Uma oportunidade que a Europa não pode perder
in FONDAPOL
Durante muito tempo confinados à ficção científica, os robôs humanoides estão a entrar numa fase industrial marcada por investimentos acelerados, proliferação de protótipos e comercialização inicial. Os fabricantes prometem revolucionar a economia global, fornecendo uma força de trabalho praticamente ilimitada, versátil e de baixo custo.
O objetivo deste estudo é avaliar a viabilidade tecnológica e económica dos robôs humanoides da próxima geração e identificar as condições para a sua ampla adopção. O estudo divide-se em três partes: um enquadramento teórico para compreender o papel dos humanoides numa economia automatizada, uma visão geral do mercado global e da maturidade tecno-económica dos protótipos, e uma análise prospetiva apresentada em seis cenários.

Teoria: A Versatilidade como Principal Proposta de Valor
A robótica humanoide distingue-se de outras formas de robótica pela combinação inédita de elevada autonomia e versatilidade quase humana. Enquanto os robôs tradicionais são concebidos para superar os humanos em tarefas específicas, os robôs humanoides têm como objetivo substituí-los em todas as tarefas manuais. Comparativamente aos humanos, os robôs humanoides oferecem quatro vantagens potenciais: produção industrializável sem restrições populacionais, custo potencialmente competitivo, capacidade de trabalhar continuamente mesmo em ambientes hostis e desenvolvimento instantâneo de competências através de atualizações de software. Os robôs humanoides podem, portanto, expandir os limites da automação, particularmente em atividades altamente manuais, como a indústria transformadora, a logística, a construção, a saúde e a manutenção.
Situação atual: Crescimento sem precedentes, mas maturidade tecnológica limitada
O mercado de robôs humanoides tem registado um crescimento sem precedentes desde o início da década de 2020. Os pedidos de patentes que mencionam o termo “humanoide” aumentaram 71% ao ano desde 2017, os investimentos de capital de risco no mundo ocidental saltaram de algumas centenas de milhões de euros para mais de seis mil milhões em quatro anos, e o número de protótipos identificados subiu de alguns poucos em 2020 para cerca de cem em 2026. Os fabricantes são principalmente americanos (33% da amostra estudada), chineses (28%) e europeus (22%), existindo alguns líderes como a Neura Robotics na Alemanha e a Engineered Arts no Reino Unido. No entanto, a maioria dos modelos permanece na fase de demonstração, estando apenas alguns disponíveis para compra. A destreza manual e a compreensão contextual são ainda obstáculos à adopção: as demonstrações públicas dependem frequentemente de teleoperação discreta ou de treino intensivo em cenários específicos.
Viabilidade económica: protótipos já competitivos na indústria
O custo por hora estimado varia consideravelmente: de 207€/hora a menos de 1€/hora, dependendo do custo de aquisição, da vida útil e da taxa de utilização do robô. Nos sectores de fluxo contínuo (indústria, logística, saúde), onde as taxas de utilização podem ser maximizadas, o custo por hora dos robôs humanoides é já inferior ao da mão-de-obra francesa, mesmo com um custo de aquisição elevado (285.000€) e uma vida útil curta (3 anos). Os robôs humanoides tornam-se viáveis em todos os setores com um custo de aquisição de 150.000 euros e uma vida útil de 6 anos — duas premissas que parecem razoáveis para um mercado maduro.
Perspectivas Futuras: Seis Cenários Baseados no Custo e na Capacidade Tecnológica
O estudo descreve seis cenários futuros com base em dois factores: o nível tecnológico dos robôs humanoides (limitado ou geral) e o seu custo unitário (baixo, médio, alto):
- Aplicações de Nicho: os robôs carecem da versatilidade necessária para operar fora de um contexto predefinido e o seu custo mantém-se superior ao da mão-de-obra local;
- Luxo de Alta Tecnologia: o seu custo mantém-se relativamente elevado, mas a sua versatilidade torna-os úteis para diversas tarefas, principalmente domésticas;
- Escalabilidade: os robôs tornam-se mais acessíveis e permitem a automatização da produção padronizada que ainda não foi externalizada;
- Difusão Universal: os robôs, agora mais acessíveis, tornam-se também úteis nos serviços e nos estaleiros de construção;
- Reindustrialização: os robôs tornam-se praticamente gratuitos e possibilitam a deslocalização da produção estandardizada;
- Sociedade pós-laboral: praticamente gratuitos e tão precisos como um ser humano, os robôs humanoides automatizam as tarefas físicas que restam após a automatização das tarefas intelectuais pela inteligência artificial geral. Desafio estratégico: uma oportunidade que a Europa não pode perder.
Embora ainda em fase pré-comercial e sujeita a enormes obstáculos tecnológicos, a robótica humanoide pode tornar-se o catalisador de uma nova revolução industrial, equivalente à da máquina a vapor ou do computador. A próxima década assemelhar-se-á provavelmente mais a um ciclo de desilusão do que a uma revolução, à semelhança do que aconteceu com os carros autónomos. Mas não há indícios de que os obstáculos actuais sejam intransponíveis, e a mudança, quando ocorrer, recompensará aqueles que arriscaram cedo. Para a Europa, o que está em causa vai para além de simplesmente ficar para trás tecnologicamente: quem controla os robôs humanoides controla a sua própria capacidade de produção. Investir em I&D sem demora, garantir os componentes essenciais da cadeia de valor e antecipar o quadro social e fiscal de uma economia com capital produtivo tangível são os bilhetes de entrada para o ciclo que realmente importará.
