e à concorrência salarial. Uma acrescida procura habitacional imigrante, quando não acompanhada por uma oferta suficiente, agrava a pressão sobre as rendas. Ignorar estas possibilidades em nome de uma virtude cosmopolita não é solidariedade de classe, mas antes abdicar de analisar as condições materiais em que essa solidariedade deveria assentar.

Lenine, em O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo, criticava tendências ultra-esquerdistas que confundiam radicalismo verbal com estratégia revolucionária e desconsideravam as condições concretas da luta política. A sua crítica mantém a actualidade e aplica-se na perfeição a uma esquerda que parece acreditar que a candura das intenções substitui a análise concreta. Não basta declarar guerra ao capitalismo. É necessário explicar como se pretende alterar o mercado habitacional, aumentar a oferta de casas, impedir abusos, proteger os salários e assegurar que os custos das políticas públicas não recaem desproporcionadamente sobre os trabalhadores. Do mesmo modo, invocar o proletariado não significa representá-lo; e ostentar uma pretensa identidade rebelde não equivale a possuir consciência de classe. A esquerda contemporânea confunde, demasiadas vezes, marginalidade com virtude, indignação com consciência e encenação revolucionária com organização política.

Uma perspectiva nacionalista pode, por isso, colocar uma pergunta que o cosmopolitismo de salão tende a evitar: a quem deve responder, em primeiro lugar, a política de habitação de um Estado nacional? Aos interesses concretos da população nativa que nele vive e trabalha, ou a uma abstracção moral que dispensa qualquer discussão sobre limites, prioridades e capacidade material? Defender a população trabalhadora nacional não implica hostilidade contra os imigrantes. Exige, isso sim, recusar que os interesses dos trabalhadores portugueses sejam sacrificados à conveniência de empregadores, especuladores ou caprichos ideológicos.

A revolução de cartaz oferece vantagens: não envolve riscos, tem baixo custo, colhe mediatismo na comunicação social dominada pela esquerda e dispensa estratégia. Mas a fauna lanzuda nunca leu Marx, o qual não escreveu para fornecer adereços intelectuais a manifestações, nem Lenine, que declarou ser impossível transformar a inanidade do pimba-radicalismo numa doutrina. Uma política séria começa quando termina o espectáculo e alguém se dispõe a explicar, sem slogans nem indulgências, quem ganha, quem perde, quais são as causas materiais do problema e que forças sociais poderiam realmente transformá-lo.

Alain de Benoist, lúcido filósofo francês, afirmou há uns anos que “Quem critica o capitalismo enquanto aprova a imigração — da qual a classe trabalhadora é a primeira vítima — faria melhor em calar-se. Quem critica a imigração enquanto permanece em silêncio sobre o capitalismo deveria fazer o mesmo”.

É lícito, pois, concluir que quem denuncia a crise da habitação, mas se recusa a discutir a imigração e os seus terríveis efeitos sobre a procura habitacional, deixa por analisar a parte crucial do problema e deve calar-se e recolher ordeiramente à casa dos progenitores.