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Porque gosta tanto a esquerda da violência?

por François Bousquet

Não é o regresso dos anos 30 que nos ameaça, nem tão-pouco o da hidra fascista: é o regresso de uma violência pré-revolucionária à esquerda — das revoltas estudantis do ensino secundário às revoltas étnicas (ainda que sejam frequentemente as mesmas). A denúncia do famoso «regresso dos anos 30», brandida como uma profecia auto-realizável, é, na realidade, um mito mobilizador. A função deste mito é justificar a violência política. A partir do momento em que todo e qualquer adversário é equiparado ao fascismo, combatê-lo deixa de ser uma questão de debate democrático e passa a ser uma questão de resistência. Isto é válido tanto para a violência de rua como para os assassínios de Charlie Kirk e de Quentin Deranque. As revoluções foram sempre precedidas por períodos de fermentação ideológica e de crise das instituições, mas, mais ainda, por uma radicalização dos antagonismos, motins, atentados e assassínios políticos. É esta legitimação da violência antifascista que hoje merece ser questionada, muito mais do que as analogias preguiçosas com os anos 30.

À esquerda, dá-se grande importância ao regresso dos anos 30, brandindo os calhamaços pesadões e sacerdotais de Johann Chapoutot e Patrick Boucheron, convocando os espectros do passado numa grande onda de pânico retrospectivo, antes de entoar, como os gansos do Capitólio esquerdista — em particular no Sciences Po ou no liceu Louis-le-Grand —, «Siamo tutti antifascisti» («Somos todos antifascistas»), para dar o alarme perante a iminência do perigo fascista.

Este perigo tem a vantagem de justificar a renovação perpétua do antifascismo, nascido precisamente naqueles anos 30 por iniciativa dos agentes do Komintern. Por muito que Estaline os tenha mandado matar, uns após os outros, o antifascismo sobreviveu à morte dos seus promotores, tal como sobreviveu à morte do fascismo histórico. Para isso, nada como reinicializá-lo periodicamente, à semelhança de um velho programa informático, há muito obsoleto, mas ainda compatível com as necessidades da causa. É assim que funciona o mito do eterno retorno dos anos 30.

François Bousquet é autor de «Sale Blanc. Le racisme qu’on ne veut pas voir»

Pois bem, lamento, meus senhores! Não vejo no horizonte nada que se assemelhe ao regresso dos anos 30. O que me impressiona, pelo contrário, são as semelhanças, muito mais inquietantes, com os períodos de violência pré-revolucionária. Sinto-me, simultaneamente, fascinado e inquieto com a forma como a esquerda contemporânea chega ao ponto de desculpar, legitimar e até celebrar o assassínio político. Basta ver como a morte de Charlie Kirk e de Quentin Deranque suscitou manifestações públicas de júbilo, vídeos de regozijo e «Bella ciao» entoados em contínuo. Em nome do antifascismo, é legítimo matar. Como o antifascismo pertence ao domínio da demonologia política, isso justifica antecipadamente todos os crimes cometidos em seu nome. É preciso exorcizar a figura do mal, não apenas queimando a sua efígie, mas eliminando aqueles que ela representa. Assim, a condenação moral transforma-se numa sentença de morte.

A LFI, os «brancos de condição modesta» e a violência

A forma como a Jeune Garde, a milícia ideológica do antifascismo institucional, que tem o sangue de Quentin e de outros militantes nas mãos, foi apoiada por Mélenchon e pela LFI, juntamente com o seu deputado Raphaël Arnault, diz muito sobre o grau de consentimento à instauração do terror ideológico à esquerda. Não houve qualquer distanciamento político, nem repúdio; pelo contrário, houve uma solidariedade inabalável, assumida ostensivamente. Onde a morte de um jovem poderia ter provocado uma reavaliação dos métodos dos antifas, Mélenchon optou por manter, de forma clara e veemente, o seu apoio a Raphaël Arnault e ao terror de rua rebaptizado de «autodefesa popular».

