por Gennaro Malgieri
A sua orgulhosa «diversidade» manifestou-a toda no perímetro da irregularidade, o que lhe valeu consideráveis equívocos que, todavia, nunca o fizeram desviar-se da convicção amadurecida desde muito jovem: a necessidade, isto é, de conjugar os valores tradicionais com a «questão social» numa síntese que hoje poderíamos, ousadamente, definir como «metapolítica»

Há cem anos, a 19 de Novembro de 1926, nascia em Cardinale, na Calábria, Pino Rauti. Intelectual e político, foi o símbolo vivo da complexidade da direita italiana. A pouca familiaridade do jornalismo político do nosso país com a abordagem das figuras «cruciais» da vida pública, sobretudo quando são difíceis de enquadrar nas grelhas ideológicas, deixa espaço à incompreensão ou, pior ainda, à remoção. Foi o que aconteceu com Rauti que, com a sua obstinada capacidade de atrair os raios demolidores do establishment político e mediático, testemunhou o primado da cultura na política, à custa do pequeno cabotagem eleitoralista e partidocrático. Neste sentido, resumiu a sua militância ao longo de cerca de setenta anos, acabando por representar uma certa ideia da direita que confunde os observadores não menos do que a maioria daqueles que, na própria direita, se reconhecem ou se reconheceram.
A sua orgulhosa «diversidade», Rauti manifestou-a toda no perímetro da irregularidade, o que lhe valeu consideráveis equívocos que, todavia, nunca o fizeram desviar-se da convicção amadurecida desde muito jovem: a necessidade, isto é, de conjugar os valores tradicionais com a «questão social» numa síntese que hoje poderíamos, ousadamente, definir como «metapolítica», que imaginava como fundamento de uma República pacificada e modelada segundo os critérios da participação e do decisionismo.
É fácil liquidar Rauti como um «incendiário de almas», para usar a forte e sugestiva expressão que a «Pravda» — nada menos — cunhou para ele em 1979, quando até na União Soviética se aperceberam de que das ideias rautianas, bem articuladas no âmbito de jovens políticos que eram também intelectuais, e veiculadas por um jornal que ele acabara de fundar, Linea, podia surgir uma direita não convencional, mas alternativa àquela estereotipada dos convencionalismos bem-pensantes então em voga e um tanto antiquada, funcional para as classes burguesas e tranquilizadora para o próprio sistema partidário. Uma direita «revolucionária», em suma, grávida de ideias e capaz de uma suprema apostasia: a negação das virtudes plebeias em nome de uma paradoxal aristocraticidade social, mais próxima da concepção de um George Sorel e do sindicalismo dela decorrente do que de uma direita toda ela «lei e ordem», cujo conservadorismo se esgotava no perímetro tranquilo da oposição parlamentar.
Rauti tentou, em parte conseguindo-o, através das suas iniciativas políticas e culturais, das suas revistas, dos seus livros — seja qual for a opinião que se tenha, permanecerão fundamentais «Le idee che mossero il mondo» e a «Storia del fascismo», em cinco volumes, escrita em conjunto com Rutilio Sermonti —, dos seus centros de estudo e reflexão que reuniram a juventude mais reactiva e anticonformista da direita a partir do final dos anos Sessenta.
A complexidade de uma direita que não se reclamava do fascismo enquanto tal, mas do mais vasto mundo intelectual tradicional-conservador, cujas ascendências evolianas eram, antes de mais, inegáveis, é testemunhada precisamente pela acção formadora de Rauti, para quem as novas ciências e o ambientalismo, o radicalismo institucional e o popularismo localista, as temáticas juvenis — da música alternativa à arte de vanguarda, das problemáticas femininas à releitura dos fenómenos de agregação de que nasceram os famosos Campi Hobbit, da literatura fantástica à banda desenhada, que era apanágio apenas da esquerda, para citar apenas algumas expressões que contribuíram para rejuvenescê-la — e a revisitação do solidarismo numa perspectiva que previa a superação da luta de classes e o questionamento do capitalismo financeiro forneceram ao mundo que se reconhecia no Movimento Social Italiano um verdadeiro arsenal de ideias para combater, como então se dizia, a «boa batalha».

