por Filipe Carvalho
No debate público contemporâneo, a palavra “fascista” sofreu um severo processo de inflação semântica. Transformada num insulto genérico e esvaziada de rigor técnico, serve hoje de carimbo moral para estigmatizar qualquer dissidência do consenso liberal-progressista. É precisamente neste cenário de saturação e simplificação que a publicação da antologia Vozes Fascistas (Vols. I e II), editada pela chancela independente Contra-Corrente, assume um papel fundamental. Ao compilar textos originais de autores “malditos” e “não-conformes”, o projecto lança um convite incómodo, mas necessário, ao exercício pleno do pensamento crítico, sem os habituais filtros ou intermediários institucionais.
O grande mérito desta iniciativa editorial reside na desconstrução do monólito. A historiografia de consumo rápido habituou o público a encarar o fascismo como uma doutrina uniforme, intelectualmente tacanha e nascida do nada. Todavia, como João Martins sublinha no intróito do primeiro volume, estamos perante um fenómeno multifacetado que engloba “múltiplas correntes de pensamento”. Ao ler as fontes primárias, o leitor confronta-se com visões do mundo que, embora partilhassem uma hostilidade visceral à arquitectura liberal e ao materialismo, divergiam profundamente entre si em termos estéticos, metafísicos, económicos e até raciais.
No segundo volume, Rui Amiguinho eleva este diagnóstico ao desmontar a falácia da reductio ad fascismum. Lembra-nos o editor que, em rigor histórico, o único fascismo que existiu enquanto regime específico foi o italiano. Contudo, a actualidade insiste em catalogar sob a mesma etiqueta qualquer defesa de princípios fundamentais como a soberania, o tradicionalismo ou a identidade étnica. Esse reducionismo, mais do que uma resposta política legítima, funciona como um ataque ad hominem que visa interditar o debate. Para romper com este bloqueio, a antologia alarga o seu âmbito a um “vasto leque nacionalista”, permitindo separar o ruído panfletário da filosofia política de fundo.
A obra toca ainda numa ferida aberta na nossa vivência democrática: as fronteiras da liberdade de expressão. Num regime que se assume livre, a existência de “linhas vermelhas” jurídicas e de proibições constitucionais à apologia de certas ideias revela uma tensão inerente e um critério inevitavelmente arbitrário. Ao aceitarem as “regras do jogo” sem glorificar ou validar os regimes em causa, os editores focam-se estritamente no esclarecimento histórico. Trata-se de um voto de confiança na maturidade do leitor, a quem cabe a responsabilidade exclusiva de analisar a qualidade desse conhecimento.
Mais do que uma mera curiosidade de arquivo, os temas que atravessam estes dois volumes — economia, soberania, cultura, ecologia, trabalhismo e religião — conservam uma utilidade assustadoramente actual para o desenho de soluções presentes. A premissa antropológica que une estas vozes colide de frente com a utopia progressista da modernidade: “O Homem não é uma tábua rasa”. Somos o resultado de uma evolução e de valores transmitidos geracionalmente na família e na comunidade. Só conhecendo o passado de forma realista, sem filtros moralistas, nos tornamos capazes de preparar o futuro. O acréscimo, no Volume II, de ensaios de autores portugueses contemporâneos que analisam estas correntes ancora perfeitamente esta necessidade de contextualização local e temporal.
Em suma, Vozes Fascistas apresenta-se como um antídoto contra o esvaziamento intelectual do mainstream. Longe de ser um manifesto apologético, a colectânea funciona como uma vacina. Conhecer o pensamento de um autor, com todos os seus horrores, espinhos ou o eventual fascínio das suas ideias, é a única forma de robustecer o espírito crítico. Num mundo que tende a infantilizar os cidadãos através da censura prévia, a Contra-Corrente assume o risco da liberdade e entrega-nos o mapa das fracturas que moldaram — e que continuam a ameaçar — a arquitectura do nosso tempo.
