por João Pereira dos Santos
Uma tentativa de olhar neutro para a situação actual da civilização europeia leva-me a conclusões desconfortáveis. Não gosto delas. Preferia que fossem falsas. Mas é o que é.
A substituição da civilização europeia por uma matriz cultural islâmica não é apenas possível. Parece-me provável, se nada de estrutural mudar. E a ironia final pode ser esta: a civilização europeia sobreviver melhor nos Estados Unidos do que na própria Europa.
O motivo é simples: a reacção europeia é negativa. A Europa sabe o que não quer, mas já não sabe o que quer.
O lado liberal sabe que não quer fronteiras, nacionalismo, autoridade tradicional, religião, masculinidade ou família tradicional. Mas tornou-se tão niilista que deixou de ser liberal e nem se apercebe. A Europa “liberal” regula tudo, fiscaliza tudo, burocratiza tudo, torna caríssimo criar uma empresa e só permite aos ricos empreender com segurança. E mesmo esses, quando podem, preferem os Estados Unidos.
O lado conservador sabe que não quer substituição populacional, islamização, feminismo, colapso da família, decadência urbana, jovens desenraizados e perda de identidade nacional. Mas também raramente oferece uma alternativa positiva, concreta e mobilizadora. Sabe rejeitar, mas não sabe o que propor. E esse vazio é fatal.

Nos Estados Unidos, a reacção política consegue mobilizar jovens rapazes porque lhes promete liberdade, família, rendimentos, orgulho, propriedade, autonomia e futuro. Pode-se gostar ou não, mas há ali uma proposta civilizacional.
Na Europa, não há equivalente com a mesma força, sobretudo para os jovens rapazes. Ou melhor: haver, há. Chama-se Islão.
O Islão oferece pertença, disciplina, hierarquia, família, papel masculino, sentido de vida e identidade. Pode ser uma visão incompatível com a civilização europeia, mas é uma visão. E uma visão forte derrota facilmente uma burocracia sem valores.
A Europa vive hoje sob um regime tirânico que regula a tampa das garrafas, multiplica formulários, aumenta custos, castiga quem tenta produzir e chama a isso civilização. Nos Estados Unidos, esta loucura seria impensável, porque chocaria com a visão que os americanos ainda têm da sua própria civilização. Na Europa aconteceu porque substituímos civilização por burocracia.
O debate europeu já não é: que civilização somos? Em que acreditamos? Que família queremos proteger? Que liberdade queremos garantir? Que futuro queremos entregar aos nossos filhos?
O debate europeu é: que burocracia queremos?
A reacção exagerada à Segunda Guerra Mundial ajudou a criar uma elite de eunucos administrativos, formada por uma academia que produziu gente capaz de acordar e adormecer a pensar em carimbos, formulários e procedimentos. A Europa está em declínio demográfico, industrial, energético, militar, tecnológico e cultural, mas a elite continua fascinada com a gestão do procedimento. O continente arde, e o burocrata verifica a conformidade da mangueira antes de autorizar a sua saída para combater o incêndio.
Por isso, não basta aos movimentos contestatários do regime pré-soviético europeu dizerem o que não querem. Não basta rejeitar imigração em massa, islamização, censura, impostos absurdos, burocracia, criminalidade, cidades irreconhecíveis ou elites traidoras. É preciso dizer o que querem.
Sobretudo aos jovens rapazes que perderam poder económico, prestígio, família, papel social e sentido de vida. Uma civilização que não lhes dá uma razão para construir e proteger, acaba por vê-los procurar essa razão noutro lado.

Andrew Tate é um sintoma. Continua a crescer como ícone cultural e converteu-se ao islamismo. A manosfera, que tanto preocupa a esquerda, já respira valores islâmicos sem o perceber: autoridade masculina, disciplina, família tradicional, rejeição do feminismo, hierarquia, controlo sexual da mulher, poligamia, ordem moral e hostilidade ao liberalismo decadente.
A ironia seria deliciosa, se não fosse trágica: a esquerda combate obsessivamente a masculinidade europeia, mas protege formas muito mais duras de patriarcado quando vêm embrulhadas em diversidade.
A direita europeia, muitas vezes, limita-se a indignar-se. Tem razão em muita coisa, mas indignação não chega. Diagnóstico não chega.
A Europa precisa de voltar a dizer “sim” a si própria.
Sim à família. Sim à liberdade. Sim ao rendimento. Sim à casa. Sim ao orgulho. Sim à responsabilidade. Sim à comunidade. Sim à pátria. Sim ao futuro.
E precisa de tornar isso materialmente possível, não apenas sentimentalmente bonito. Se não o fizer, outras civilizações ocuparão o vazio.
Uma civilização que já não sabe o que quer acaba por ser substituída por outra que ainda sabe.

