Hoje o comunismo já não existe, a esquerda parece desaparecida [...], embora seja uma casca vazia de ideias, valores, obras e autores.
por Marco Veneziani
Mas o que é esta famigerada hegemonia cultural, em que consiste? Para começar, o modelo ideológico da hegemonia cultural é delineado em Itália por Antonio Gramsci com a sua ideia do Partido como Intelectual Colectivo que conquista a sociedade e o consenso popular através da conquista da cultura. Esse modelo cultural torna-se a ponta de lança de referência para toda a esquerda ocidental; aplica-se nos países em que existe, mais ou menos, uma pluralidade de culturas que vão sendo gradualmente esvaziadas, deslegitimadas e sobrepostas. O modelo prático alimenta-se, porém, de duas experiências não democráticas: a totalitária, comunista, soviética, de Lenine a Trotsky, de Jdanov a Lukács, isto é, do ministro da cultura de Estaline ao filósofo-ministro na Hungria comunista. Mas há também uma experiência oculta como referência: a autoritária fascista italiana, com a organização da cultura e dos intelectuais, da escola e da Enciclopédia Italiana de Giovanni Gentile e Giuseppe Bottai, que constitui o único verdadeiro precedente ocidental de hegemonia cultural (embora a experiência fascista estivesse longe de ser monocórdica, sendo rica em heresias, variedade e dissonâncias). Em pano de fundo, porém, deve considerar-se também um propósito de substituição: para as massas, trata-se de substituir a formação católica, a rede de paróquias, a marca religiosa, por um novo catecismo laico e progressista, de matriz comunista. É o iluminismo levado às massas, segundo o projecto de Gramsci.
A história da hegemonia cultural marxista e laicista em Itália deve dividir-se em duas fases. A primeira remonta a Togliatti, que no imediato pós-guerra, em nome do gramscismo, parte à conquista da cultura, valendo-se dos intelectuais orgânicos militantes e de editoras próximas do Partido. Trata-se ainda de uma hegemonia não inteiramente invasiva, orientada para a cultura média-alta e sustentada pela reconversão de muitos “redimidos” do fascismo; diz respeito à edição, a alguns sectores da cultura académica, à cultura pública e histórica. Contra esta hegemonia abater-se-á a definição, igualmente nefasta, de “culturame” por parte do ministro democrata-cristão Scelba.
A hegemonia, tanto a gramsciana como a radical, possui duas características a sublinhar. Não atinge, senão indirectamente, os cumes da cultura italiana, mas consolida-se ao longo dos anos nas classes médias da cultura, no corpo docente, até conquistar boa parte da universidade e da escola, dos prémios literários, da imprensa e da edição, bem como do cinema e do teatro, da arte e da música. Nada de comparável, entenda-se, com a hegemonia fascista sob o signo de Gentile e D’Annunzio, Pirandello e Marinetti, Marconi e Piacentini, para nos ficarmos apenas pelos italianos.
Em segundo lugar, toca apenas de raspão a cultura de massas, que é mais moldada pelos novos meios de recreação popular e entretenimento nacional-popular, pelo desporto, pela música ligeira, pela televisão comercial, na qual, todavia, se insinuará de forma poderosa, com o tempo, a influência ideológica. Assim, o gramscismo permaneceu uma hegemonia da organização cultural, dos poderes culturais, dos quadros intermédios, sem vértices de excelência e sem verdadeira adesão popular. Mas os reflexos da sua influência infiltraram-se como mancha de óleo sobre temas civis e de costumes, até criarem um novo cânone de totens e tabus.
A hegemonia cultural fagocita as culturas afins, submete a cultura oportunista e terceirista, demoniza ou deslegitima as culturas adversas, de tipo católico, conservador, tradicional ou nacional. Ergue cordões sanitários para isolar os não-alinhados, desqualifica as culturas de direita, ontem rotuladas de aristocráticas e antidemocráticas, hoje de populistas e racistas-sexistas; há alguns anos prefere fingir que não existem, decretando a morte civil dos seus autores.
A segunda hegemonia cultural nasce, pelo contrário, na onda dos protestos juvenis de 1968; em Itália, o PCI torna-se o principal referente mas também, em parte, o alvo do extremismo vermelho. O afastamento da União Soviética é motivado, inclusivamente no interior do PCI, pela tentativa de captar aquela área radical, juvenil e marxista que não contestava a URSS em nome da liberdade, mas em nome da China de Mao e da sua Revolução Cultural, de Che Guevara e da Revolução Cubana, de Ho Chi Minh e do anti-americanismo, bem como de outros mitos exóticos e revolucionários. O mesmo vale para a esquerda europeia e para a New Left, a esquerda americana.
