de 1976 a 1981 foi dirigido pelo incansável Manuel Maria Múrias
Em 30 de Março de 1976, Manuel Maria Múrias, publicava o nº 0 d’A Rua com a assinatura «o combate do futuro».
Riccardo Marchi in A Direita Nunca Existiu – As Direitas Extraparlamentares na Institucionalização da Democracia Portuguesa 1976-1980, ICS, 2017, págs. 48-53, relembra alguns aspectos da fundação do semanário:
«Bastante mais à direita de O Diabo, Manuel Maria Múrias funda o semanário A Rua, em Abril de 1976 e convida Amândio César para chefe de redação. Jornalista, ensaísta e veterano da direita radical milita no Movimento de Acção Portuguesa (MAP) no pós-25 de Abril. Gravemente espancado no 28 de Setembro de 1974 nos arredores de Coimbra juntamente com o camarada Rui Alvim, refugia-se no Brasil regressando só após o 25 de Novembro. O núcleo inicial de redactores de A Rua inclui vários intelectuais das direitas antidemocráticas, como o cineasta António Lopes Ribeiro, Fernando Jasmins Pereira, António de Seves Alves Martins, Luís Sá Cunha, Rodrigo Emílio, Walter Ventura, António Zorro, Florentino Goulart Nogueira e António Manuel Couto Viana. Este último trará, para responsável gráfico do semanário, o arquitecto Marcelo de Morais, com obra já consolidada durante o Estado Novo. Entre os colaboradores eventuais contam-se também Manuel Gomes Barradas de Oliveira e Dutra Faria. Ao apresentar o meio político que suporta A Rua, Múrias rejeita qualquer ligação com os poderes constituídos, tanto do antigo como do novo regime. Aliás, sublinha como, durante o marcelismo, nenhum dos seus camaradas foi convidado a integrar a Assembleia Nacional como o foram os elementos da Ala Liberal e actuais protagonistas do regime democrático, Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, Joaquim Magalhães Mota. Da mesma forma, nunca integraram os grandes grupos económicos como Mário Soares empregado da CUF, Salgado Zenha ligado a António Champalimaud, ou Raul Rêgo ligado ao banqueiro Miguel Quina no escândalo do livro Tratado de Confissom (1965). Esta reivindicada autonomia não significa revanchismo, mas vontade de ser a «Direita que não é de centro», perante os antimarxistas ainda afectados pela síndrome de esquerda. Uma direita que não chora o marcelismo, mas que também não adere à Revolução. Assim, nas palavras do Múrias:
Vivemos o consulado marcelista em plena euforia plutocrática; mandava o dinheiro; desmoralizámos mal; o que conquistámos, porém, não pode ser estupidamente malbaratado numa viragem neo-capitalista que se, por motivos eleitorais pode interessar os partidos burgueses peados por ligações internacionais, tarde ou cedo provocaria uma nova crise. A Direita aceita o que é justo e razoável de aceitar desta revolução; aguarda com frieza a inevitável revisão da constituição que acata, embora verificando ser ela própria um desvio essencial do tão torcido programa do MFA. Manuel Maria Múrias, «A guerra d´A Rua», A Rua, nº 0, 30 de Março de 1976.
O semanário A Rua é conotado, de imediato com a facção mais radical da direita portuguesa. Assim, ainda em 1980, o jovem colaborador Miguel Alvarenga caracteriza o semanário como «o único e legítimo representante da corrente direitista mais radical, nacional e popular». Jaime Nogueira define o seu director como «um nacionalista muito inspirado no salazarismo, mas não fascista, de todo, nem pouco mais ou menos». Já em 1976, José Miguel Júdice apresenta A Rua como o catalisador do «espaço ideológico-político que se organiza na recusa do domínio plutocrático neocapitalista numa perspectiva neoconservadora e anti-socialista e que tem no nosso país expressão sociológica na base de apoio real e potencial do antigo regime». Para sublinhar o potencial radical deste espaço, Júdice especifica:
É a proposta de uma solução essencialmente coincidente com as teses salazaristas, depuradas do que tinham de excessivo antiliberal e de menos adequado às necessidades de uma focagem conservadora do mundo actual. A essência do conservadorismo nesse sentido é compatível com uma visão até revolucionária sobre as instituições e as estruturas vigentes hoje em dia, as quais não serão naturalmente de conservar, na opinião de quem se situe neste sector político-ideológico.