Mélenchon não faz campanha apenas pelo Eliseu, onde é dado como derrotado; joga também outra partida, mais decisiva, na rua, tendo como pano de fundo a hipótese de uma terceira volta que já não seria social, mas societária, já não política, mas étnica, e que liquidaria definitivamente os resultados das eleições presidenciais. Nesta leitura, o tribuno acumula as funções de chefe de motins, aclamado pela juventude: quatro jovens em cada dez (dos 18 aos 24 anos) declaram querer votar em Mélenchon. Não há dúvida de que, entre os jovens dos 16 aos 18 anos, seriam ainda mais numerosos os que o fariam. Uma juventude cujas mobilizações já não se resumem a palavras de ordem e cartazes, podendo antes assumir os contornos de pequenos motins: tentativas de incêndio, actos de vandalismo e agressões contra professores. As manifestações de estudantes do ensino secundário, outrora um ensaio geral das mobilizações sindicais, recorrem cada vez mais frequentemente aos métodos do repertório da violência urbana, próprios da extrema-esquerda e dos subúrbios periféricos.

Inicialmente étnico, o movimento estudantil foi-se desetnicizando pouco a pouco — ou, antes, hiper-etnicizando por mimetismo —, à medida que liceus burgueses do centro das cidades, maioritariamente frequentados por brancos, aderiram ao movimento e declararam a sua solidariedade para com os estabelecimentos dos subúrbios (o caso do estudante Elwan é aqui emblemático). Esta lógica de imitação permite aos jovens dos bairros elegantes apropriarem-se da violência urbana dos chefes de gangues e, assim, deixarem de ser vistos como «brancos frágeis».

Dos irmãos Kouachi a Raphaël Arnault

Não é a primeira vez na História que a violência substitui progressivamente a deliberação e o consentimento políticos. Trata-se sempre dos pródromos das grandes convulsões revolucionárias. Assim, já que queremos convocar fantasmas, mais vale olhar para Robespierre, Lenine e Mao. Não faltam pontos de comparação, em particular com a febre insurreccional que se apoderou da Rússia imperial entre as décadas de 1890 e 1910, antes do seu colapso.

Desde o Terror de 1793-1794, a história da violência revolucionária parece condenada a repetir-se como uma gaguez. Tudo muda, excepto a radicalização dos discursos e a legitimação da violência. São outros tantos precedentes históricos que mereceriam um pouco mais de atenção do que as eternas analogias com os anos 30, transformadas no pensamento pré-fabricado de uma historiografia que convenientemente esquece que o século XX foi, antes de mais, o século dos terrores revolucionários.

De passagem, deixo de lado as condições necessárias para que uma revolução aconteça (um corpo doutrinário, uma crença messiânica, a designação de um inimigo comum, a crise das instituições…). Encontramos tudo isso, sob formas evidentemente diferentes, na nebulosa revolucionária contemporânea: wokismo, decolonialismo, racialismo, islamismo… Está longe de constituir um bloco homogéneo, mas os seus elementos radicais partilham o mesmo gosto pela violência política, dos irmãos Kouachi a Raphaël Arnault, de Mohammed Merah a Jacques-Élie Favrot. A violência funciona como um certificado de radicalidade: já não se trata de uma transgressão acidental, mas de um dever militante.

1917-2027

É aqui que a comparação com a União Soviética se impõe. Seria historicamente errado considerar a violência pré-revolucionária a causa única de 1917, tantos foram os factores que contribuíram para o colapso, a começar pela catástrofe da Grande Guerra. Mas seria igualmente errado negligenciar o trabalho prévio de legitimação da violência levado a cabo pelas organizações revolucionárias.

«Tu matarás», «Thou Shalt Kill», em inglês. É este o título do livro que a historiadora Anna Geifman dedicou ao «terrorismo revolucionário na Rússia, 1894-1917» (Princeton University Press, 1993). Tudo está nesta inversão do mandamento bíblico, obra dos revolucionários de todos os países: do «Não matarás» ao «Tu matarás». Assim, a transgressão da mais sagrada das leis morais transforma o assassínio político numa obrigação superior para os revolucionários.