Depois de 68, sobem à cátedra os jovens até então contestatários, depois assistentes e rapidamente neobarões universitários. A fusão entre as duas esquerdas dá-se através de alguns órgãos de imprensa, de algumas editoras, e da transformação, não apenas em Itália mas em toda a Europa, da esquerda do comunismo para o radical-progressismo. Desta vez, a hegemonia estende-se muito para além da alta cultura, alcança a escola e a universidade, mas também o cinema, a televisão, o teatro, a arte, a linguagem. O projecto político consiste em transformar, modernizar e secularizar o velho PCI no projecto de um partido radical de massas. Mas conservando a sua hegemonia, o seu papel de guia e paradigma.
No plano cultural, Gramsci funde-se com autores da tradição socialista e liberal-socialista, como entre nós a linha que parte de Piero Gobetti e chega a Norberto Bobbio até Umberto Eco, que aplica a nova hegemonia cultural ao mundo dos meios de comunicação de massas e à sociedade contemporânea. Mas Gramsci continua a ser considerado o novo papa laico da hegemonia, embora póstumo; a definição de papa laico fora usada pelo próprio Gramsci para indicar o papel do filósofo liberal Benedetto Croce na transição do fascismo para o antifascismo. Nos anos de chumbo, isto é, na década de setenta, coexistem a hegemonia gramsciana de marca comunista e a hegemonia radical que a substitui, para a qual contribuem os veteranos de 68 e muitos grupos da esquerda extrema ou radical, do Manifesto ao Potere Operaio e à Lotta Continua. Se antes era o Partido a conduzir a dança, agora é o Intelectual Colectivo a definir a linha da esquerda e a guiá-la no plano da primazia cultural.
Esta segunda fase conhece um desenvolvimento mais recente, proveniente das experiências norte-americanas e nórdico-europeias (a Suécia, por exemplo): a transformação da hegemonia comunista em hegemonia do politically correct. Agora que o comunismo já não existe, pelo menos no Ocidente, no seu lugar existe um outro PC, que já não é a sigla do Partido Comunista mas do Politically Correct. Trata-se do cânone ideológico que impõe uma nova intolerância a favor de homossexuais, aborto, feministas, imigrantes, negros, clandestinos; que mede e censura o léxico; que indica modelos de referência conformes à ideologia correctiva.
Dediquei muitas páginas do meu último livro, La Cappa, dedicado à crítica do presente, para aprofundar o tema da cancel culture e do seu antecedente, o politically correct. O principal mal de ambos é a redução da história ao presente, do diferente ao conforme, da realidade ao esquema ideológico prefabricado. A cancel culture, que deve traduzir-se como cancelamento da cultura — e não, como fazem alguns, cultura do cancelamento, porque se trata de um fenómeno bárbaro e destrutivo —, é a incapacidade de enfrentar mundos diferentes, de confrontar parâmetros distintos dos próprios, de compreender que cada época tem as suas medidas, e que ninguém pode erguer-se como juiz final de qualquer outra época ou cultura. E as grandezas e as infâmias não se medem apenas pelo metro estreito do nosso maniqueísmo vigente. Mas, se a condenação do passado em nome do PC já é, por si só, aberrante, torna-se miserável a sua eliminação ou remoção, sem sequer a discutir.
A cancel culture é a extensão retroactiva do politically correct, que, por seu lado, se ocupa dos comportamentos, linguagens e costumes presentes. Defini o politically correct como a Capa ideológica do nosso tempo: é o moralismo na ausência de moral, o racismo ético na ausência de ética, a intolerância na ausência de religião e o antifascismo na ausência de fascismo. O objectivo declarado na origem era proteger as minorias mais frágeis, ofendidas e oprimidas, mas foi-se progressivamente invertendo, até criar uma couraça de imunidade — isto é, de impossibilidade de crítica — para determinadas categorias, já indicadas, um supremacismo invertido, para finalmente se voltar contra tudo aquilo que não entra nessas diversidades protegidas: a começar pela família, pelos povos, pelas tradições, pela natureza, pela realidade, pelo homem comum. Mas funciona também como terrível “niveladora”, porque pune e deprime toda a excelência, toda a grandeza, toda a beleza. O politically correct mata a realidade e desmotiva toda a procura de qualidade, de verdade, de excelência. Em La Cappa traduzi estes novos cânones de hipocrisia numa verdadeira manipulação cultural, numa fábrica de opiniões prefabricadas e sobretudo identifiquei a censura que daí decorre relativamente a quem não se alinha.