Mais à esquerda, as reacções não são tão benévolas. O Diário de Lisboa coloca A Rua na extrema-direita apenas pela presença de Amândio César. O Jornal Novo apresenta-o como órgão violento de uma «legião, de que só as unhas são por enquanto visíveis», cuja função é ser o contrapeso ao PCP, «já que violência entende sempre a violência, os anacronismos adoram os anacronismos, as bestas amam as bestas, os fascismos debatem-se com os fascismos». O fundador do Expresso, Francisco Pinto Balsemão, é mais condescendente e enquadra o aparecimento de jornais de extrema-direita na mais ampla viragem de alguma imprensa. Compartilha a posição do director de A Luta, Raul Rêgo, segundo o qual convém manter estes sectores fora da clandestinidade para o bem da democracia. Neste sentido, o então chefe de Estado-Maior do Exército, tenente-coronel Ramalho Eanes, comenta a saída de A Rua com um sintomático: «se a extrema-direita não souber usar a liberdade, teremos que actuar contra ela, e fazer com que povo viva em democracia». As consequências não se fazem esperar. Passados apenas cinco meses da saída do semanário, a Secretaria de Estado da Comunicação Social (SECS) requere à Polícia Judiciária a instauração de um processo-crime contra A Rua, com base na análise da edição de 16 de Setembro de 1976, por apologia do regime fascista, por apelo à violência contra a ordem e a legalidade democrática e por calúnias contra os partidos democráticos e os militares do 25 de Abril. A nota do SECS define o director Manuel Maria Múrias indivíduo «conhecido pela sua colaboração directa com a ditadura fascista». Ao comentar o procedimento, o secretário de Estado da Comunicação Social, Manuel Alegre, afirma: «não estamos dispostos a permitir que renasça neste país uma imprensa fascista, feita por fascistas e tendo como objectivo o regresso à ditadura fascista». A repressão de A Rua é apoiada também pelo Conselho de Imprensa que, desta vez, não usa das cautelas demonstradas com O Diabo.
Apesar da colocação na extrema-direita, a génese de A Rua é mais complexa. O próprio Manuel Maria Múrias recorda que a existência do semanário (com uma tiragem inicial de 40.000 exemplares) foi assegurada não apenas pelo empreendedorismo das direitas extraparlamentares, mas também pelo interesse estratégico do CDS em promover o surgimento, à sua direita, de um pólo de atracção que, por um lado, o protegesse das acusações de representar a extrema-direita do espectro político português e, por outro lado, funcionasse como a ponte com o eleitorado órfão de um partido assumidamente de direita. Walter Ventura aponta em 400 contos a contribuição que Múrias aceitou, comentando: «estes sei de onde vêm e o que querem. Não vão ter sorte nenhuma». Nessa direção vão também as memórias de outro fundador de A Rua, António Manuel Couto Viana, segundo o qual o semanário teve por detrás «gente muito bem situada na alta finança, gente grada do antigo regime, gente à testa dos recentes partidos de direita, a quem ia dever-se a edição do semanário». Estes financiadores chumbaram o nome Bandarra proposto por Múrias, por considerá-lo demasiado comprometido com os eventos do 28 de Setembro, e aprovaram o nome de A Rua, sugerido por Couto Viana e abençoado oficialmente pelo arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva. No caso dos partidos, o apoio veio não tanto do CDS como partido em si, mas de correntes internas, com conhecimento da liderança. Walter Ventura aponta a intervenção directa de Adelino Amaro da Costa, tanto que o primeiro número do semanário apresenta uma longa entrevista a Freitas do Amaral. De facto, José Ribeiro e Castro não recorda nenhum envolvimento directo do CDS com A Rua, mas admite que no partido existisse o interesse ao surgimento de sujeitos mais à direita para cobrir aquele campo e permitir ao CDS a recuperação do posicionamento centrista.
De uma forma geral, os financiadores dos vários projectos de direita não tinham uma particular predisposição para as franjas mais radicais, mas apoiavam indiferentemente o amplo leque anticomunista. Apenas em casos pontuais é possível detectar uma proximidade mais vincada à área extraparlamentar: assim acontece com os Avides Moreira por tradição familiar e com o empresário Bernardo Guedes da Silva, com um intuito de promoção política pessoal.
Neste panorama de forte e variegada mobilização da imprensa anticomunista e das forças à sua volta começam a dar os primeiros e tímidos passos também os partidos da área extraparlamentar.»
Em Junho de 1981, Marcelo Rebelo de Sousa escrevia, no Expresso, o obituário d’A Rua:


