Reflexões sobre a próxima viagem do Papa à Argélia.
por Bernard Lugan – in Afrique Réelle
Ao visitar a Argélia, em Abril próximo, o Papa Leão XIV, ele próprio membro da Ordem de Santo Agostinho, seguirá os passos do seu mestre espiritual, o berbere Santo Agostinho. Agostinho nasceu a 13 de Novembro de 354, em Tagaste, actual Souk Arras, e faleceu a 28 de Agosto de 430, em Hippo Regius, actual Annaba (antigamente Bóne). No entanto, o pontífice empreenderá uma viagem singular. Singular, com efeito, por cinco razões principais:
1) O chefe da Igreja Católica fará uma visita oficial à Argélia, onde, para além dos migrantes da África subsariana e de alguns diplomatas, os católicos praticamente desapareceram, expulsos em 1962 por uma limpeza étnica orquestrada pelos fundadores do actual regime.
2) O Papa visitará a Argélia, onde a sua própria Igreja, tendo adoptado voluntariamente a dhimmitude, abandonou a própria ideia de conversão. Limitando-se ao papel de “testemunha”, chega ao ponto de desencorajar os muçulmanos que desejam juntar-se a ela para não “ofender” as autoridades, que, no entanto, são tão “tolerantes” na Argélia. “Tolerantes”, de facto, porque neste país onde a Constituição reconhece a liberdade de culto, a apostasia, punível com pena de prisão de dois a cinco anos e multa de 500 mil a 1 milhão de dinares, resulta na morte social dos “traidores”.
3) O cristianismo existe na Argélia, mas já não é o catolicismo… Uma vez que este abandonou a sua missão, a sua vocação, os movimentos protestantes e evangélicos substituíram-no. E o mínimo que se pode dizer é que o Papa não é para eles uma autoridade religiosa…
4) Na Argélia, onde as centenas de igrejas que eram tão vibrantes antes de 1962 foram encerradas, demolidas, saqueadas, profanadas ou transformadas em mesquitas, onde os cemitérios cristãos foram profanados e destruídos, a visita do Papa será uma oportunidade para um regime nos seus últimos suspiros melhorar a sua imagem internacional. A narrativa oficial, aliás, já está bem ensaiada: “A Argélia é a legítima guardiã do património cultural e espiritual de Santo Agostinho”… Tal hipocrisia, que obviamente enganará os eternamente crédulos, será naturalmente transmitida em França pelos comparsas e agentes pagos de Argel.
5) O Papa será finalmente recebido num país onde, como resume um relatório da ONG International Christian Concern: “O governo considera o cristianismo um perigo para a identidade islâmica argelina e está a tentar por todos os meios regular a Igreja para a reduzir a nada”. Um país em que as autoridades associam o cristianismo a uma forma de “traição à identidade” e de lealdade ao Ocidente. Em 2010, o então Ministro dos Assuntos Religiosos, Bouabdellah Ghlamallah, declarou: “Ninguém quer minorias religiosas na Argélia, porque isso poderia ser usado como pretexto para a interferência estrangeira sob o pretexto de proteger as minorias”.
Mas porquê escolher a Argélia, onde, desde 1962, tudo foi feito para erradicar o que, directa ou indirectamente, pudesse pôr em causa o dogma da unidade muçulmana do país? Dizem-nos que é para reavivar o diálogo cristão-muçulmano. Certamente, mas não existiam países africanos muçulmanos onde o diálogo cristão-muçulmano é uma realidade viva? O Vaticano poderia ter considerado, por exemplo, o Egipto, Marrocos ou mesmo o Senegal…
A edição de Abril de 2026 da Afrique Réelle, que será dedicada em grande parte à história do cristianismo no Norte de África, será estruturada em torno de vários temas principais, incluindo:
– La réalité de la christianisation des Berbères à l’époque romaine.
– Les trois papes et les grandes figures chrétiennes berbères.
– Pourquoi les Coptes, les Maronites et tous les chrétiens d’Orient ont-ils maintenu leur religion malgré l’islamisation, et non les chrétiens du Maghreb?
– Y eut-il des survivances du christianisme après la conquête arabo-musulmane du VIIIe siècle?
Bernard Lugan (1946) é um historiador africanista com vasta obra de referência, nomeadamente a monumental História de África – Das Origens à Actualidade, em dois volumes (1376 págs.), editada pela Bookbuilders. Dirige a publicação online Afrique Réelle que pode ser subscrita aqui.
