por João Martins
Se há datas que pertencem à eternidade de um povo, o dia 24 de Junho de 1128 é uma dessas datas. Há 898 anos, nos campos de São Mamede, junto a Guimarães, travou-se mais do que uma batalha entre homens. Travou-se um combate entre destinos. De um lado, as forças que pretendiam manter o Condado Portucalense subordinado à influência galega; do outro, a vontade férrea de um jovem príncipe que ousou imaginar uma pátria onde ainda apenas existia uma fronteira imprecisa do mundo medieval.
Nessa tarde, D. Afonso Henriques não conquistou apenas uma vitória militar. Conquistou a possibilidade de Portugal existir.
Por isso se diz, com inteira justiça, que aquela foi a primeira tarde portuguesa.
Quando o pó dos cavalos assentou e o estrondo das armas se extinguiu, algo de novo emergiu da terra portucalense. Não era ainda um reino reconhecido, nem uma nação plenamente constituída. Mas era já uma vontade colectiva de autonomia, um impulso irreprimível de independência que haveria de atravessar décadas de guerras, negociações e sacrifícios até alcançar, em 1179, o reconhecimento formal do Reino de Portugal pela Santa Sé.
São Mamede foi, assim, o primeiro passo de uma caminhada extraordinária. Foi o momento fundador de uma das mais antigas nações da Europa. Foi o instante em que um povo começou a escrever a sua própria história com a indelével tinta da coragem, tenacidade e fé.
E contudo, quase mil anos depois, a memória desse feito parece condenada ao silêncio. As instituições que deveriam honrar os alicerces da nacionalidade tratam frequentemente esta data com uma indiferença difícil de compreender e impossível de justificar. Enquanto outros povos celebram com orgulho os episódios que lhes deram origem, Portugal parece cada vez mais inclinado a esquecer os seus.
Não se trata apenas de negligência. Trata-se de um desdém institucional que revela uma preocupante tendência para o apagamento da nossa memória histórica, da nossa identidade comunitária e da consciência do caminho percorrido. Alguns encaram a história nacional como um embaraço que se deve ocultar a todo o custo em vez de um património a preservar.
É difícil não ver nesta atitude um sintoma de um tempo que prefere a amnésia à memória, o desenraizamento à continuidade, a indiferença ao orgulho legítimo de pertencer a uma comunidade histórica com quase nove séculos de existência.
Dentro de poucos anos, Portugal celebrará 900 anos desde aquela tarde decisiva de São Mamede. Nove séculos de conquistas, mas também de derrotas, de glórias, mas também de tragédias, de navegadores e soldados, de santos e poetas, de reis e de povo anónimo. Nove séculos durante os quais a nação resistiu a invasões, a crises, a guerras e a traições.
Mas se a longevidade da nossa nação é motivo de admiração e orgulho, a sua perpetuidade nunca está garantida.
A má governança, a erosão das instituições, a perda de rumo estratégico e o progressivo enfraquecimento da consciência nacional levantam interrogações que não podem ser ignoradas. Pela primeira vez em muitos séculos, olhamos para o futuro e não conseguimos afirmar com serenidade e optimismo que Portugal chegará intacto ao seu milénio.
Tal pensamento deveria inquietar-nos profundamente. Porque os homens que combateram em São Mamede não lutaram para que os seus descendentes esquecessem quem são. Não arriscaram a vida para que a memória nacional fosse reduzida a uma nota de rodapé, nem abriram caminho à independência para que a própria ideia de Portugal se tornasse irrelevante aos olhos dos seus governantes.
Hoje, como há 898 anos, impõe-se uma questão essencial: têm os nossos governantes vontade de preservar aquilo que nos foi legado?
Neste 24 de Junho, importa recordar que Portugal nasceu da coragem de homens que recusaram a submissão e escolheram o seu próprio destino. E que nenhuma nação morre por falta de passado, mas sim quando deixa de acreditar que esse passado merece ser lembrado.
Enquanto houver quem lembre São Mamede, a primeira tarde portuguesa continuará a iluminar a história da Pátria. Mas uma nação que esquece os seus fundadores corre sempre o risco de perder o rumo que eles lhe traçaram. E esse revela ser um desfecho mais trágico do que qualquer derrota sofrida num campo de batalha.
