"Entre as flores, a cerejeira; entre os homens, o samurai."
Isto poderia resumir Yukio Mishima, uma das figuras mais radicais e incompreendidas do século XX. Não apenas um autor, mas a personificação de uma visão do mundo, representa uma das últimas tentativas de contrapor a modernidade decadente com uma ideia superior de forma, disciplina e destino.
No cerne do seu pensamento está a percepção de uma ruptura irreversível: a que existe entre o Japão tradicional, enraizado numa ordem sagrada e hierárquica, e o Japão do pós-guerra, agora absorvido pelo paradigma ocidental, dominado pelo materialismo, pelo individualismo e pelo culto da quantidade. Tal como outros espíritos afins do século XX, Mishima vê a modernidade não como progresso, mas como decadência, uma perda do sentido do transcendente.
Neste sentido, o seu culto do corpo e da disciplina não é narcisismo, mas ascetismo. O corpo torna-se um instrumento de elevação, uma forma visível de uma vontade interior que rejeita a passividade moderna. Em oposição ao homem contemporâneo — desencarnado, sem raízes, imerso na abstração — Mishima defende um regresso à unidade do espírito e da acção.
Esta visão encontra a sua referência implícita no código samurai, no bushido, entendido não como uma simples ética guerreira, mas como um caminho para a plena realização. Viver, então, significa preparar-se para a morte, não num sentido niilista, mas como um acto supremo de fidelidade a um princípio.
O acto final de Mishima — o seppuku, cometido após o seu falhado apelo às forças armadas — não pode ser compreendido em termos de história ou de psicologia. Em vez disso, surge como um acto simbólico, uma afirmação extrema da coerência entre o pensamento e a vida. Numa época dominada pelo compromisso e pela ambiguidade, escolheu o caminho do absoluto.
Tal como os pensadores da Tradição, Mishima parece sugerir que a crise do mundo moderno não é meramente política ou cultural, mas espiritual. A perda do sentido do sagrado, a redução da existência a uma função económica, o esquecimento da hierarquia e da forma: tudo isto conduz a uma civilização desprovida de centro.
E, no entanto, precisamente na radicalidade do seu testemunho, surge também uma possibilidade. Não a de inverter o curso da história — caminhando agora para a sua fase terminal — mas a de manter viva, em alguns, uma chama interior. Uma lealdade invisível que resiste à decadência.
Mishima não foi um homem do seu tempo. Pelo contrário, foi um dos que, mesmo na noite da modernidade, continuam a indicar — com palavras e com sangue — o caminho para uma verticalidade perdida.
