Quando o papa americano cita "O Senhor dos Anéis" na sua primeira encíclica
por Rosanna Romanisio Amerio in Barbarillo.
Na sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV invoca uma citação de um escritor católico tradicionalista do século XX, John Ronald Reuel Tolkien. A justaposição entre a mensagem do pontífice e a obra épica de Tolkien é o foco da nossa conversa com Gianfranco de Turris[1], um intelectual que esteve entre os primeiros a compreender a mensagem metapolítica do universo de O Hobbit.
Nos últimos dias, até o L’Osservatore Romano, na sua edição de 26 de Maio, publicou o título: “Quando o Papa cita Gandalf: Tolkien, a esperança e a luta do nosso tempo.” A Famiglia Cristiana partilha do mesmo sentimento: “De Tolkien a Spielberg e Beethoven: citações populares na encíclica do Papa Leão XIV sobre a IA.” O Vaticano.com escreve ainda: “Se o Anel do Poder se tornar um Algoritmo: o Papa Leão XIV cita Tolkien na sua primeira encíclica.”
A citação
No parágrafo 213, dentro do capítulo ‘Construindo a Civilização do Amor’, lê-se: John Ronald Reuel Tolkien, um escritor católico do século XX, através das palavras de um protagonista dum seu romance, descreveu assim a nossa responsabilidade: «Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar». [187]”.
Especificando também numa nota: [187]: “J.R.R. Tolkien, The Lord of the Rings. Part III: The Return of the King, New York 1965, 190″. Ou seja, a primeira edição americana em brochura da obra, não a inglesa de dez anos antes, que o futuro Papa evidentemente comprou e preservou, e que agora citou.
Esta é uma citação de Gandalf, o sábio mentor da mítica Terra Média.

O Diálogo
Gianfranco de Turris, no início da década de 2000, apresentou as obras de e sobre Tolkien publicadas pela Bompiani. Alguma vez imaginaria que um Papa citaria uma delas, mesmo numa encíclica?
Evidentemente que não. Mas é um paradoxo. Na altura, quando escrevi as introduções aos vários livros da Bompiani, defendi este autor. De quem o defendia? Defendia-o desde os anos 80, quando Rusconi traduziu a sua obra-prima, de intelectuais progressistas, liderados por Umberto Eco, que Deus o tenha, que o consideravam um escritor — podemos usar o termo? — bem, diziam que era reaccionário e “fascista” por mil razões, a começar pela editora que o publicou em 1980, pelos editores e pelo público-alvo.
Poderá a literatura fantástica, neste caso O Senhor dos Anéis, ser um bom veículo para mensagens positivas com fortes conotações católicas?
Coloquemos as coisas desta forma: se entendermos “católico” na sua etimologia original, que significa “universal”, sim. Porque o livro contém mensagens que foram lidas e apreciadas em todas as culturas do mundo para as quais foi traduzido, não apenas nas ocidentais. Nesse sentido, sim. Mas no sentido específico de “religioso-cristão”, seria um tanto redutivo, pois relegá-lo-ia exclusivamente para a religião católica. Obviamente, Tolkien era católico, mas sejamos claros, um católico “tradicionalista” que ia à missa em latim, e não em inglês.
Considerando que Tolkien era profundamente religioso, um “tradicionalista”, a mensagem de fé que perpassa as suas narrativas, quando contada desta forma, pode ainda ser compreendida pelos jovens de hoje?
Sendo um romance de fantasia, do imaginário, certamente que sim, pois é precisamente essa a sua função. Também porque o aspecto ‘religioso’ não é explicitado deliberadamente. Na realidade, o livro não fala de religião, de sacerdotes, igrejas ou templos, de cultos oficiais (aliás, a única ordem sacerdotal descrita é corrupta e decadente). Aliás, como sempre defendi, não se trata sequer de uma luta entre o ‘Bem’ e o ‘Mal’, como muitas vezes se diz simplificando, mas sim de uma luta entre o ‘poder’ positivo e o ‘poder’ negativo: de um lado, Minas Tirith, a capital do reino de Gondor, o último bastião dos Homens contra os exércitos monstruosos do Senhor das Trevas na Terra Média; do outro, Mordor, a Morada do Mal, o reino do Senhor das Trevas, Sauron, o poder negativo do controlo absoluto. De um lado estão os nove Cavaleiros Negros, do outro os nove membros da Irmandade do Anel. Este é o ponto, o tipo de poder exercido sobre as pessoas. Penso que este é o ponto fundamental: o que Tolkien queria fazer, mas que todos esquecem e ninguém refere: escrever um romance épico e mítico para uma nação, a sua própria, que não tinha romance épico nem mito fundador.
Poderá então ser uma mensagem “épica” hoje para uma época — a nossa — que já não possui o “épico”, no sentido do “legado” da história, da memória colectiva e dos valores fundadores de uma civilização?
Certamente, e não só: o problema hoje é que a política da força bruta está a regressar, a força pura, mesmo que disfarçada de motivações nobres, que rasga os tratados internacionais. Até a guerra tem as suas regras! Ou seja, quem é o mais forte tem sempre razão, impondo, quer se queira quer não, a sua. Sem referir nomes, este egocêntrico Trump está a fazer exatamente isso. Mesmo que seja obrigado a recuar e a revogar muitas coisas, mesmo que nunca o admita, cai sempre de pé, como aquela personagem de banda desenhada! É a heterogénese dos fins: almeja-se um determinado resultado e obtém-se um diferente e inesperado…”
Numa tentativa de delimitar o tema, voltemos ao professor de Oxford e autor de O Senhor dos Anéis e aos jovens: o que poderiam ganhar com isso?