Vivemos, não apenas em Itália, um regresso da censura militante, do controlo ideológico e, por vezes, até judicial, da vigilância total que se abate sobre as opiniões livres, sobre os juízos históricos divergentes dos preconceitos, sobre as divergências de cânones e pensamentos, sobre as opiniões expressas nas redes sociais. E se esta vaga repressiva for depois conjugada com os dispositivos de emergência aprovados ora para a pandemia, ora para a propaganda de guerra na Ucrânia, os resultados são um regime de vigilância e a antecâmara de um sistema totalitário, embora em forma soft, edulcorada, com a aparência retórica da democracia liberal. Escorregámos da sociedade aberta de que falava Karl Popper para a sociedade coberta, sob controlo, vigiada pelos guardiães do politically correct. A União Europeia abraçou em larga medida este novo cânone e impõe-no através das suas directivas, das decisões do tribunal europeu e de outras formas de orientação.
A censura é sempre inaceitável; para combater as falsificações, as calúnias e as difamações bastam os códigos civis e penais.
A hegemonia cultural prejudica a cultura, é inútil dizê-lo; danifica não apenas a sua liberdade, mas também a sua qualidade, dignidade e variedade. Mas a cultura sofre igualmente com o desleixo, o desprezo, a subvalorização. No fim, quem não se alinha com a hegemonia encontra-se entre o fogo dos intolerantes e o gelo dos indiferentes. A pressão psicológica é forte, e frequente é a tentação de evitar confrontos, aceitar, por comodidade, os novos códigos ideológicos.
Nos últimos tempos ocorreram duas coisas: a hegemonia tornou-se mais sombria, acentuou-se a sua intolerância punitiva. E a sua valência cultural tornou-se subcultural, mediática, não teórica mas ética, não reflexiva mas correctiva, ideológica mas sem elaboração de ideias. O seu campo alargou-se a todos os outros meios de comunicação, até fornecer uma Narrativa Única do Presente e do Passado.
Em que consiste hoje a hegemonia cultural? Numa mentalidade dominante que herda do comunismo a pretensão de Verdade Inelutável (esse é o Progresso, não vos podeis furtar ao seu desfecho) e o seu monopólio por parte de quem representa esse lado. Estão sempre do lado certo da história, mesmo quando erram clamorosamente; e podem assumir posições até ontem condenadas sem necessidade de justificar a mudança. Porque estão do lado “certo” da história. Essa mentalidade transformou-se em código ideológico e etiqueta social, conhecida como politically correct, intolerância permissiva e fanatismo progressista.
Quem fica de fora deve sentir-se em falta, deve justificar-se, é considerado deslocado e fora do tempo, reduzido a resíduo do passado ou anomalia patológica. Mas deixemos de lado as denúncias e condenações e coloquemos a pergunta de fundo: afinal, esta hegemonia cultural o que produziu em termos de obras e inteligências, que marca deixou na cultura, na sociedade e nos indivíduos? Tenho dificuldade em recordar obras verdadeiramente memoráveis e significativas desse sinal que tenham marcado a cultura e a sociedade. E o juízo torna-se ainda mais estridente se compararmos os autores e as obras, com razão ou sem ela identificados com a hegemonia cultural, e os autores e obras que caracterizaram o século. Todas as excelências em qualquer domínio, da filosofia às artes, da ciência à literatura, não entram na hegemonia cultural e frequentemente opõem-se-lhe. Poderia fazer uma longa e detalhada lista de autores e obras fora da ideologia radical, outrora marxista-progressista, quando não contra ela.
A hegemonia cultural funcionou como dominação e ostracismo, mas não produziu nem promoveu grandes ideias, grandes obras, grandes autores. Pelo contrário, surge a fundada suspeita de existir um nexo entre a degradação cultural da nossa sociedade e a hegemonia cultural radical. Os círculos culturais, os lóbis e as seitas intelectuais dominantes deixaram a sociedade à mercê da hegemonia subcultural e do vulgar. E o intelectual orgânico e colectivo produziu, como reacção e efeito, o intelectual individualista e autista que não incide sobre a realidade mas se refugia no seu narcisismo deprimido. Mas porque aconteceu isto? Talvez porque tenha prevalecido um clero intelectual de medíocres funcionários, ainda que académicos? É-nos estranho o racismo cultural, aliás bastante praticado à esquerda; não acreditamos, por isso, que seja uma questão “étnica”, relativa à raça dominante da cultura. O problema é de conteúdos: a hegemonia cultural não veiculou ideias, valores e modelos positivos, mas conseguiu dissolver ideias, valores e modelos positivos sobre os quais assenta a nossa civilização. Não funcionou no plano construtivo, as suas utopias naufragaram, a começar pelo comunismo; mas funcionou no plano destrutivo. Corroeu tradições e culturas, civilizações e princípios de vida, senso comum e enraizamento popular. E abateu-se sobre princípios basilares da vida pessoal e comunitária, ligados ao sentido religioso, ao vínculo social e aos laços familiares. Deus, Pátria e família, para resumir.
