Trabalhar sobre o Estado profundo
Por Gabriele Adinolfi in No Reporter
Gostaria de voltar ao debate que iniciei sobre o Estado profundo para explicar melhor. Para aqueles que não leram a minha reflexão, recomendo que o façam em: https://dextravox.pt/trabalhar-sobre-o-estado-profundo/ (versão italiana em https://noreporter.org/la-fissazione-del-deep-state/)
Caso contrário, este esclarecimento será menos compreensível.
Afirmo que nada pode ser rectificado sem a participação activa no campo, e que a participação activa no chamado estado profundo é precisamente o que deve ser feito.
Mas o que significa?
Não significa “entrismo”, nem é a tentativa de assumir o controlo dos lobbies existentes. Em vez disso, significa criar um novo poder e interagir com a sociedade.
A descoberta da situação de conflito pela narrativa populista descarta o “Estado profundo” como algo artificial e quase ilegítimo. Em vez disso, ele é a estrutura das realidades substanciais de cada sociedade e Estado, e coincide apenas parcialmente com as instituições, sendo — perpétua e necessariamente — não determinado pelo voto, ou pelo menos não apenas por ele.
Neste "deep state"
Existem lojas, lobbies, funcionários, associações, militares, polícias, jornalistas, juízes, professores, organizações sem fins lucrativos, ONG’s, paróquias e assim por diante.
Se tudo isto forma a galáxia do poder real — mais estável e menos condicionado do que a das instituições parlamentares e governamentais —, é evidente que estamos a falar de estruturas completamente diferentes.
Certamente não se pode rectificar um lobby ou uma loja, mas pode-se, com muita paciência, mudar as relações internas dentro de qualquer categoria aberta, desde funcionários de todos os tipos (polícias, soldados, professores, magistrados) até à construção de lobbies populares, pelo menos a nível local, e até mesmo organizações sem fins lucrativos, se não mesmo ONG’s.
O receio de que as oligarquias dominantes, unidas por uma lógica subversiva, actuem como uma frente única está bem fundamentado até certo ponto.
Isto porque — pelo menos nisto, o populismo tem razão — a classe dominante está em profunda crise.
O que não significa que o sistema de poder esteja a mudar. Está a mudar, e a classe dominante progressista já não é capaz de gerir o processo e a narrativa.
É condenado por ideologias novas, pacifistas, fracas e “woke”.
Certamente não sou marxista,
mas algumas das considerações desta cultura são sólidas. Entre elas está a lógica segundo a qual a ideologia dominante é ditada pela classe dominante. No entanto, a classe dominante é chamada a expressar uma ideologia que apoie os seus interesses e, acima de tudo, que vá ao encontro das suas necessidades materiais.
Agora que a guerra voltou a ser um conceito familiar (e não importa quem a trava, mas antes a simples ideia de guerra), as ideologias depravadas devem ser rectificadas, e a mesma lógica subversiva que acompanhou a ascensão da globalização deve dar lugar, pelo menos em parte, a uma lógica construtiva, necessariamente diferente da actualmente dominante.
Isto não deve conduzir a um entusiasmo mal orientado, porque tudo isto, infelizmente, está a ocorrer num período de grave declínio da taxa de natalidade, que é o principal problema que o nosso povo enfrenta.
A existência de condições favoráveis também não significa que darão origem a algo positivo, a não ser que alguém intervenha adequadamente.
Aqui a língua bate onde dói o dente¹
Porque até agora o populismo — tanto de direita como de esquerda, mas também o centrista — baseou tudo na certeza de que a oligarquia está em crise, a ponto de dar origem ao absurdo de “o povo contra as elites”, como se a história não fosse produto de acções e conflitos entre elites.
Apostou na derrota e até no impossível desaparecimento do “Estado profundo”.
Apostou tudo em votos de denúncia e protesto, ignorando ou desprezando as estruturas reais.
Para usar uma expressão usada em Itália pelo brilhante ministro de Craxi, De Michelis, concentrou-se apenas no que está “em cima da mesa”, e não no que está “debaixo da mesa”.
