Torna-se necessário rever os conceitos fundamentais de Carl Schmitt em torno da sua «Teoria da Guerrilha» como forma de resistência e dissenso radical.
por José Luis Ontiveros
A cultura é um campo de batalha e a sua conquista é uma necessidade que precede a tomada do poder; tal afirmação baseia-se na revisão que Antonio Gramsci fez do materialismo dialéctico, quando passou, sem que os seus críticos o tenham advertido, da sua etapa marxista-leninista para a do actualismo do filósofo fascista Giovanni Gentile, autor da vertente hegeliana de destra do Estado Totalitário, alma da alma, como o define.
Esta secreta conversão ideológica dá-se paradoxalmente quando Gramsci está recluso na Ilha de Útica e escreve os seus “Cadernos do Cárcere”, onde transpõe para o marxismo clássico os valores do fascismo revolucionário que haviam alcançado em Itália um desenvolvimento político próprio, como Lenine predissera ao afirmar que Mussolini era o único revolucionário capaz de tomar o poder em Itália.
Desta forma, o trabalho político do partido comunista e da ditadura do proletariado passa a ser rejeitado pela vanguarda dos intelectuais em relação ao povo e ao seu ethos cultural (orientação ética de uma cultura).
Alain de Benoist adverte que Gramsci não chega a delinear a identidade profunda da mentalidade colectiva, embora desenvolva temas de interesse.
De Gramsci surge a diferença entre sociedade civil e sociedade política; a hegemonia ideológica; a organização do consentimento; o bloco histórico; a persuasão permanente; e aquilo que poderia ser resgatável do marxismo, na medida em que não é o seu derivado mas a sua réplica: Gramsci é assim um marxista filofascista, afirmação algo escandalosa que se funda na importância que atribui à superstrutura ideológica e que corresponde ao actualismo do acto do pensamento de Gentile, ou pensamento pensante, em que a ideia determina o mundo e não a realidade social.
Palavra fundadora
A importância da cultura, dos seus hábitos, da mentalidade colectiva, definiu-se numa esfera de hegemonia dos novos mandarins ou intelectuais orgânicos, que têm de passar pelas vacinações que certifiquem a sua correcção política, a qual muitas vezes acaba por consistir em fazer parte do aparelho da intelligentsia, não enquanto criadores de valores, mas pela sua capacidade de reprodução dos paradigmas sistémicos ou princípios comuns e implícitos que determinam a apreciação social da sua importância.
Por isso, torna-se necessário rever os conceitos fundamentais de Carl Schmitt em torno da sua Teoria da Guerrilha [1] como forma de resistência e dissenso radical sobre os fundamentos da civilização demoliberal e do seu detrito marxista, na medida em que, no mundo do “pluralismo”, subjaz uma tirania do pensamento único.
O labor do guerrilheiro é o da irregularidade perante forças opostas esmagadoras e uniformizadas; a sua mobilidade táctica no ataque e no recuo, travando a luta no seu próprio terreno; a intensidade do seu compromisso ideológico perante uma sociedade céptica quanto aos seus próprios princípios orientadores; e o sentido de enraizamento e apego à terra e ao sangue, que define o sentido telúrico. O combate do guerrilheiro trava-se nos espaços em que vai desalojando as forças adversárias do seu propósito de extermínio e da sua guerra total; perante o poder da inimizade declarada como ontologia e aniquilamento, o guerrilheiro cultural desempenha-se com precisão e inteligência. A sua vitória é a própria lealdade a uma ordem de valores e o seu reconhecimento consiste em travar, com sentido heróico, uma luta que poderá acarretar o descrédito e a maldição. Nesse sentido, o seu papel é o de uma rebeldia indeclinável e de uma exigência interna de autenticidade.
Tal desafio é o campo em que vive e morre o guerrilheiro sem depor a sua postura crítica e o seu radical inconformismo. A sua história é enfrentar, no combate da invisibilidade, a sua própria sombra e erguer sobre o deserto a palavra fundadora.
[1] Existe uma tradução portuguesa publicada na Colecção Biblioteca Arcádia de Bolso/Política da Editora Arcádia. Lisboa. 1975. (N. T.)
José Luis Ontiveros (1954-2015).
Escritor, ensaísta, romancista, poeta e jornalista independente. Discípulo do escritor anarquista mexicano Rubén Salazar Mallén. Contribuiu para importantes projetos culturais alternativos em Espanha desde a década de 1970, nomeadamente os seus escritos e contributos para a revista espanhola Punto y Coma. O seu primeiro livro, El cuaderno negro (O Caderno Negro), apresenta um prólogo de Rubén Salazar Mallén. É um representante da Nouvelle École no México. Estudioso de Jünger, Mishima e Pound, sobre os quais escreveu o seu polémico livro Apología de la Barbarie (Apologia da Barbárie, Hugin Editores, 1997). Possui também conhecimentos sobre Nietzsche, Evola, Guénon, Tolkien e outros. Colabora com a revista chilena Ciudad de los Césares (Cidade dos Césares).
Publicou em Espanha, Itália, França, Portugal, Chile, Argentina e México. Entre os seus livros contam-se El húsar negro (O Hussardo Negro), La espada y la gangrena (A Espada e a Gangrena), Metapolítica y conquista del Poder (Metapolítica e a Conquista do Poder) e Cantos prohibidos de Ezra Pound (Cantos Proibidos de Ezra Pound), entre outros. Vencedor do Prémio Nacional de Contos Juan Vicente Melo, no México, pelo seu conto “A Maldita Obediência do Médico” e do Prémio de Ensaio Ernesto Jiménez Caballero, em Espanha, pelo seu conto “A Baleia Feliz”. Presidente da Sociedade de Escritores do México e do Japão.
