Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

1936: quem matou realmente Federico García Lorca?

por Arnaud Imatz in Éléments

Noventa anos após o seu assassinato, Federico García Lorca continua a morrer uma segunda vez sob o peso da lenda. Recentemente, o jornal L’Humanité ainda o descrevia como um “militante de esquerda” assassinado pela Espanha franquista devido às suas simpatias pela Frente Popular. A realidade é bem mais complexa: avesso a qualquer tipo de doutrinação ou alinhamento partidário, e amigo tanto de comunistas como de falangistas, Lorca procurou refúgio junto destes últimos quando a sua vida foi ameaçada. Tentaram salvá-lo até ao fim. Afinal, quem matou o poeta andaluz e porquê? Grande conhecedor de Espanha e historiador da Falange, Arnaud Imatz — autor de Histoire des idées politiques nationales. Au-delà de la gauche et de la droite (L’Artilleur) — reabre o caso e separa os factos históricos da mitologia política. Agradecemos-lhe a autorização para reproduzir este notável artigo, originalmente publicado na revista Front Populaire, que coloca a história no seu devido lugar.

 

Federico García Lorca é, sem dúvida, o poeta e dramaturgo mais conhecido da literatura espanhola do século XX. Durante a Guerra Civil de Espanha, foi — ao lado do dramaturgo Pedro Muñoz Seca, este último executado por milicianos de esquerda — uma das mais célebres vítimas do fanatismo dos milicianos de direita. Preso ilegalmente a 16 de Agosto de 1936, em plena guerra civil, foi assassinado aos 38 anos na estrada que liga Víznar a Alfacar, perto de Granada. A 16 de Outubro de 2008, a decisão do juiz madrileno Baltasar Garzón de abrir dezanove valas comuns — incluindo aquela onde, segundo vários relatos, estariam os restos mortais do poeta — reacendeu debates e polémicas sobre as circunstâncias perturbadoras da sua morte. Tal ocorreu, sobretudo, porque tal decisão controversa foi acompanhada de pressões constantes para tentar demover a família García Lorca da sua posição firme: a recusa em exumar os restos mortais do poeta e o desejo de respeitar o descanso eterno dos mortos. Rejeitando o pedido dos herdeiros, o juiz da Audiência Nacional, Baltasar Garzón (afastado da magistratura por corrupção em 2012), determinou que a exumação fosse realizada com urgência, mas a título privado e permitindo a presença da família. Desde então, todas as tentativas de exumar o corpo do poeta, baseadas em vários testemunhos recolhidos a partir de 1955, revelaram-se infrutíferas.

Quem são os verdadeiros responsáveis ​​pelo assassinato de Federico García Lorca? Graças aos trabalhos de um grupo de jornalistas e historiadores — entre os quais Marcelle Auclair, Ricardo de la Cierva, Ian Gibson, José Luis Vila San Juan, Luis Hernández del Pozo, Eduardo Molina Fajardo, Manuel Titos Martínez, Manuel Ayllon, Miguel Caballero e Pilar Gongora, para citar apenas alguns —, a resposta é hoje bem conhecida. Quais são, então, os factos bem estabelecidos sobre o crime de Víznar? Como são interpretados? Federico García Lorca morreu devido às suas simpatias pela Frente Popular e à sua luta contra o “fascismo”? Será ele o símbolo ou a vítima mais famosa da intransigência da Espanha tradicional, do “implacável mecanismo de extermínio posto em prática pela Espanha franquista”? Ou terá sido, antes, um joguete numa rivalidade secular entre duas famílias abastadas da Andaluzia? Teria sido, pelo contrário, um infeliz bode expiatório escolhido devido à sua homossexualidade declarada?

Segundo o mito mais difundido — popularizado até à exaustão pelo cinema, pela imprensa, pela televisão e pela rádio —, Federico García Lorca é “um intelectual da Frente Popular assassinado pela Falange”. Uma lenda que, no entanto, pouca relação tem com a realidade. O sobrinho do poeta e secretário da fundação que tem o seu nome, Manuel Fernández-Montesinos García-Lorca, protestou energicamente “contra aqueles que procuram minimizar o valor literário de Federico […] contra a insistência política em querer abrir a vala onde repousa o seu corpo […] contra a utilização do seu túmulo para fins de propaganda”.