Como as necessidades concretas prevalecem sobre teorias mais ou menos fanáticas, quando os populistas governaram cidades ou regiões (a Lega e o Cinque Stelle em Itália, o Rassemblement National em França), foram forçados a ser muito mais concretos do que a sua propaganda exigia, tanto que foram até acusados de traição.
O défice está a montante
A lógica dual e antagónica baseada em dogmas é paralisante, mesmo quando parece trazer consenso, porque não oferece soluções intransigentes.
Mas estes são compromissos que não mantêm qualquer ponto fixo a montante porque estão ausentes, dado que todo o quadro psicológico e ideológico assenta unicamente na oposição. Portanto, são compromissos perdedores.
Tem havido uma constante falta de reflexão sobre o adversário, que tem sido sistematicamente diabolizado ou ridicularizado.
Isto aplica-se à economia verde, que é um fenómeno muito mais complexo e controverso do que muitos acreditam. Também se aplica às vacinas. Dado que sempre fui céptico quanto à eficácia do RNA contra a COVID, a lógica predominante do populismo anti-vacinas tem sido as teorias da conspiração, alegando que se trata de algo que visa massacrar, esterilizar ou controlar (como se não estivéssemos expostos há anos).
No entanto, Israel, onde o sistema de saúde é de altíssimo nível, vacinou a sua população em massa; há algumas semanas, os EUA anunciaram o desenvolvimento de uma vacina universal contra o cancro baseada em RNA, e na Rússia a vacina de RNA tornou-se obrigatória há duas semanas.
Tudo isto não quer dizer que a escolha tenha sido a mais acertada. Não sou especialista no assunto e continuo algo perplexo, mas atribuir à classe dominante a simples submissão a conspirações satânicas ou a pura estupidez não nos ajuda a compreender o que se passa e muito menos nos ajuda a intervir de uma forma que não seja a de um fanático indefeso.
Para ter algum impacto,
precisa de uma Visão do Mundo muito precisa e bem fundamentada, abraçada com um fanatismo calmo e gentil, e depois a formação de uma minoria activa e organizada.
Caso contrário, nunca alcançará o seu objectivo.
Porque, mesmo que toda a dissidência estivesse reunida, nunca seria capaz de impor mudanças, sem saber para onde ir, mas, no máximo, para onde não ir. O que não é a mesma coisa.
Além disso, a certeza populista de ser maioritário é bastante infundada, dado que a lista mais votada quase nunca reúne mais de um terço dos eleitores (menos de um quinto dos elegíveis para votar).
Também não é real a sua autoproclamação enquanto representantes do povo, porque em quase todas as questões fundamentais a divisão é clara em dois partidos iguais. Isso não leva a nada.
A transição do protesto para a ação construtiva
exige uma profunda consciencialização, seguida de uma abordagem muito específica. Uma que se baseie no local, na organização de novos espaços de poder, na reconstrução da sociedade. Em suma, trata-se de reconstruir dos alicerces até à cobertura.
Compreender esta necessidade significa ultrapassar a insensata dicotomia entre eleitoralismo e influências extraparlamentares, pois esta ultrapassa a indolência purista e a presunção teatral, concentrando-se nas diferentes realidades que compõem a sociedade e, por conseguinte, o poder, estabelecendo assim uma complementaridade mútua de níveis.
Porque aqueles que agem sobre a realidade podem participar ou não no plano institucional, dependendo da sua natureza e personalidade.
As diversas ações, se não estéreis, alcançam objetivamente um equilíbrio e colocam em jogo novas minorias operacionais, que se espera que sejam adequadas ao futuro próximo.
Não é verdade que este caminho não tenha sido trilhado em mais do que um lugar e nação, mas mais por instinto, por predisposição. Até que se torne numa estratégia, não pode haver alternativas às oligarquias subversivas dominantes.
¹”A língua bate onde dói o dente” é um provérbio italiano que significa que tendemos a falar ou a pensar mais sobre o que nos preocupa ou nos causa dor, seja física ou emocionalmente.