Se o precedente russo-soviético é tão esclarecedor, isso deve-se, em primeiro lugar, à dimensão, hoje largamente esquecida, da violência terrorista que precedeu a Revolução de Outubro. Estima-se em 17 000 o número de vítimas (mortos e feridos) da violência terrorista na Rússia entre 1894 e 1917! 17 000, leram bem. Existem números mais precisos para os anos de 1906 e 1907, após a revolução falhada de 1905. Em 1907, foram mortos 1 231 funcionários públicos e feridos 1 284.

Entre 1908 e 1910, as autoridades registaram 19 957 atentados terroristas e roubos revolucionários.

Por outras palavras: antes de conquistar o poder, a revolução tinha começado por conquistar as mentes para a violência.

Quase todas as organizações revolucionárias foram contagiadas por esta febre de violência, sobretudo os socialistas-revolucionários (SR), mas também os anarquistas e os bolcheviques.

Um fenómeno dentro do fenómeno: esta violência não anda sempre muito longe do banditismo. Pensemos nas ligações de Raphaël Arnault com os narcos, em Avinhão, e nas de Bally Bagayoko em Saint-Denis, para citar apenas alguns casos.

A violência adquire uma autonomia parcial: procura-se a violência por si mesma. Chega mesmo a haver competições informais entre grupos em torno do número de roubos e assassínios cometidos. Basta subscrever o canal Antifa Squads para observar o mesmo fenómeno, com a escalada das atrocidades cometidas pelos antifas. Uma espécie de quadro de honra da radicalidade.

Por fim, estas organizações revolucionárias atraem o seu contingente de militantes muito jovens e de personalidades instáveis, um caso clássico de reciclagem do fracasso através da revolução[1].

Se tivermos de estabelecer um ponto de partida para esta violência, será necessário recuar até à tentativa de assassínio de Alexandre II, em 1866 (não se trata de uma característica exclusiva da Rússia: recordemos o atentado contra Napoleão III, em 1858). Mas não devemos deixar-nos cegar apenas pelos assassínios célebres. A violência política atinge milhares de pessoas num ciclo interminável de violência e repressão. O imenso Dostoievski encenou tudo isto com uma presciência alucinante em Os Demónios (1871-1872), obra livremente inspirada na vida do revolucionário Serge Netchaïev. De passagem, podemos avaliar a profundidade histórica do fenómeno revolucionário russo, de que o bolchevismo não foi o começo, mas um dos pontos de chegada.

Os novos monstros

O essencial é que a violência se banalizou à esquerda, ao ponto de passar a fazer parte dos seus costumes políticos. A aprendizagem começa cedo, logo no liceu, onde, ao longo dos anos e das gerações, as manifestações de estudantes do ensino secundário se transformaram em motins, à imagem das grandes mobilizações da esquerda, de que os black blocs constituem uma das componentes mais espectaculares. Isto porque a esquerda mantém uma relação completamente descomplexada com a violência, tanto contra os bens (teorizada por Andreas Malm em Como sabotar um oleoduto, 2020) como contra as pessoas (os antifas). Da Jeune Garde à LFI, dos Soulèvements de la Terre aos black blocs, dos motins estudantis aos motins étnicos, até aos discursos de responsáveis políticos que, em nome da desobediência civil, afirmam que contestarão, quando chegar o momento, o veredicto das urnas (Marine Tondelier, Rokhaya Diallo, etc.).

Nada disto augura algo de bom. Não se trata de um acesso passageiro de febre, mas de um corpo social levado à ebulição, que procura uma saída política para as suas frustrações e já parece não vislumbrar outra solução senão o caos e a sistematização da violência. A célebre fórmula de Antonio Gramsci aplica-se perfeitamente a este mundo, com a diferença de que os monstros não surgem do lado onde Gramsci teimava em procurá-los: «O velho mundo está a morrer, o novo mundo tarda em aparecer e, neste claro-escuro, surgem os monstros.»

[1] Encontramos aqui outro ingrediente pré-revolucionário, amplamente estudado pelo investigador Peter Turchin: a «sobreprodução de elites». Entenda-se por isso a multiplicação de aspirantes a posições de poder, muito para além do número de lugares que a sociedade lhes pode oferecer. Diplomados em excesso, intelectuais medíocres e ociosos, ambiciosos despromovidos socialmente. Encontramos aqui a psicologia do revolucionário analisada por Gustave Le Bon e Augustin Cochin.