A recusa do alinhamento ideológico

A verdade histórica, naturalmente, desmente as interpretações partidárias. Não só os falangistas não foram os autores do crime, como, paradoxalmente, foram os únicos no campo nacionalista a fazer tudo o que era possível para que o poeta recuperasse a liberdade. Este crime bárbaro foi, na realidade, o resultado de uma manobra maquiavélica orquestrada por membros da Confederação Espanhola de Direitas Autónomas (CEDA) — o principal partido liberal-conservador da Segunda República Espanhola —, que procuravam conquistar a simpatia dos militares e desacreditar a Falange de inspiração jose-antoniana, demonstrando que alguns dos seus dirigentes protegiam e escondiam “vermelhos” nas suas próprias casas.

Pode, no entanto, considerar-se García Lorca um militante de esquerda? Nada é menos certo. Todos os que realmente o conheceram testemunharam isso: a política não era a sua principal preocupação. Lorca era, acima de tudo, um escritor que reunia características de elitismo, preciosismo, barroco, vanguarda e popularidade. Nele convergiam a tradição e a modernidade, a cultura liberal secularizada e a religiosidade tradicional, o particularismo e o universalismo. Nascido numa família abastada, a sua sensibilidade levava-o a defender os mais pobres, os camponeses e os ciganos em nome da justiça social, mas não tinha nada de revolucionário. Costumava dizer: “Tenho mais pena de um homem que quer ter acesso ao conhecimento e não tem essa possibilidade do que de qualquer faminto”.

Lorca recusava-se, por princípio, a participar em actos políticos, mesmo que estes tivessem uma conotação cultural. Em diversas ocasiões, demonstrou irritação quando o seu nome foi utilizado para fins políticos. Questionado sobre as suas preferências políticas, respondeu, em tempos, que se sentia “católico, comunista, anarquista, tradicionalista e monárquico”. O seu afastamento da política permitia-lhe manter relações de amizade com escritores de convicções muito diferentes: comunistas como Rafael Alberti, socialistas como Fernando de los Ríos ou falangistas como Agustín de Foxá, Edgar Neville ou Felipe Ximénez de Sandoval.

Gabriel Celaya, poeta basco e militante comunista, testemunhou isso mesmo. Chegou mesmo a contar a seguinte anedota (contestada): no final de Fevereiro de 1935, García Lorca e Celaya marcaram um encontro no cabaré Casablanca, em Madrid. À chegada, Celaya teve a surpresa de ver Federico na companhia de José Antonio Primo de Rivera, o fundador da Falange. “Ei! Anda cá!”, exclamou Federico. “Vou apresentar-lhe o José Antonio. Vai ver, é um sujeito muito simpático.” Os três homens passaram a noite juntos, a beber uma boa garrafa de whisky (ver Gabriel Celaya, “Un recuerdo de Federico García Lorca”, Realidad: revista de cultura y política, Roma, 9, Abril de 1968). Gabriel Celaya relata uma segunda anedota, igualmente surpreendente. No ano seguinte, a 8 de março de 1936, reencontrou Federico García Lorca no Hotel Biarritz, em San Sebastián. Qual não foi a sua surpresa ao encontrar Lorca, desta vez, na companhia do arquiteto José María Aizpurua, fundador da Falange na província basca de Guipúscoa. Este encontro ocorreu logo após as eleições de Fevereiro, que tinham levado a Frente Popular ao poder, e os ânimos estavam particularmente exaltados. Celaya recusou-se a apertar a mão a Aizpurua. Mas, assim que o falangista saiu da sala, García Lorca repreendeu-o asperamente por ter arrefecido o ambiente. Com um ar traquina e brincalhão, confidenciou-lhe: “Aizpurua é um bom sujeito, que admira os meus poemas. Aliás, é como o José Antonio. Eis outro bom sujeito.” “Sabes que todas as sextas-feiras jantamos juntos?”

O principal contacto de Lorca com o movimento falangista era Luis Rosales, um jovem poeta de Granada, estudante de filosofia e de direito e colaborador da revista madrilena El Gallo. Rosales viria a desempenhar um papel fundamental nos últimos dias de Lorca.

A perseguição

A 12 de Julho de 1936, durante um jantar em casa do poeta chileno Pablo Neruda, Federico García Lorca manifestou a sua intenção de abandonar Madrid para se “proteger dos raios”. No dia seguinte, confidenciou a outro amigo falangista, Edgar Neville: “Vou embora porque aqui querem envolver-me na política, sendo que não percebo nada disto e não quero saber de nada. Sou amigo de todos e desejo apenas que todos possam trabalhar e comer”.

A 15 de Julho, chega sem incidentes a Granada, onde passa a viver tranquilamente na propriedade da família, a Huerta de San Vicente, na companhia dos seus pais, da sua irmã Concha, dos seus dois sobrinhos e da ama Angelina. Mas as agruras da Guerra Civil depressa o alcançariam. A 18 de Julho de 1936, enquanto chegavam a Madrid as primeiras informações sobre a revolta militar, a extrema-esquerda publicava na imprensa uma caricatura cruel. Via-se Federico vestido para a primeira comunhão, e a duvidosa legenda sob o desenho não deixava margem para dúvidas: “García Lorca: menino giro, orgulho da mamã”. Mais grave ainda: o poeta comunista Rafael Alberti recitava na rádio versos ofensivos contra os militares revoltosos, atribuindo-os indevidamente a Lorca. O prestigiado escritor liberal Ramón Pérez de Ayala acusaria, mais tarde, Alberti de ter tentado provocar deliberadamente a morte do seu amigo. Por sua vez, a irmã do poeta telefonaria a Alberti, implorando-lhe que não colocasse mais em risco a vida do irmão.

A revolta eclodiu em Granada, a 20 de Julho. Os militares insurgentes, comandados por jovens oficiais e apoiados por vários grupos de civis — militantes dos partidos de direita e da Falange —, assumiram o controlo em três dias. Na cidade, isolada e cercada pelas forças da Frente Popular, a tensão é extrema. As notícias que chegam sobre os massacres perpetrados por milicianos de esquerda em Málaga cedo desencadeiam uma repressão terrível. Por toda a Península, os massacres respondem a chacinas, e a repressão responde à repressão.

Em Granada, o comandante José Valdés Guzmán assume o cargo de governador civil. Nomeia os seus homens para postos-chave e cria uma secção encarregada da repressão. Valdés é um militar que se diz falangista, mas que, na verdade, provém da Confederação Espanhola de Direitas Autónomas (CEDA), um partido liberal-conservador. Nas vésperas das eleições de Fevereiro de 1936, era um dos responsáveis ​​pela formação dos candidatos daquele partido, que era a “besta-negra” da Falange. À sua volta, reúnem-se o chefe da polícia Julio Romero Funes, o ex-deputado da CEDA Ramón Ruiz Alonso, um grupo heterogéneo de militantes de direita e, finalmente, um outro grupo composto por neofalangistas ou “camisas novas” (por oposição aos militantes josé-antonianos de antes do início da guerra civil, chamados “camisas velhas”).

Por toda a Espanha, a Falange — cujos líderes foram assassinados ou presos em mais de 60% dos casos — vê-se literalmente inundada por novos recrutas. O movimento falangista de José Antonio não contava com mais de 30 a 40 mil membros nas vésperas do conflito. Os seus quadros saltam subitamente para 200 mil e, depois, para 500 mil filiados. Estes “camisas novas”, comandados por lideranças improvisadas e nomeadas na ausência de qualquer direcção central, nada sabem sobre o nacional-sindicalismo e, oriundos de partidos de direita, carecem geralmente de qualquer preocupação social. Só na cidade de Granada, as poucas dezenas de “camisas velhas” — ou falangistas seguidores de José Antonio — vêem-se ultrapassadas por mais de mil “camisas novas” oriundas de partidos de direita. À frente deles, o comandante Valdés impõe o capitão da Guarda de Assalto (uma espécie de Guarda Republicana), Manuel Rojas Feijespan. Muito cedo, o comandante Valdés entra em conflito com o líder dos “camisas velhas”, Patricio González de Canales — uma espécie de santo laico nomeado directamente por José Antonio. Este recusa-se obstinadamente a permitir que os seus homens participem em detenções e execuções sumárias. Desejando ver-se livre dele o mais rapidamente possível, e em concordância com o general Queipo de Llano, Valdés solicita um avião que, depois de voar de Sevilha para Granada, leva à força o falangista recalcitrante.

Já a 20 de Julho, Federico García Lorca recebe a notícia da detenção do seu cunhado, Manuel Fernández Montesinos, presidente da Câmara socialista de Granada. Na Huerta de San Vicente, o ambiente é pesado e tenso. Antigas disputas ou relações conflituosas — que dividiam, por razões económicas, três famílias ricas de proprietários de terras da região (que tinham feito fortuna no comércio da beterraba sacarina): de um lado, a família do pai de Federico, Federico García Rodríguez, um liberal republicano; do outro, as famílias Roldán e Alba, uma ligada à CEDA (Confederação Espanhola de Direitas Autónomas) e a outra monárquica liberal (alfonsista) — acabariam por convergir e conduzir à morte do poeta. A isto acresce o facto de os Alba nutrirem um ódio particularmente feroz por Federico desde que tomaram conhecimento da sua obra A Casa de Bernarda Alba, que criticava severamente a sua família.

