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Emma ou o nascimento de uma revolucionária de salão

por Trystan Mordrel [trystan.mordrel@gmail.com]

O jornal Libération conta-nos as vinte e quatro horas de terror de Emma, ​​de dezasseis anos, filha de burgueses de Montreuil-Bas. O seu feito? Ter escrito “ACAB” na barriga. Uma detenção policial, uma cela desconfortável, polícias que riem com desdém, e eis a nossa “Gavroche”[1] dos bairros nobres promovida a heroína da repressão. Alexis Corbière chega mesmo a visitá-la na cela. Só faltava Victor Hugo para imortalizar o martírio.

A nossa jovem insurgente relata o seu calvário: a luz estava acesa, o colchão era demasiado fino, a casa de banho não oferecia privacidade e — o auge do horror — os polícias portavam armas. Felizmente, o pai e a mãe faziam vigília diante da esquadra, enquanto um deputado vinha informar-se sobre a situação da prisioneira. O caso foi arquivado. Emma, ​​​​agora aureolada pela sua primeira passagem pela esquadra, voltou a participar em manifestações. Acaba de nascer uma vocação revolucionária.

O pormenor mais revelador está noutro ponto: os seus pais trabalham na área cultural. Um mundo à parte! O mundo de uma burguesia cultural que vive de subsídios, extrai os seus recursos da riqueza produzida por outros e dedica a sua actividade a manter a ordem moral surgida em 1945.

Uma ordem moral que pretende emancipar os homens ao mesmo tempo que desqualifica as heranças, as pertenças e as autoridades tradicionais. Nada se sabe sobre as actividades precisas destes pais, mas a sua reacção é eloquente: a filha proclama que todos os polícias são uns canalhas, e eles declaram-se “orgulhosos” do seu despertar político. O pai reserva a sua indignação exclusivamente aos polícias.

Pois “ACAB”, recorde-se, significa “All Cops Are Bastards”: todos os polícias são uns canalhas. É difícil imaginar um slogan mais apto a desumanizar aqueles que encarnam a ordem pública. Eis o que produz esta burguesia que ensina a detestar a autoridade, enquanto goza da segurança que ela lhe proporciona. Ela aplaude a transgressão dos filhos e, depois, grita perseguição quando as instituições levam a sério as suas provocações.

Assim nascem os revolucionários de salão: no conforto material, na indignação herdada e na certeza de pertencer ao lado do Bem. A revolta torna-se um rito de passagem burguês, a detenção policial, um atestado de virtude, e o Libération encarrega-se de redigir a lenda da família. Emma pode prosseguir com a sua revolução. O papá e a mamã zelam por ela, e o sistema que fingem contestar fornece-lhes até os meios para a sua indignação.

[1] Gavroche é uma personagem do célebre romance Os Miseráveis, de Victor Hugo.