in VoxEuropa Herald*
François-Xavier Gicquel, Diretor de Operações da SOS Chrétiens d’Orient, alerta para o desaparecimento gradual de cristãos da Terra Santa e do Médio Oriente, encurralados entre a perseguição do Hamas, a pressão israelita e a violência sectária. Apela aos europeus para que reavivem uma diplomacia enraizada na sua herança cristã e ofereçam apoio concreto a estas comunidades ameaçadas.
Matisse Royer: Poderia apresentar-se aos nossos leitores?
François-Xavier Gicquel (SOS Chrétiens d’Orient): A SOS Chrétiens d’Orient é uma ONG fundada em 2013 que opera em oito países — Iraque, Síria, Líbano, Jordânia, Paquistão, Etiópia e Arménia — com a missão de ajudar as comunidades cristãs a permanecerem na sua terra, a terra dos seus antepassados.
Pode descrever a presença actual da SOS Chrétiens d’Orient na Terra Santa, particularmente nas zonas afectadas pelo conflito israelo-palestiniano?
A SOS Chrétiens d’Orient trabalha na Jordânia desde 2015, desde a fronteira com a Síria até ao Mar Vermelho, junto de todas as comunidades cristãs do país. Desde o início da guerra, realizámos duas missões de ajuda humanitária em Gaza, mas o nosso objectivo este ano é fortalecer e expandir a nossa presença lá.
Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelas populações cristãs desta região hoje?
Depende de que parte da região estamos a falar. Se falarmos da Terra Santa em particular, os cristãos enfrentam dois grandes problemas. O primeiro, em Gaza, por exemplo, é obviamente a perseguição do Hamas. O número de cristãos ali foi reduzido quase a um décimo desde que o Hamas chegou ao poder, devido à perseguição diária. Mas também há perseguição por parte das autoridades israelitas. Como residentes palestinianos, os cristãos da Terra Santa são considerados árabes e, por isso, sofrem o mesmo assédio, humilhação e dificuldades económicas e sociais diárias que os outros palestinianos.
Se olharmos para o Médio Oriente em geral, a situação varia de país para país — poderíamos falar sobre isto durante horas. No Líbano, conhecemos a triste e devastadora crise económica, que se seguiu primeiro a uma crise política, depois ao colapso económico, à explosão no porto de Beirute e, finalmente, à recente crise militar que atingiu o país. No Iraque, estamos a lidar com a violência sectária. Desde a queda de Saddam Hussein, a guerra civil nunca terminou verdadeiramente. Sunitas e xiitas lutaram durante dez anos, o que levou ao surgimento de grupos mafiosos que visavam os mais vulneráveis — principalmente os cristãos, que vivem isolados — através de raptos, pedidos de resgate, confisco de terras, humilhações diárias e assim por diante. De seguida, veio a ascensão do Estado Islâmico, que seguiu a mesma lógica. Ainda hoje, as tensões continuam latentes, e estes grupos mafiosos persistem, tornando a vida miserável, sobretudo para as minorias.
Na Síria, conhecemos bem a situação. Após os anos de mão de ferro de Bashar al-Assad, antigos afiliados da Al-Qaeda chegaram ao poder em Dezembro passado. Desde então, já ocorreram atrocidades — primeiro contra os alauitas, depois contra os drusos — bem como ataques terroristas contra igrejas. É impossível dizer se o próprio governo é responsável. Não consigo ler corações e mentes. O que é certo, porém, é que estes actos são cometidos por grupos próximos do governo, grupos que antes o apoiavam. A questão crucial é saber se o governo tem capacidade e vontade para pôr fim a estes actos de violência. O futuro dos cristãos na Síria depende disso.
Na Jordânia, a situação é relativamente boa para os cristãos, mas ainda existem tensões devido ao contexto geopolítico e à presença de minorias radicais que, por vezes, submetem os cristãos à discriminação e à humilhação. Este é o panorama geral nos países vizinhos.
Como é que este conflito afecta concretamente as comunidades cristãs de Gaza, da Cisjordânia ou de Jerusalém? Como vivenciam as suas relações com as comunidades judaicas e muçulmanas?
Devo dizer, antes de mais, que nunca estive pessoalmente em Gaza, pelo que não tenho qualquer experiência directa com a situação que lá se vive. Mas para os cristãos de Gaza ou da Cisjordânia, são palestinianos como os outros. Sofrem os mesmos bombardeamentos, os mesmos ataques. Infelizmente, vemos frequentemente igrejas atingidas por ataques aéreos israelitas ou cristãos baleados por soldados israelitas. Suportam o que todos os habitantes de Gaza e da Cisjordânia suportam.
Estive recentemente no Sul do Líbano e testemunhei muitas aldeias completamente destruídas — incluindo aldeias inteiramente cristãs, sem qualquer presença xiita, o que significa que não poderiam sequer ser suspeitas de abrigar combatentes do Hezbollah. Mesmo assim, foram arrasadas. Podemos constatar que a política de Israel é indiscriminada em relação às populações que vivem nestes territórios.
Quanto aos habitantes de Jerusalém, esta guerra — embora as tensões já existissem há muito tempo — agravou-os, tornando a vida muito difícil para os residentes árabes. A discriminação existe e, por isso, os cristãos sofrem da mesma forma. Há também, claro, ataques de grupos judeus extremistas — todos os anos vemos cuspidelas, insultos contra procissões e edifícios cristãos, ou a devolução de impostos anteriormente retirados de propriedades religiosas cristãs. Esta é a situação geral dos cristãos na Terra Santa.
Existe um risco real do desaparecimento completo dos cristãos da Terra Santa?
Desaparecimento, não tenho a certeza — os cristãos sempre lá viveram. Não estamos a falar apenas de uma religião, mas de um povo que habita estas terras há milénios. Eles desaparecerão? Não sei. Muitos demonstram uma fé e uma resiliência extraordinárias. O seu número diminuirá? Sim, certamente. Diminuirá drasticamente? Infelizmente, sim, existe um risco real. Vemos este padrão em toda a região. O facto de isto também estar a acontecer na Terra Santa mostra que não se trata apenas de uma religião, como o Islão, mas de parte de uma dinâmica mais vasta — a redução dos cristãos à condição de minoria. E isto é profundamente triste, porque os cristãos não devem ser uma minoria nos seus próprios países; fazem parte do mosaico nacional.
Na Síria, os cristãos são parte integrante da nação — sírios de fé cristã. O mesmo acontece no Iraque, onde a maioria dos cristãos é de origem assíria — as próprias raízes do povo do país. Embora numericamente mais pequenos, continuam a ser cidadãos plenos. No entanto, hoje, estas populações estão a ser divididas e reduzidas à condição de minoria, o que limita os seus direitos, visibilidade e representação. É isto que torna tão difícil aos cristãos defenderem os seus direitos, imaginarem um futuro na sua terra ou até serem reconhecidos como cidadãos de pleno direito de países que sempre foram seus.
Tem contacto direto com as igrejas locais? Que mensagem estão a transmitir hoje?
Sim, claro. Iniciámos o nosso trabalho na Terra Santa desenvolvendo uma rede já bem estabelecida através do nosso trabalho na Jordânia — particularmente com o Patriarcado Latino de Jerusalém e a Igreja Ortodoxa Grega. Quanto ao resto da região — Iraque, Síria, Líbano, Jordânia — sim, estamos em contacto com todas as Igrejas Católica, Ortodoxa e Ortodoxa Oriental. Falamos com patriarcas e bispos e trabalhamos diariamente com sacerdotes. É isso que nos torna únicos: os nossos escritórios estão localizados no terreno e vivemos entre eles. Assim, ao contrário das organizações que oferecem aconselhamento de escritório em Paris, partilhamos as suas lutas diárias e sentimos realmente a sua dor. É importante lembrar-lhes que têm um papel vital — como testemunhas, como portadores da cultura e como âncoras espirituais. Os seus irmãos e irmãs, e na verdade o mundo, dependem deles, porque Cristo nos pediu para testemunhar a Sua mensagem. Devemos permanecer firmes na adversidade e nunca perder a esperança. Por isso, optamos não apenas por oferecer palavras de encorajamento, mas por viver entre eles — para mostrar que não os abandonaremos, que estaremos ao seu lado em todos os momentos e faremos o nosso melhor para os ajudar a continuar a levar a mensagem de Cristo.
“ONG cristãs = lógica de cruzada”: como se responde a isto?
O que fazemos é exatamente o oposto do que somos acusados de fazer. A nossa principal prioridade é reforçar a coesão nacional. Não vemos os cristãos como uma minoria numa maioria, ou como uma bolha isolada dentro de uma esfera cultural árabe. Para nós, os cristãos são os habitantes originais dessas terras — mesmo que hoje sejam maioritariamente muçulmanos ou judeus, no caso de Israel — e têm aí o seu lugar pleno e legítimo. Não como uma minoria que luta para sobreviver ou como uma fação rival — são um dos componentes integrantes destas nações. Qualquer que seja a posição que os ocidentais possam assumir, esta é uma realidade duradoura. Não estamos lá para mudar o panorama político ou o equilíbrio demográfico destes países. Estamos lá para permitir que os cristãos vivam pacificamente ao lado dos seus irmãos e irmãs iraquianos, sírios, jordanos, libaneses, israelitas e palestinianos — não numa lógica de confronto, mas de construção conjunta.
Qual a sua leitura sobre o papel das potências ocidentais — e sobretudo da Europa — na (má) gestão do conflito?
