por João Martins
Somente um retardado não percebe que a crise da habitação não nasceu hoje. É o resultado de décadas de decisões políticas imbecis, de omissões reflectidas, de planeamento insuficiente e de governos que preferiram empurrar o problema com a pança a resolvê-lo. A habitação tornou-se um luxo num país onde os portugueses que trabalham deixaram de ter a garantia de que conseguem pagar uma casa compatível com os seus rendimentos. Quando um jovem trabalhador tem de entregar uma parte absurda do salário por um quarto, não estamos perante uma fatalidade económica, mas, sim, diante o fracasso de sucessivas políticas públicas.
Somente um retardado não consegue reconhecer o efeito da imigração sobre a procura de habitação. Segundo a AIMA, Portugal contabilizava cerca de 1,54 milhões de cidadãos estrangeiros com residência em 2024. Este número não contempla os milhares de ilegais que, naturalmente, também necessitam de habitações para dormir. Quem chega ao nosso país precisa de viver algures, tal como quem já cá estava. Se a população aumenta mais depressa do que a oferta habitacional, a pressão sobre os preços vai, obviamente, intensificar-se, penalizando os portugueses nativos. Achar que a entrada sem controlo de imigrantes não teria impacto directo no parque habitacional é o mesmo que julgar ser possível introduzir 20 pessoas num automóvel de 5 lugares e afirmar que tal não interfere na condução e que todas estão cómodas.
Somente um retardado não assume que os governos do Partido Socialista têm responsabilidades políticas que não podem ser apagadas com os estúpidos gritos de “25 de Abril Sempre, fascismo nunca mais!”. Durante anos multiplicaram-se anúncios de crescimento económico, receitas fiscais, programas anunciados e promessas de investimento. Ainda assim, a oferta de habitação não acompanhou as necessidades de muitas famílias. O PS não tem direito a fazer eco da indignação nem é possível absolver um partido que governou durante longos períodos e apenas acentuou mais ainda o problema.
Somente um retardado não percebe que os restantes partidos da chamada “Geringonça” também devem ser responsabilizados pela crise habitacional. A retórica da justiça social propalada pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda não constrói, por si só, casas, não reduz filas de espera e não paga rendas. Estas duas formações partidárias secundaram o governo do Partido Socialista, partilhando idênticas responsabilidades. Agitar agora a bandeira da habitação é revelador de uma profunda hipocrisia e da captura de uma causa cujo problema foi por elas criado.
Somente um retardado não percebe que uma tenda numa praça não transforma automaticamente quem lá está em representante do povo. Uma acção de protesto, por mais mediatizada que seja, não é uma sondagem nacional nem uma amostra representativa de todos os portugueses que enfrentam dificuldades habitacionais. Que uns quantos activistas de extrema-esquerda montem tendas numa praça e, com isso, obtenham visibilidade mediática garantida por jornalistas de esquerda, não confere, por passe de mágica, um mandato para falar em nome de todos os trabalhadores, pensionistas, jovens casais e famílias que não conseguem pagar uma renda. Importa recordar aos hospiciais esquerdistas que as assembleias populares não substituem as eleições.
Somente um retardado não percebe que existe aproveitamento político da miséria. A crise habitacional – que é real – está a ser instrumentalizada por um arquipélago de partidos, movimentos e organizações que procuram voltar a situar-se no mapa político, como é o caso do Bloco de Esquerda. É este partido, em processo de sobrevivência política e articulado com organizações de extrema-esquerda ultraminoritárias, todas elas mais apostadas em promover as suas patéticas causas de nicho do que na questão da habitação, que está a organizar as acções, que define as palavras de ordem e que lhes dá enquadramento político.
Somente um retardado não percebe que a comunicação social escolhe o ângulo através do qual o público vê a crise. Umas quantas tendas numa praça estão a ocupar o noticiário durante dias, enquanto milhares de famílias enfrentam, longe das câmaras, o peso de rendas incomportáveis. O jovem que adia a saída de casa dos pais por não conseguir pagar uma casa, o português que abandona a cidade devido à insegurança provocada por bandos étnicos ou o idoso que enfrenta uma lista de espera no SNS têm muito menos tempo de antena. A cobertura mediática está ideologicamente afivelada ao jornalismo de esquerda e mostra apenas uma dimensão do problema ao privilegiar somente alguns dramas e ao elevar os certos protagonistas que são mais úteis para a narrativa do momento.
Somente um retardado não percebe que as forças de autoridade demonstram, para com os activistas de esquerda, uma tolerância que não demonstraram noutros casos. Aqueles que hoje se queixam do uso da força por parte da PSP são os mesmos que aplaudiram a decisão da Câmara Municipal de Lisboa de proibir a manifestação do Partido Ergue-te!, prevista para o Martim Moniz, em Lisboa, a 25 de Abril de 2025, na sequência de um parecer negativo da PSP. A mesma PSP que tantas vezes actuou de forma musculada perante adeptos de futebol e manifestantes nacionalistas, parece agora revelar uma cordialidade bem diferente perante activistas de esquerda que infringem a lei. Esta dualidade de critérios revela um manifesto temor do Ministério da Administração Interna perante a reacção dos órgãos de comunicação social, receio que condiciona a actuação das forças de segurança e alimenta a percepção de que nem todos os manifestantes são tratados da mesma forma.
Somente um retardado não percebe que o mercado de trabalho e o mercado da habitação estão ligados. Uma economia que importa mão-de-obra para sectores que oferecem salários baixos, sem garantir alojamento compatível com esses salários, transfere os custos do seu modelo económico para os próprios trabalhadores. O processo imigracionista responde à avidez de lucro das grandes empresas e aumenta a concorrência por empregos mal pagos, enfraquecendo o poder negocial dos trabalhadores nacionais. A lógica é simples: os lucros são privados; os custos, pelos vistos, devem ser socializados.
Somente um retardado não percebe que uma política nacional de habitação tem de colocar no centro das prioridades os interesses dos portugueses. Muita gente a mais traduz-se em muitas casas a menos. Impõe-se, desde logo, avaliar as políticas migratórias à luz das necessidades económicas dos portugueses, da integração dos imigrantes, das condições laborais e da capacidade efectiva de acolhimento. Encetar um efectivo processo de remigração irá ter como efeito imediato o alívio no parque habitacional.
Somente um retardado à Direita não percebe que aplaudir a repressão policial e chamar freaks aos manifestantes de esquerda não resolve a crise da habitação. A Direita, nos seus habituais espasmos reaccionários, não pode arvorar-se em defensora deste Governo e muito menos de um regime anti-nacional. Há que criticar o oportunismo partidário da Esquerda e os métodos dos activistas, mas não basta celebrar a retirada das tendas: é preciso denunciar a nefasta acção das multinacionais e do empresariado em geral, que contribuíram para inundar o país de imigrantes. Importa apresentar soluções concretas, em vez de permanecer espectador de um problema que continua por resolver.
Somente um retardado à esquerda não percebe que o direito à habitação não se defende com tendas, palavras de ordem decrépitas, bandeiras da Palestina ou arco-íris e de charro na boca: defende-se assumindo a realidade do país, em coerência com a verdade e com a responsabilidade que a idade adulta exige. Fora deste âmbito, é teatro ao estilo d’A Barraca e o teatro, por mais espaço noticioso que colha da parte dos órgãos de comunicação social, não põe um tecto sobre a cabeça de ninguém e as rendas continuam por pagar.
