O militantismo mediático enfraquece, esbate, adocica, oculta, sufoca, apaga e escamoteia a realidade criminosa
por Xavier Raufer in Observatoire du Journalisme
Num artigo contundente, o criminólogo Xavier Raufer denuncia o «militantismo semântico» dos meios de comunicação franceses, os quais são mimetizados pelos portugueses. À força de eufemismos, perífrases e termos assépticos, estes esbatem a criminalidade, relativizando a realidade dos gangs, da toxicodependência ou dos assassínios em benefício de uma novilíngua algodoada que afasta o público da realidade. Um salutar lembrete filosófico acerca do poder das palavras.
Xavier Raufer é criminólogo e ensaísta francês. Director de estudos no pólo segurança-defesa do CNAM, é igualmente professor associado no Instituto de Investigação sobre o Terrorismo, na Universidade Fudan de Xangai e na Universidade George Mason (Washington DC). É autor de numerosas obras, entre as quais, recentemente, Jeffrey Epstein – A Alma Danada da III Cultura (ed. du Cerf, 2023).
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Lembrete filosófico acerca do aspecto crucial da nomeação para a sociedade humana:
– Nomear é decisivo: só se compreende aquilo que se nomeia; consistindo a compreensão em apreender possibilidades, toda a nomeação é necessariamente antecipatória. Daí: «O tempo é o horizonte de toda a compreensão do ser.» (Martin Heidegger, Ser e Tempo.)
– A nomeação é o pressuposto essencial de todo o acto humano: «O nome dá a conhecer… Nomear desvela… Pela virtude da exibição, os nomes atestam a sua soberania magistral sobre as coisas.» (Martin Heidegger, Introdução à Metafísica).
A novilíngua ou o regresso do pensamento mágico
Com a Agence France-Presse à cabeça, os meios de «informação» já não informam sobre aquilo a que chamam «fait divers»; cada vez mais, o seu «militantismo semântico» promove uma novilíngua exangue e normalizada. Hoje generalizado, este insidioso militantismo mediático enfraquece, esbate, adocica, oculta, sufoca, apaga e escamoteia a realidade criminosa; eliminando toda a precisão, substitui-a por um discurso melífluo e algodoado, feito de termos vagos, em si mesmos desprovidos de grande significado.
O uso desta novilíngua assinala, na realidade, o regresso do pensamento mágico, para o qual a palavra («diabo») não evoca, mas invoca e, em última instância, convida. Assim, falar do crime seria suscitá-lo; inversamente, ocultar a palavra eliminaria a coisa: qualquer avestruz sabe isso muito bem. Desta forma, esta novilíngua proscreve a todo o custo palavras como assassinar, bando, gangues, esfaquear, matar, assassino, roubar, estupefacientes, toxicodependentes — todas elas descrevendo cruamente uma realidade susceptível de despertar o consumidor sonâmbulo, pasmado diante da sua série televisiva.
– Já não se desintoxicam drogados; agora, «acompanham-se consumidores».
– Já não há toxicodependentes, mas banais «utentes» (como na RATP)[1]…
– … nem estupefacientes, mas «produtos» ou «substâncias» (como detergente ou café).
– Toda a menção negativa é precedida da virtuosa palavra «pessoa», sinal forte de boas maneiras; o toxicodependente transforma-se assim numa «pessoa consumidora»; do mesmo modo, o criminoso, delinquente, vigarista, fraudador ou jovem marginal desaparece sob a omnicamuflagem de «pessoa» ou de «autor» (como na Sociedade de Autores…).
– Outra expulsão do negativo faz-se através da hiper-correcta fórmula «em situação de»; não se deve dizer «prisioneiro», muito menos «presidiário», mas piedosamente, «pessoa em situação de detenção».
– Assinale-se igualmente, no registo bem-pensante e lacrimoso, a «infância maltratada».
– No que respeita às guerras de gangues — elas próprias suavizadas para «rixas» ou «confrontos» —, é uso generalizado recorrer às pesadas perífrases «episódios de disparos» ou «incidentes envolvendo armas de fogo», para ocultar palavras como «tiroteios» e «rajadas».