Pouco se lê sobre a versão promovida pelo coletivo de escritores italianos fundado em Bolonha em janeiro de 2000: Wu Ming e os seus associados, que empreenderam a macabra e extremamente cara tentativa de retraduzir O Senhor dos Anéis em 2019, utilizando uma linguagem plana, banal e, em alguns casos, até absurda e rebuscada. Zero épico. Assim, movidos por uma agenda puramente ideológica, chegaram ao objetivo oposto ao de Tolkien: oferecer um romance sem graça, tedioso e soporífero, com os nomes das personagens alterados. Aconselho os jovens a lerem O Senhor dos Anéis na tradução feita por Vittoria Alliata com a aprovação do próprio Tolkien: uma tradução com um tom épico, tal como o autor pretendia. A melhor edição foi a publicada pela Bompiani em 2004 pela Sociedade Tolkien Italiana e ilustrada por Alan Lee.
Então, o significado das palavras reside na “tradução”? Até o Papa, na encíclica, no parágrafo imediatamente seguinte àquele em que cita Tolkien, escreve: “A primeira contribuição que podemos dar a uma civilização mais humana é prestar atenção às nossas palavras (…) Devemos, portanto, examinar a nossa consciência quanto às palavras que usamos e aos preconceitos que as impregnam.
Não quero aprofundar o significado do que o Papa exprimiu, gostaria apenas de salientar que, sim, o problema fundamental reside precisamente no significado das palavras e no uso instrumental que delas se faz: como aprendemos em 1984, de George Orwell, onde “guerra” significa “paz” e “paz” significa “guerra”. Este é o risco trágico da “Novilíngua”. Porque a linguagem, repare-se, é tudo: e no caso de Tolkien — que era filólogo, afinal, e percebia de palavras — chegámos a este absurdo, reduzindo-o a algo plano e aborrecido. E estas editoras italianas, infelizmente, conseguiram isso em detrimento dos jovens leitores de hoje, que acreditam que o verdadeiro Tolkien é aquele que encontram nas livrarias, e se forem ver os três filmes de Peter Jackson, não percebem nada! Um exemplo claro de como estão a tentar apropriar-se dele, é o discurso, em Milão, da secretária-geral do Partido Democrático, Elly Schlein, que disse, em Fevereiro: “Devemos recuperar Tolkien!”. O que não faria a esquerda para finalmente arrancar a obra-prima épica dos “malditos fascistas”?
Para além de ser um “tradicionalista”, como definiria o autor de O Senhor dos Anéis?
Penso que a melhor descrição é a que é dada pelo seu biógrafo, Humphrey Carpenter: Tolkien era um Right Wing Man, um conservador, um homem de direita, como demonstram todas as suas opções de vida. Leiam as suas cartas para melhor compreenderem as suas sensibilidades.
Começámos por dizer que o Papa Leão XIV citou Tolkien. Vamos lá resumir…
Gostaria de salientar que, na altura (décadas de 1980 e 1990), a juventude de direita ‘adoptou’ (é este o termo que usei) Tolkien, sem o explorar, e ainda assim era considerada ‘fascista’. Quem sabe se estes detractores desses anos chamariam hoje o pontífice americano de ‘fascista’… Bem diferente, aliás, do desajeitado pontífice argentino… E gostaria de acrescentar mais uma coisa.
Por favor, talvez uma reflexão politicamente correcta…
Mas, não sei se é, é certamente algo que honra o Papa Leão XIII, que é um homem muito culto, formado em matemática, e que evidentemente se aprofunda no que diz e faz escolhas precisas. Ou seja: se verificar a tradução italiana da citação de Gandalf que ele menciona, a saber: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar.” Perceberá que esta passagem foi extraída de O Senhor dos Anéis, vol. III, O Regresso do Rei, traduzido por Vittoria Alliata di Villafranca, Bompiani, Milão, 2000, p. 1054. E assim poderá constatar que Leão XIV fez uma escolha muito específica ao utilizar exactamente a tradução original aprovada pelo próprio Tolkien, como já referi, e não a horrível versão actualmente em circulação, imposta por razões vergonhosamente ideológicas por Wu Ming, AIRST e companhia. E isso faz-lhes uma grande honra e relega todas estas pessoas para um canto, na esperança de que sejam esquecidas e a sua culpa seja reconhecida.
Então o Papa citou o texto na sua versão original?
Exactamente! Não usou aquele mata-borrão, mas um que já não está à venda, e que provavelmente já possuía. Isto também homenageia um católico tradicionalista de língua inglesa como Tolkien, que nunca imaginaria ser citado na primeira encíclica de um papa americano. Perante tantos exploradores obtusos da língua segundo os ensinamentos leninistas…. Escreva, escreva isso, mesmo que não seja ‘politicamente correcto’! Sem problema, porque sou eu que o digo!
[1] Gianfranco de Turris (Roma, 19 de fevereiro de 1944) é um jornalista, ensaísta e escritor italiano, além de estudioso da literatura fantástica em Itália. Antigo editor-chefe adjunto do noticiário cultural da Rai Radio, exerce funções de consultor editorial na Edizioni Mediterranee, em Roma. É também secretário da Fundação Julius Evola, em nome da qual supervisiona todas as reimpressões dos livros do filósofo tradicionalista.
