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FSSPX: Quando a virtude caminha na margem

"O último baluarte do catolicismo tradicional", “encontra-se dentro da Igreja, mas nas margens”

por Filipe F. Marques 

Quando falamos em tradicionalismo dentro do universo católico, existe um nome que salta acima de todos os outros. O da FSSPX. Não apenas pela sua atitude altamente contestatária face às alterações doutrinais e ataques internos que a igreja de Roma tem vindo a sofrer, principalmente no decorrer último século e início do presente, mas por todas as polémicas que a envolveram fortemente alimentadas por um Vaticano cada vez mais distante dos valores que deveria, de facto, defender.

Criada em 1970, a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X tem por missão preservar a missa tridentina e a formação sacerdotal dentro dos parâmetros tradicionais. Não é de agora, nem apenas desde os anos sessenta do passado século, que a ICAR foi infiltrada por todo o tipo de sociedades secretas e poderes anti-católicos. Na verdade, o Concílio de Vaticano II (62-65) veio apenas tornar evidente que algo de muito grave se passava no seio da mais antiga instituição da Europa. Gerou-se uma tendência para a “inclusão” associada a uma crise de valores que veio “abrir” a igreja a todo o tipo de fiéis por via da realização de concessões que, na realidade, ao invés de atraírem mais seguidores fizeram com que aqueles que acreditavam na importância da instituição e a viam como uma referência perdessem o interesse e se afastassem. A igreja moderna, ao abandonar o seu papel de sempre, tornou-se numa entidade desprovida de sentido, no arquétipo de um conservadorismo que não conserva nada, na medida em que, a cada cedência, permite que aquilo que critica hoje se torne no conservadorismo de amanhã. Foi esta crise de valores de tendência destruidora, arquitectada a partir de dentro pelos inimigos da Igreja, que Marcel Lefebvre veio combater, sendo também o próprio Vaticano-corrompido (liderado por uma série de anti-papas que se sucederam e sucedem consecutivamente e sem intervalo com qualquer verdadeiro emissário de Deus na Terra) que o tentou destruir e à sua fraternidade.

Em 1988, o então arcebispo Marcel Lefebvre ordenaria quatro bispos em Ecône (Suíça) agindo contra a vontade de Roma, acção que resultaria na excomunhão não apenas do próprio, mas também do bispo co-consagrante Castro Mayer e dos bispos ordenados: Bernard Tisser de Mallerais, Richard Williamson, Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay. Todos foram acusados da participação num acto-cismático, que resultaria na excomunhão automática dos seis e que atirava a fraternidade para uma situação canónica irregular que se mantém até aos dias de hoje. Apesar de Bento XVI ter levantado a excomunhão dos quatro bispos em 2009, numa tentativa de criar pontes para um diálogo entre a Santa Sé e a FSSPX a situação estava longe de ficar resolvida.

Assim, em 2026, e após algumas tentativas de aproximação entre as partes ao longo dos últimos anos, a FSSPX volta a tomar (e bem) uma posição de força ao realizar novas consagrações episcopais sem mandato papal. Um acto desafiante e de coragem face a uma Igreja esvaziada de valores e de fiéis que migram em direcção ao tradicionalismo atacado e procuram cada vez mais assistir às missas em rito antigo dadas em capelas a abarrotar, ao mesmo tempo em que a missa nova é celebrada em catedrais praticamente vazias. É esta a experiência que temos ao assistir às diferentes missas em Roma, cidade em que a única celebração onde realmente não cabe nem mais uma pessoa e onde os fiéis se amontoam do altar central à entrada, é a missa em latim celebrada na pequena capela da via Urbana por um padre da FSSPX. Um sinal dos tempos e da vontade das gentes, que a ICAR não deveria ignorar caso quisesse realmente perpetuar-se no tempo de forma digna e fazendo jus aos séculos e séculos de História nos quais desempenhou um papel fundamental na defesa da Europa e da missão civilizadora que dela partiu.

Krohn – uma pedra no sapato

“Matar o papa” foi título de um podcast lançado em Portugal em maio de 2024 (e ainda disponível online), que deu a conhecer a muitos a história de Juan Maria Fernández Krohn e da FSSPX pelos piores motivos. Sobre a música de Rodrigo Leão é narrado o episódio da vida do padre que, em Fátima, tentou assassinar João Paulo II.  Atitude que caiu como uma bomba sobre a fraternidade à qual pertencia, e que automaticamente se demarcou do acto irreflectido de um homem que claramente se deixou conduzir pela emoção, sem avaliar as consequências da sua acção delirante.

Este ex-católico espanhol, que hoje em dia assume no seu canal de YouTube não crer em coisa alguma, é um favorito entre os detractores da FSSPX, que o utilizam como exemplo máximo de que a fraternidade não serve um bom propósito, com o intuito de a enfraquecer em prol de uma agenda, essa sim, realmente perniciosa. Urge, portanto, compreender que a FSSPX não é o padre Krohn e que uma maçã podre não determina a qualidade do pomar, até porque se tal fosse válido onde andaria a Igreja com todos os escândalos de abusos sexuais e pedofilia praticados pelos criminosos que a ela se juntaram? A verdade é que dentro dos muros do Vaticano pululam todo o tipo de parasitas que fazem apodrecer todo o fruto que por ali se guarda, pelo que a resistência, ou como diria Williamson “O último baluarte do catolicismo tradicional”, “encontra-se dentro da Igreja, mas nas margens”. Assim, se por um lado não é de bom tom desejar a morte de nenhum papa, devemos, porém, assumir que o trono papal permanece vacante com Leão XIV, restando-nos apoiar a FSSPX e todos os que contra o poder instituído lutam o bom combate.