A 5 de Agosto, após uma denúncia do clã Roldán, o capitão Rojas, à frente de um grupo de neofalangistas, realiza uma busca na casa da família Lorca. Rojas alega procurar apenas o irmão do administrador da propriedade. Chovem golpes e insultos. Federico é espancado, chamado de “paneleiro” e atirado escada abaixo. Finalmente, os milicianos, cansados, abandonam o local.

À noite, temendo pela sua vida, Federico García Lorca telefona ao seu amigo Luis Rosales e pede-lhe protecção. Professor de literatura na universidade, Luis Rosales está prestes a partir para a frente como voluntário falangista. Corre imediatamente para a propriedade de San Vicente. Após uma breve conversa, decide abrigar Lorca na sua casa, no centro da cidade, a trezentos metros da sede do governo civil, onde reside o comandante Valdés. Logo à chegada à residência dos Rosale, os irmãos mais velhos de Luis — Miguel e Pepe, dois falangistas da primeira hora — e os seus pais recebem o poeta de braços abertos.

Apoio falangista

Valdés e Ruíz Alonso demoram onze dias a descobrir o esconderijo. A 16 de Agosto, a irmã de Federico, Concha — cujo marido fora preso a 20 de Julho —, acaba por falar, aterrorizada pela ameaça de ver o pai levado como refém. Para Valdés e Ruiz Alonso, a oportunidade é perfeita. Finalmente poderão livrar-se dos Rosales e do grupo das “camisas velhas” que lhes são abertamente hostis.

No mesmo dia, Ruiz Alonso, munido de um mandado de detenção e acompanhado por dois pelotões de milicianos da CEDA, apresenta-se em casa dos Rosales. Na ausência dos três irmãos e do pai, é recebido pela Sra. Rosales. Ruiz Alonso procura tranquilizá-la. A sua atitude é tão melosa que o infeliz Lorca se convence de que nada lhe acontecerá. Cautelosa, a Sra. Rosales retém Ruiz Alonso enquanto manda buscar o filho com urgência à sede da Falange. Miguel chega apressada e tenta intervir, mas em vão. Levado à força, Federico García Lorca é revistado e detido.

Logo à noite, Luis e Pepe, de regresso da frente de combate, decidem agir com o apoio de meia dúzia de falangistas. Indignados, todos se dirigem para a sede do governador civil com a intenção de libertar o amigo. À entrada, Pepe empurra os guardas que bloqueiam a passagem; invade o gabinete do governador civil e repreende duramente Ruiz Alonso e o comandante Valdés. A discussão é extremamente violenta. Pepe saca do revólver, mas, em desvantagem numérica de um contra cinco, a determinação do pequeno grupo de falangistas não é suficiente. Finalmente, Pepe Rosales obtém autorização para ver o prisioneiro.

No dia 17, Pepe volta a apresentar-se a Valdés. Desta vez, traz uma ordem de libertação de García Lorca, assinada pelo governador militar, o coronel Antonio Gómez Espinosa. Mas nada adianta. Valdés não se deixa abalar e responde que lamenta, mas que o prisioneiro já não está ali. É uma mentira em que Pepe Rosales acredita, desconhecendo que Lorca ainda permanece no local por mais algumas horas.

Na manhã de 18 de Agosto, Federico García Lorca é transferido em segredo para a antiga residência infantil de La Colonia, recentemente convertida num centro de detenção. Levado para a estrada de Alfaraz, é sumariamente executado juntamente com dois companheiros de infortúnio — o professor Dióscoro Galindo e o bandarilheiro Francisco Galadi — às 4h45 da manhã, ao pé das oliveiras da ravina de Víznar.

Durante anos, o principal responsável pela sua morte, o comandante Valdés, negou qualquer envolvimento no caso. No entanto, desde 1983, graças às pesquisas do jornalista granadino Eduardo Molina Fajardo, o depoimento original dos irmãos Rosales foi recuperado e a responsabilidade directa do comandante Valdés, comprovada.

A execução de Federico García Lorca foi, de facto, ordenada pelo comandante Valdés com o aval do general Queipo de Llano. No dia seguinte a este crime bárbaro, Luis Rosales seria também preso; escapou ao fuzilamento graças à avultada quantia paga pela sua família e, sobretudo, à chegada inesperada a Granada de um dos mais prestigiados dirigentes falangistas da primeira hora: o médico Narciso Perales.

