Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

17 de Outubro de 2026, dia em que a França se apercebeu de que se tinha tornado, de facto, a «colónia das suas colónias»

17 de Outubro de 2026, dia em que a França se apercebeu de que se tinha tornado, de facto, a «colónia das suas colónias»

por Bernard Lugan

O que aconteceu no dia 17 de Outubro de 2026 é a demonstração, na prática, daquilo que escrevi e anunciei no meu livro Comment la France est devenue la colonie de ses colonies. Ou seja, que estamos agora na fase final desta contracolonização, perfeitamente resumida por Houria Bouteldja na sua declaração de guerra aos franceses “nativos”: “A nossa simples existência, somada a um peso demográfico relativo (1 para 6), africaniza, arabiza, berberiza, creoliza, islamiza e enegrece a ‘filha mais velha da Igreja’ — outrora branca e imaculada (…)”.

Hoje, os saqueadores — em grande parte oriundos das nossas antigas colónias — justificam a sua conquista territorial com uma frase que traduz claramente o seu desejo de desforra, ou mesmo de vingança histórica: “Se nós estamos aqui, é porque vocês estiveram lá”.

Uma conquista metodicamente preparada, ao longo de quatro ou cinco décadas, por estas elites etnomasoquistas que governam o nosso país e que inventaram a noção da suposta “culpa francesa”.

Não foi, por acaso, Roselyne Bachelot — então ministra da Cultura — quem ousou declarar, na qualidade do seu cargo, a um jornal argelino: “Devemos reconhecer que a colonização é um crime, uma barbárie, e que tivemos a nossa quota-parte de responsabilidade nela” (Roselyne Bachelot ao L’Opinion, em 10 de Novembro de 2020)? Não foi Emmanuel Macron quem, a 17 de Fevereiro de 2017 — quando ainda era apenas candidato à presidência da República —, declarou na televisão argelina que “a colonização (…) é um crime contra a humanidade, uma verdadeira barbárie”, etc.?

O resultado é que, entre os milhões de novos franceses e imigrantes clandestinos, muitos não se identificam com uma França “criminosa”. Hafsa Askar, então vice-presidente do sindicato estudantil UNEF, foi bastante clara a 15 de Abril de 2019 ao declarar, a propósito do incêndio de Notre-Dame:

“Não estou para aí virado para Notre-Dame de Paris, porque não estou para aí virado para a história de França… Wallah… estamos a cagar para isto; objectivamente, isto é uma pira de branquinhos”.

Para os saqueadores de 17 de Outubro, a França não é uma construção histórica gradual de que seriam herdeiros, mas antes uma terra a ser tomada, a ser conquistada. Uma terra na qual procuram realizar uma desforra histórica de natureza psicanalítica.

Não nos enganemos: no caso deles, não se trata de “separatismo” mas sim de uma vontade de conquista. Não querem a secessão; pelo contrário, desejam impor à França as suas normas filosóficas, sociais, políticas e religiosas, o seu modo de vida e os seus costumes… Em suma, querem submetê-la.

Isto parece-lhes tanto mais fácil de concretizar porque, como bem observou Houria Bouteldja, a demografia lhes garantirá, matematicamente, um papel cada vez mais decisivo na vida política francesa — através de uma «etnomatemática» eleitoral, tão bem compreendida por Jean-Luc Mélenchon. Por outro lado, os franceses “nativos” foram desarmados física, jurídica e mentalmente. Tendo perdido o seu instinto de defesa juntamente com as suas referências civilizacionais, já não acreditam em mais nada; as suas mulheres deixaram de ter filhos, e a exacerbação do feminismo acabou por desvirilizar os homens…

A responsabilidade histórica da esquerda dita “republicana” no drama existencial que a França hoje vive é abismal. Foi ela que, a partir da década de 1960, não cessou — em nome do antirracismo — de apoiar a imigração. Foram os seus intelectuais que minaram, metodicamente e um a um, os princípios e as instituições sobre os quais assentavam, até então, a coesão e a coerência da sociedade francesa. Foi ela quem pavimentou o caminho para os saqueadores de 17 de Outubro. Mas, ao mesmo tempo, ela cometeu um suicídio intelectual. De facto, organizou, promoveu e apoiou uma contracolonização cujas consequências deitaram por terra os seus grandes princípios fundadores universalistas.

É por isso que, perante os monstros que eles próprios geraram, os homens de esquerda permanecem sem voz — embora continuem a recusar-se a encarar a realidade. Encurralados num impasse ideológico e social, agarram-se pateticamente aos “direitos humanos”, à “laicidade” e à invocação quase religiosa da “República”. São como boias furadas que não impedirão o seu afogamento…

Para a esquerda não melenchonista, a escolha é, portanto, clara:

1) Ou a “submissão” — como profetizou Michel Houellebecq —, isto é, a entrada na dhimmitude. Uma parte aceitará isto: uns por masoquismo, outros para não terem de questionar os seus próprios princípios filosóficos. Preferem a escravatura a renunciar aos seus dogmas fundadores.

2) Ou o questionamento da filosofia e dos imperativos morais que permitiram e geraram a situação actual; em suma, a transição para um paradigma de sobrevivência identitária que repudie as velhas quimeras ideológicas.

Para a “direita”, chegou também o momento de uma profunda redefinição de conceitos e do abandono das “Nuvens” — como dizia Charles Maurras —, o que implica questionar antigas obsessões, a exemplo da assimilação ou da integração. Se, de facto, deseja que a França sobreviva, a direita precisará de se deixar guiar pelos portadores de forças criativas — essa vanguarda consciente que, há décadas, a tem tentado alertar, ainda que, até agora, em vão. E quem, hoje, no meio do caos da tempestade, é a única a manter um rumo? O rumo da coragem de dizer aos saqueadores e a certos “franceses de papel” que, se a situação aqui lhes é insuportável… deseja-lhes “boa viagem”… e um feliz regresso “ao seu país”. Mas, se, ainda assim, decidirem permanecer em França para usufruírem das suas benesses, e persistirem em incomodar os nativos, deverão, então, reflectir sobre as palavras de Cícero perante o Senado romano: Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? — “Até quando, afinal, Catilina, abusarás da nossa paciência?”.

Pois, nesse caso, seria um outro grito que brotaria das profundezas da nossa história milenar: «Contra os hunos, todos aos Campos Cataláunicos!!!».