– Do mesmo modo, toda a verdadeira entidade delinquente-criminosa activa em França (bando… gang… matilha…) é designada como «rede», palavra-contentor que nada quer dizer, pois se tudo é uma rede (o BNP… a SNCF…), nada o é realmente. Assim, quando a prosa mediática afirma que uma rede criminosa roubou cobre da rede ferroviária da SNCF ou da rede de telecomunicações; ou que redes de extrema-direita reagiram a um caso de polícia, o leitor já nada compreende e desliga — talvez esse seja precisamente o objectivo da manobra.
A «rede» é inadequada em criminologia
Além disso, «rede» é, em criminologia, profundamente inadequado: uma rede, plana, une entidades horizontalmente. Ora, segundo o Gabinete dos Estupefacientes (relatório Ofast sobre o narcotráfico, Julho de 2025), «a estrutura piramidal das organizações criminosas está hoje claramente estabelecida: compartimentação rigorosa, missões especializadas, subcontratação, agilidade… adaptabilidade». Uma pirâmide (vertical) é o exacto oposto de uma rede (horizontal).
– Quanto ao homicídio, a novilíngua evita a palavra assassínio e prefere falar em execução; porém, só o Estado executa (uma sentença de morte).
– Em caso de morte — termo a evitar — a novilíngua diz «perder a vida» (como se perdem as chaves),
– Roubar é substituído por «surripiar» ou «subtrair»,
– A origem é camuflada pela palavra «pessoa», ou por uma menção empolada a um lugar qualquer; o elemento alógeno transforma-se então num «jovem de Castelsarrasin».
– Descodificador: «pessoa ameaçadora» = arruaceiro; «pessoa alcoolizada» = bêbedo; «bairro popular com desafios» = bairro perigoso.
– Código étnico dos meios de comunicação franceses: salvo excepção, se o malfeitor é alógeno, não há nome, fotografia ou origem; se a vítima é alógena, abundam as lamentações; se tem apelido francês de origem, exposição integral.
– Uso massivo de palavras-amortecedoras, asfixiantes: já não há «papua», mas o pesado «cidadão da Papua», expressão própria para desencorajar até o leitor mais atento.
– Outro tique de linguagem asfixiante, cujas sete sílabas inundam agora a prosa mediática: particularmente, em vez dos vivos e dinâmicos «muito» ou «bastante»,
– Menor oriundo de uma zona fora de controlo = «jovem de um bairro popular»,
– Tudo o que é difícil, árduo, pouco claro ou não evidente é reduzido ao qualificativo «complicado».
Eufemismos correntes da Novilíngua:
– Cegueira ou falhanço policial: «passou sob o radar»,
– Marginal irrecuperável: «peça menor» com uma «integração complicada no tecido local»,
– Tribo: «comunidade étnica»,
– Criminosos ineptos (mas nem por isso menos perigosos): «patetas».
Para estes próprios meios de «informação», esta mega-ocultação explica-se por uma lamentável «atracção bem real do leitorado», uma «apetência dos franceses por esta temática», todos estes pobres simplórios experimentando uma estranha «atracção-repulsa» pela «dimensão catártica» destes delitos. Felizmente! Os nossos espíritos mediáticos superiores sabem que «não há mais casos de polícia do que antigamente», que isso «não é um fenómeno novo»; e sabem, portanto, «manter distanciamento» e «dar sentido a coisas à partida anormais». Em suma, desde a «vanguarda do proletariado», nada foi esquecido e nada foi aprendido.
Não despertar a populaça
Esta ocultação não responde apenas à exigência política neoliberal, na qual o «círculo da Razão» governa para o bem de todos; importa, acima de tudo, não despertar nem excitar a populaça; a isto acrescenta-se uma necessidade publicitária concomitante, pois, evidentemente, uma plebe inquieta ou irritada consome menos. Mas esta ocultação cega essas elites, impede-as de admitir o menor erro, confere-lhes a certeza de terem razão contra tudo e contra todos; por fim, condena-as a um mundo paralelo, impedindo-as de reagir em tempo útil.
Para estes próprios meios de comunicação subjugados, o uso da novilíngua exaspera o leitorado; nos Estados Unidos — onde foi inventada e é amplamente utilizada — (Gallup, sondagem, Setembro de 2025), a grande confiança nos meios de comunicação (jornais, televisões, rádios) atinge apenas 28 % dos cidadãos (31 % em Setembro de 2024, 70 % em 1970). 36 % têm pouca confiança e 34 % NENHUMA confiança.
[1] Empresa pública de transportes de Paris (N.T.)
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