Rauti foi o motor de todo este fermento de inovações que nem sequer a mais dura, encarniçada e monstruosa perseguição política e judicial a que foi submetido durante cerca de quarenta anos conseguiu travar. E desta página da história pessoal de Rauti, que se entrelaça com as mais controversas e problemáticas da história republicana, um dia será necessário prestar contas, partindo do pressuposto de que as ideias não são julgadas e de que não se podem construir monstros funcionais a uma estratégia elaborada sabe-se lá em que santuários, que deveria desestabilizar o sistema com o objectivo de estabilizar estruturas de poder que travavam uma guerra entre si com os instrumentos que, infelizmente, conhecemos.
Legiões de inquisidores e de «pistaroli»[1] tentaram destruir a credibilidade de Rauti, a sua honorabilidade, o seu próprio mundo político, mas não conseguiram. Os inúmeros processos que enfrentou não só não o vergaram, como o tornaram mais forte: foi sempre absolvido, saindo incólume das numerosas investigações que, como testemunharam os seus colegas do Tempo, desde 1972 nada tinham que ver com um jornalista que amava o empenhamento político e o interpretava como um dever cívico absoluto, mesmo quando as ideias «perigosas» ou «arriscadas» que professava lhe podiam sair caras.
Apesar de tudo, as inúmeras vezes em que foi eleito deputado, deputado europeu e representante do nosso Parlamento no Conselho da Europa demonstram que a confiança que nele era depositada — partilhada, aliás, por todo o seu partido — era mais forte do que os preconceitos.
Rauti, contudo, foi sempre uma alma inquieta. Desde que, ainda muito jovem, aderiu à República Social Italiana e foi depois preso nos campos de concentração norte-africanos, amadureceu a convicção de que o seu destino seria o de um «agitador». Entre os jovens aderentes ao MSI dos primeiros tempos, mostrou imediatamente impaciência também perante um ritualismo neofascista nostálgico e desprovido de espessura espiritual, ao ponto de fazer parte do «commando» dos FAR, dirigido clandestinamente por Pino Romualdi, acusado de atentados subversivos (para que conste, não foi torcido um único cabelo a ninguém) e levado a julgamento em 1951 juntamente com muitos outros revolucionários, o mais ilustre dos quais se apresentou no Palazzaccio numa cadeira de rodas, acompanhado e defendido gratuitamente pelo maior advogado do século XX, Francesco Carnelutti: tratava-se de Julius Evola, cuja «Autodifesa» continua a ser um dos textos mais significativos para compreender a época dos vencidos na República democrática e antifascista.
Nessas circunstâncias, enquanto a luta política se tornava mais dura, Rauti amadureceu a convicção de que o parlamentarismo no qual o MSI se estava a confinar o condenaria à extinção. Promoveu o Centro Studi Ordine Nuovo que, contrariamente a uma vulgata mentirosa, nada tinha de «subversivo»; conduziu paralelamente a polémica política e orientou numerosos jovens para a formação cultural. Depois veio a reconciliação com o MSI de Almirante e a ambiciosa batalha para «romper pela esquerda», convencido de que só a direita nacional e social poderia dar ao país uma nova configuração. Tornou-se seu secretário em 1990, mas, também devido a jogos de poder internos, a sua experiência no topo do partido durou pouco. Muito haveria a dizer sobre essa confusa época que, de qualquer modo, continua a ser a mais fervilhante depois do período almirantiano marcado pela Grande Direita.

Rauti partiu depois dos seus amigos com quem viveu o sonho da revolução impossível: Giano Accame, Enzo Erra, Fausto Gianfranceschi. Todos protagonistas de uma direita incompreendida, cujas reservas continuam ainda ricas para quem queira penetrá-la para lá das camadas de nevoeiro que impedem uma visão política séria. Rauti recomendava-o sobretudo aos seus jovens amigos: não desperdiçar a colheita de uma história, pois sem raízes não pode haver futuro. É o que de mais precioso dele permanece naqueles que o admiraram, que lhe quiseram bem e até naqueles que o contestaram. Seja qual for a opinião que se tenha, hoje, perante ele, é necessário admitir que Rauti foi um homem da direita complexa, precisamente, não convencional, amassada de certezas e contradições e, por isso, viva, que não merece ser liquidada como fruto de uma ideologia marginal.
[1] Pistaroli foi uma designação depreciativa dada a certos jornalistas de investigação italianos, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, que se dedicavam a seguir pistas, investigar atentados, organizações clandestinas, terrorismo e assuntos políticos obscuros. (N. T.).
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A organização do Centenánio está a cargo do Centro Studi Pino Rauti, dirigido por Isabella Rauti, filha de Pino e actual Secretária de Estado da Defesa italiana.
