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A fixação do Estado profundo

A fixação do Estado profundo

Por Gabriele Adinolfi in No Reporter

O que levou os antiamericanos viscerais a torcer pelo Presidente dos Estados Unidos?

Porque acreditaram na ideia de que ele está a lutar contra o Estado Profundo e, portanto, contra a globalização.

Por causa desta crença, argumentam que Trump está a lutar contra a própria americanização, embora o seu slogan seja “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Novamente).

O que há de concreto nesta narrativa?

Comecemos pelo Estado Profundo, a descoberta sensacional dos populistas nos últimos vinte anos.

O termo “Estado profundo” (Deep State) é utilizado de forma ambígua e com nuances variadas, dependendo do contexto. Em suma, refere-se à ideia de que, para além dos governos eleitos e das instituições oficiais, existe uma rede oculta de poder, composta por aparelhos burocráticos, militares, de inteligência ou de elite económica, capaz de influenciar ou mesmo dirigir a política de um Estado.

Esta descoberta só é útil para aqueles que são totalmente analfabetos em história, sociologia e política.

Independentemente do que se pense sobre os méritos ou defeitos, os limites ou oportunidades da democracia eleitoral, nunca aconteceu, nem poderia acontecer, que as estruturas de suporte do Estado (burocracia, empreendimentos económicos) tenham mudado ou sido transformadas pelo voto.

Mesmo em sistemas onde o poder era extremamente forte, como a Alemanha do III Reich, a burocracia tinha vida própria e era extremamente difícil de permear e reprogramar.

Que dirá hoje!

O "Estado profundo" sempre existiu.

Mesmo os governos mais pequenos e centralizados precisam de ter funcionários, militares, juízes, diplomatas e administradores. Estes aparelhos, por necessidade, sobrevivem aos ciclos eleitorais e às mudanças de regime: um funcionário de ministério ou um oficial do exército mantém-se em funções mesmo que o presidente ou o rei mudem.

Isto significa que existe sempre um “núcleo permanente” que garante a continuidade do Estado, para além de escolhas políticas contingentes.

O poder económico sempre influenciou o poder político. Desde a Antiguidade (patrícios em Roma, grandes mercadores nas repúblicas marítimas, aristocracias proprietárias de terras na era feudal) até aos Estados contemporâneos, os grupos com recursos económicos têm tido as ferramentas para influenciar ou dirigir a política.

O entrelaçamento do poder político e económico não é um desenvolvimento recente, mas uma constante. A questão é de grau, não de presença/ausência. O que varia de um Estado para outro é a medida em que estes aparelhos são capazes de agir de forma autónoma — ou seja, a medida em que podem resistir ou adaptar-se às decisões dos governos eleitos.

Em alguns casos (por exemplo, regimes militares ou sistemas com fortes lobbies económicos), o aparelho permanente pode ter uma influência dominante. Noutros, a sua influência é mais limitada e mais bem regulada.

O que há de especial no "Estado profundo" da nossa era?

Há uma diferença em relação ao passado. Não porque o “Estado profundo” se tenha apropriado do poder, mas porque a sociologia do poder mudou. Por muitas razões (taxa de natalidade, imigração, mercados abertos, facilidade de viajar), a tomada de poder a partir de cima diminuiu em todo o lado.

Além disso, existe a tendência, iniciada na década de 1980, denominada de poder subsidiário. Ou seja, a desregulação institucional, com os Estados a intervirem o menos possível, deixando a tarefa para as administrações locais ou para os indivíduos, incluindo as ONG.

Entrámos numa fase — avidamente perseguida pelas nações não ocidentais — em que os Estados-nação se encontram a meio caminho entre o local e o global. As interacções económicas, culturais e de comunicação, as cadeias industriais e de distribuição, produziram este estado de coisas, que ainda levanta questões sobre o futuro papel do Estado, mas certamente não sobre o do “Estado profundo”.

O próprio braço de ferro de Trump prova que o enredo é tão complexo que cada movimento que faz tem uma reação indesejada, tanto que está a navegar à vista.

O "Estado profundo" é um partido ideológico, a soldo de uma elite não especificada?

Em 2002, escrevi em Nuovo Ordine Mondiale tra imperialismo e Impero (Nova Ordem Mundial entre o imperialismo e o Império) que os lobbies estavam a ganhar terreno numa sociedade dissociada. Não apenas os extremamente poderosos do sector financeiro e dos media, mas qualquer forma de organização minoritária.

Expliquei também que nem todos os financeiros ou executivos dos media têm a mesma ideologia e a mesma paixão. Mas as minorias internas ditam linhas, que, embora não sejam partilhadas por todos, se tornam uniformes.

Dei o exemplo da evolução, confirmada desde então, dos lobbies LGBT que acabariam por impor a sua causa por ser a única em jogo.

Essencialmente, a grande maioria dos membros do “Estado profundo” ou dos lobbies é maleável, mas as minorias organizadas conseguem transformar tudo com determinação, tanto que o ” Estado profundo ” nunca é neutro.

Trata-se de minorias que operaram e continuam a operar de acordo com a lógica de Gramsci e, frequentemente, com a lógica organizacional de Lenine. Sejam eles LGBTQ+, comunistas, clérigos, membros de comunidades judaicas ou islâmicas ou grupos da sociedade aberta, os métodos são os mesmos.

Na ausência de equilíbrio de poder, as minorias apropriam-se também do poder institucional. Considere-se, em particular, a disfunção do poder político causada por grupos de juízes que influenciam fortemente as políticas institucionais que mantêm reféns.

O choque entre o povo e o "Estado profundo" ou as elites faz pouco sentido.

Algumas das medidas nostálgicas de reafirmação propostas pelo populismo americano têm certamente o mérito de colocar a questão na ordem do dia e exacerbar tensões, reduzindo o financiamento às minorias organizadas que operam ideologicamente.

Para um ponto de viragem, no entanto, a antítese não só é insuficiente, como também está condenada ao fracasso.

O “Estado profundo” não pode ser desmantelado, pois isso seria como desmantelar a ordem social e estatal. As minorias sediciosas que poluem o aparelho podem ser alvo, mas com base em quê? Não podem ser alvo identificando um inimigo a remover (fascista, antifa, judeu, anti-semita, maçon, satanista, globalista, jihadista, comunista).

Se queremos rectificar o Estado e regenerar a sociedade, na minha opinião, devemos intervir na prática, sem deixar o oligopólio da cultura e da administração às minorias organizadas hostis.

Como tenho vindo a argumentar há um quarto de século, para contrariar a subversão, a excitação e a demagogia do lobby são de pouca utilidade, a não ser que se estabeleça uma lógica organizacional para aquilo a que chamo o “lobby do povo”.

A natureza abomina o vazio: se não entrarmos activa e frutuosamente na luta, não haverá possibilidade de rectificação. A não ser que a Providência actue. Mas este é o domínio da fé, não do compromisso político.