Se a emancipação foi o seu valor fundador e a libertação o seu critério principal, o resultado foi uma formidável e quotidiana demolição de culturas e modelos ligados à família, à natureza, ao costume, à vida e ao nascimento, ao sentido religioso e à percepção mítica e simbólica da realidade, ao vínculo comunitário, às identidades e raízes, aos méritos e capacidades pessoais. Conseguiu dissolver um mundo, deprimir e marginalizar culturas antagonistas, mas não conseguiu gerar mundos novos. O resultado desta desertificação é que não existem obras, ideias, autores que sejam modelos de referência, pontos de partida e fontes de nascimento e renascimento. A hegemonia cultural funcionou como dissolução, não como solução. Também no plano social produziu mais alienação, isolamento e desagregação.
Hoje o comunismo já não existe, a esquerda parece desaparecida, mas subsiste essa capa asfixiante, embora seja uma casca vazia de ideias, valores, obras e autores. O resultado final é que a hegemonia cultural constitui um poder forte com um pensamento fraco (e não no sentido indicado por Vattimo e Rovatti); enquanto a árvore da nossa civilização, com as suas raízes, o seu tronco milenar e as suas ramificações na vida real, é um pensamento forte mas com poderes fracos na sua defesa.
A primeira é uma igreja com um episcopado em funções e um vasto clero, mas já sem doutrina, religião ou perspectiva de salvação; inversamente, a segunda é um pensamento forte, com uma tradição milenar, mas sem dioceses nem paróquias… Assim vivemos uma guerra assimétrica entre um poder forte mas dissolutivo e uma civilização ainda não decadente no plano espiritual, mas indefesa e sucumbente no plano prático e mediático. A prevalência actual da barbárie de regresso deriva em grande medida deste desequilíbrio entre uma cultura hegemónica mas niilista e uma civilização vencida ou talvez já perdida. O renascimento tem dois adversários: a cultura niilista hegemónica e o niilismo sem cultura da vulgaridade de massas.
Mais difícil se torna, por fim, a questão dos possíveis remédios, das possíveis respostas a esta dominação “globalitária”. Porque está em jogo a hegemonia ideológica imposta há décadas, em sentido radical-progressista, que se sobrepõe à sociedade como uma cúpula, também em sentido mafioso, e se estende para além das fronteiras nacionais; e estão em jogo os nexos, as relações fortíssimas entre essa hegemonia e os poderes ligados ao reino da informação, da comunicação, da cultura, mas também à magistratura, ao establishment económico-financeiro e burocrático-dirigente transnacional.
Essa fusão, esse bloco, impede a oposição de uma cultura cívica e de uma sensibilidade diversa, ligada, por exemplo, ao respeito pela Natureza, pelas Tradições, pela Qualidade, pelas Identidades culturais, populares, cívicas e religiosas. Ainda que, importa dizê-lo, não existam forças organizadas, muito menos partidos, que tenham pelo menos tentado construir redes, estruturas e narrativas alternativas para uma resposta orgânica. Falta sensibilidade, visão estratégica, capacidade de antecipação para uma contra-ofensiva adequada relativamente a esse predomínio. Uma cultura de tipo conservador, por exemplo, capaz de defender a civilização, a natureza, a realidade, a qualidade e a beleza. Não resta então senão o uso da inteligência ao nível pessoal, os centros culturais e os grupos, a circulação das ideias.
Para perfurar a Capa é necessária a espada da inteligência, do pensamento crítico e daqueles que não se contentam com o que lhes é servido pelo convento. A Capa e a espada, para usar uma linguagem mítica. E com essa espada dar o assalto ao céu, desta vez não para fazer cair os deuses e derrubar todo o princípio superior, como aconteceu com Marx no tempo da Comuna de Paris e, mais recentemente, no tempo da Contestação de 68; mas para o libertar da camada de hipocrisia, uniformidade e vigilância que nos oprime e impede de ver livremente e plenamente o céu.