Fiel entre os fiéis de José Antonio — e ele próprio um teórico do nacional-sindicalismo —, Perales entra em conflito com o comandante Valdés logo à chegada. Mais tarde, viria a relatar que, durante a discussão, Valdés lhe dissera cinicamente: “Olhe, para mim, em toda esta história do nacional-sindicalismo, a parte ‘nacional’ parece-me boa, mas a parte ‘sindicalismo’ dá-me dores de barriga”.» Curiosamente, o comandante Valdés — sempre retratado com a camisa azul falangista nos filmes e séries televisivas — nunca a veste nas fotos da época, como as que foram publicadas no jornal Ideal entre Julho de 1936 e Julho de 1937.

Após a criação da nova Falange Tradicionalista de Franco (FET), em Abril de 1937 — movimento nascido da fusão imposta entre a Falange original e vários partidos de direita — e a consequente condenação à morte do segundo chefe nacional da Falange, Manuel Hedilla, por recusar este “decreto de unificação” (rejeição que levou ao fuzilamento do falangista Pedro Durruti, irmão do líder anarquista Buenaventura Durruti), o médico Narciso Perales passou a integrar a dissidência e a actuar na clandestinidade. Quanto a Luis Rosales, depois de colaborar com inúmeras revistas literárias falangistas durante as décadas de 1940 e 1950, também se afastou do regime.

Em Março de 1937, pouco antes do desaparecimento da Falange de José Antonio, duas revistas falangistas condenaram expressamente o assassinato de Lorca, através do falangista Francisco de Villena, de Saragoça. Em homenagem a Lorca, publicou uma bela elegia no diário Amanecer e, mais tarde, no semanário Antorcha. Mais uma vez, a 11 de Março de 1937, Luis Hurtado Álvarez publicou um artigo no jornal falangista de San Sebastián, Unidad, cujas primeiras palavras eram inequívocas: “Assassinou-se o melhor poeta da Espanha imperial”. Ainda em 1937, o poeta sevilhano Joaquín Romero Murube, também próximo dos meios falangistas, dedicou a Lorca a sua coletânea de poemas Siete romances. Mais tarde, em 1939 — para citar apenas mais um exemplo —, o poeta falangista José María Castroviejo dedicou também um poema a Federico García Lorca, incluído na sua obra Altura.

A verdade vem ao de cima

Após a Guerra Civil, enquanto na Espanha franquista já ninguém se atrevia a mencionar oficialmente as verdadeiras circunstâncias do assassinato do poeta, os falangistas amigos de José Antonio não hesitavam em afirmar publicamente que “Lorca era o poeta preferido de José Antonio”. Nas décadas de 1940, 1950 e 1960, as revistas dirigidas à juventude — ligadas à Frente da Juventude e à Secção Feminina, esta última dirigida por Pilar Primo de Rivera — publicavam regularmente os poemas de Lorca. Em 1952, os teatros itinerantes da Secção Feminina encenaram A Sapateira Prodigiosa.

Muitos anos mais tarde, em 2012 — já muito depois do regresso da democracia —, Juan Ramírez de Lucas, um conhecido colecionador e crítico de arte, quebrou finalmente um longo silêncio ao falar da sua relação homossexual com Federico. O caso ocorrera em 1936, quando tinha 19 anos; foi ele quem, ao que tudo indica, recebeu a última carta escrita pelo poeta andaluz, datada de 18 de Julho de 1936. Desde essa revelação, a identidade do enigmático inspirador dos célebres Sonetos do Amor Obscuro tornou-se finalmente conhecida. Autor de vários livros e defensor do Valle de los Caídos — obra do arquiteto Diego Méndez —, Juan Ramírez de Lucas foi o grande amor de Federico. Aos vinte e cinco anos, alistou-se na 3ª Bateria do Regimento de Artilharia da Divisão Azul para combater o comunismo na Frente Leste. Mais tarde, de regresso a Espanha, ingressou na redação do jornal ABC por recomendação de Luis Rosales, antes de se tornar especialista em arte popular e crítico de arquitetura.

A história, como se sabe, é sempre mais subtil e complexa do que os ideólogos querem fazer crer. Graças aos esforços de alguns historiadores sérios, a falsa narrativa de um Federico García Lorca — “intelectual de esquerda assassinado pela Falange”, tão apreciada pelos propagandistas do Komintern, quando na realidade ele foi vítima da direita liberal-conservadora — já não é mais aceite como verdadeira e incontestável.