O que me choca em França é a incapacidade de tomar uma posição clara sobre este conflito, o que revela muito. A França sempre teve uma política clara em relação ao mundo árabe, baseada em posições equilibradas e ponderadas. Desde 7 de Outubro que temos assistido a constantes mudanças de posição. Isto reflecte tanto um problema de percepção como uma falta de compreensão da região — bem como uma falta de coragem política — o que leva as autoridades francesas a ceder à pressão popular e das ruas em vez de agirem de acordo com os nossos interesses geopolíticos a longo prazo e o bem comum.
A posição americana também é surpreendente. Conhecíamos Donald Trump como um fervoroso defensor de Israel, mas até ele parece surpreendido com o radicalismo do Estado israelita e do Sr. Netanyahu. Isto demonstra tanto a fraqueza do Ocidente como a radicalização de Israel, que apanhou um Ocidente desprevenido com uma escalada tão brutal.
O AfD na Alemanha está a adoptar uma postura mais neutra. Deverá a direita francesa seguir o mesmo caminho?
Absolutamente. É essencial manter uma certa distância e equilíbrio na geopolítica. Muitos partidos nacionalistas ou soberanistas na Europa — particularmente em França — alinham frequentemente por razões de reformulação política (que não são sustentáveis a longo prazo) ou por ignorância do assunto, reagindo emocionalmente a curto prazo. Não se pode responder a um conflito internacional sem ter em conta a história, os interesses nacionais e o bem comum. A prudência é essencial — não nos devemos alinhar cegamente com um dos lados.
O que nos deve guiar são duas coisas: a busca do bem comum e a defesa absoluta da dignidade humana e do valor da vida humana — como nos recorda o Cardeal Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém. As violações da vida humana ocorrem tanto do lado do Hamas como do lado das autoridades israelitas. Devemos adotar uma abordagem equilibrada e justa.
As “raízes judaico-cristãs” da Europa justificam o apoio incondicional a Israel?
Não acredito na expressão “raízes judaico-cristãs” como fundamento da Europa. A Europa é, antes de mais, herdeira dos mundos helénico e romano, enriquecida pelos contributos germânicos e celtas e profundamente moldada pela cristandade. O povo judeu desempenhou um papel importante e frutífero, mas este foi construído em conjunto — não é uma identidade fundamental. Em política externa, dois pontos cardeais devem guiar-nos: os nossos interesses (e é difícil ver o interesse da Europa na destruição de Gaza ou da Cisjordânia e nas consequências migratórias daí decorrentes) e a busca do bem comum, que implica o princípio de uma “guerra justa” — como ensinava Santo Agostinho, ou seja, a proporcionalidade. Como europeus, não podemos apoiar uma guerra que não seja justa.
A diplomacia europeia deve estar enraizada na herança cristã?
Sim. A herança cristã não dita lados, dita princípios: a presença, o serviço do bem comum, o testemunho e a doutrina da “guerra justa” — a proporcionalidade, a dignidade humana. Significa denunciar qualquer atentado à dignidade humana e à vida, onde quer que ocorra.
Quais são as suas missões de voluntariado atuais?
Atualmente, temos missões abertas no Iraque, Líbano, Jordânia, Etiópia, Arménia e Egipto. As missões na Síria estão suspensas enquanto aguardamos esclarecimentos sobre a situação, mas serão retomadas assim que possível. O voluntariado está no centro do nosso trabalho: presença, reconstrução, projetos diários, partilha de alegrias e tristezas. Convidamos os jovens europeus a construir uma fraternidade tangível e a viver uma experiência profundamente humana e espiritual junto das comunidades da Europa de Leste.
Onde encontra esperança e como podemos agir concretamente?
Em primeiro lugar, em Cristo — nunca estamos sós. E nos resultados de onze anos de acção, cujos frutos podemos constactar: da família à vizinhança, da aldeia à comunidade em geral. A união do espiritual e do material sustenta a nossa determinação em continuar.
Dois caminhos principais:
Apoiar iniciativas que sirvam os cristãos do Oriente — através da oração, do trabalho voluntário e de donativos para os ajudar a vislumbrar um futuro na sua terra.
Envolvimento político: informar-se (em geopolítica e doutrina cristã), participar e pressionar os representantes eleitos para promoverem uma política europeia empenhada e equilibrada no Médio Oriente — uma política que garanta estabilidade, paz e prosperidade duradoura.
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é uma iniciativa que dá voz aos que moldam a Europa de hoje: políticos, ensaístas, filósofos, ativistas, artistas e influenciadores. Estes retratos são respostas coletivas às crises que abalam a nossa Europa. Perante as grandes transformações da nossa época, o VoxEuropa Herald dá voz àqueles que, por toda a Europa, partilham soluções e visões para o futuro. A mensagem é clara: as realidades europeias exigem respostas europeias.
