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A «guerrilha» cultural da direita

por Yoel Meilán in La Razón (ilustrado com imagens de Salsaparrilha)

Quando se está no poder, é bastante fácil impor a sua forma de pensar. Era isso mesmo que a esquerda pensava há algumas décadas, uma vez que, nos Estados Unidos e na Europa, tinha tido pouco acesso ao poder. Deste modo, a contracultura associou-se naturalmente a ela. O punk, as camisolas do Che, o humor irreverente ou pegar fogo a um boneco do Rei como forma de difundir ideias.

Se não se tem o Estado, conquista-se a cultura, faz-se «cultura de guerrilha». Antonio Gramsci, o famoso pensador comunista, formulou-o como uma espécie de guerra de trincheiras. Se não se pode fazê-lo a partir de um ministério, que seja através do humor, do quotidiano e da cultura de base. Essa estratégia funcionou para a esquerda e, durante anos, pôde marcar o tom do que era aceitável, do que era engraçado, do que tinha qualidade e, sobretudo, do que merecia ser cancelado.

A direita, pelo contrário, tinha-se acomodado a um estilo mais seco e formal. Comunicava através de dados, números e de um tom que muitos consideravam aborrecido. Funcionava nas urnas quando as coisas corriam bem, mas perdia claramente a batalha cultural. Quando o clima se tornou mais hostil — com cancelamentos, pressão mediática e uma narrativa dominante que a colocava sempre na defensiva — teve de mudar de método, sobretudo sob a protecção das novas tecnologias e das redes sociais. Não tardou que a esquerda demonizasse esta mudança, apresentando-a, como todos sabemos, como um sintoma de uma terrível radicalização e de uma ameaça à democracia, quando é simplesmente uma resposta à conjuntura actual.

No início deste 2026, o crítico cultural alemão Wolfgang Ullrich documentava, no seu amplo ensaio «Memecracia: política, imagens e poder na era dos memes», como grupos de activistas que poderíamos chamar conservadores se autodenominavam «meme warriors» e planificavam a produção de imagens segundo uma lógica de campanha. E é que as técnicas de contracultura tradicionalmente típicas da esquerda, o humor irreverente e a crítica social mudaram de campo.

O humor, que antes estava associado à contracultura de esquerda, ao escândalo como expressão de liberdade — aquilo que nos anos setenta era a irreverência de esquerda, com o seu amor livre e os seus cómicos críticos da religião —, encontra hoje criadores que troçam do politicamente correcto. O estudo da Media Matters, «The right dominates the online media ecosystem», de 2025, assinado por Kayla Gogarty, demonstra precisamente este caso. Os programas e conteúdos humorísticos em linha, habitualmente associados à ruptura com o «politicamente correcto», têm mais audiência e seguidores do que aqueles que aderem à moral «woke», mais firme e dogmática, e que já começa a suscitar reservas na audiência.

Não se pode esquecer o enorme êxito de projectos como o podcast de Joe Rogan ou o renovado volume de comediantes sempre mordazes como Ricky Gervais ou Russell Brand, que, sem serem dogmaticamente «de direita», criticam e explicam o mundo através da sátira e do humor. A mensagem chega sem que o espectador sinta que está a receber um discurso. Ri-se, partilha e, de passagem, assimila uma visão do mundo diferente daquela que é imposta pelos grandes meios de comunicação e pelas instituições culturais.

Os memes funcionam como um atalho. São visuais, rápidos, fáceis de partilhar e difíceis de deslegitimar, porque, no fim de contas, são humor. Mas, como observou Alfredo Landa, o humor «é saber rir-se das próprias desgraças», pelo que, quando se faz troça do desemprego, da imigração ou da censura, existe sempre uma outra camada.

Humor contra o politicamente correcto

Outra investigação, intitulada de forma bastante esclarecedora «The meme battlefield: anti-woke humor against wokeness and dark woke culture» e publicada em 2026, destacava precisamente esta questão. Os memes, os vídeos e a cultura das redes sociais tinham feito as delícias dos utilizadores. O humor ácido, crítico e até de mau gosto sobre a actualidade tinha-se deslocado praticamente em exclusivo para a direita, fazendo com que as suas publicações e conteúdos tivessem muito mais êxito e difusão.

E é aqui que parece estar a chave. A direita recuperou o tom provocador e livre que antes se associava à contracultura de esquerda, o escândalo como expressão de liberdade. Aquilo que nos anos setenta era irreverência de esquerda, com o seu amor livre e os seus cómicos críticos da religião, encontra hoje criadores que troçam do politicamente correcto.

O estudo da Media Matters «The right dominates the online media ecosystem», de 2025, assinado por Kayla Gogarty, demonstra precisamente este caso. Os programas e conteúdos em linha de humor, habitualmente associados à ruptura com o «politicamente correcto», têm mais audiência e seguidores do que aqueles que aderem à moral «woke», mais firme e dogmática, e que já começa a suscitar reservas na audiência.

Não se pode esquecer o enorme êxito de projectos como o podcast de Joe Rogan ou o renovado volume de comediantes sempre mordazes como Ricky Gervais ou Russell Brand, que, sem serem dogmaticamente «de direita», criticam e explicam o mundo através da sátira e do humor. A mensagem chega sem que o espectador sinta que está a receber um discurso. Ri-se, partilha e, de passagem, assimila uma visão do mundo diferente daquela que é imposta pelos grandes meios de comunicação e pelas instituições culturais.

Trata-se de uma adaptação inteligente a um ambiente hostil. Quando a narrativa oficial se torna rígida e moralizante, o humor e a ironia convertem-se em ferramentas de resistência.

Quando os canais tradicionais de comunicação estão controlados ou enviesados, surgem criadores independentes que falam directamente ao público. Quando se impõe um único tom aceitável, a provocação recupera terreno perante um ecossistema que censura por norma.

A esquerda inventou o manual da guerrilha cultural quando não tinha o Estado nem os meios do seu lado. Hoje, com as instituições, as universidades e boa parte do mundo da cultura do seu lado, é a direita que tomou esse mesmo manual e o fez seu. Quem hoje se queixa da provocação está, no fundo, simplesmente a reclamar a manutenção do seu domínio e a esquecer que, há não tantos anos, eram eles os provocadores.

Que voltas dá isto das batalhas culturais.