Durante décadas, as correntes progressistas conquistaram posições onde se formam as representações colectivas: a escola, a universidade, o mundo editorial, a comunicação social e as indústrias culturais.
por Trystan Mordrel in El Manifiesto
Escrevo estas linhas a partir de Montevideu, à beira do Rio da Prata. O Uruguai oferece ao observador europeu um curioso laboratório político. Há anos que o país é governado pela esquerda, e isso não se deve unicamente a razões económicas ou eleitorais. Na realidade, o predomínio progressista responde a um fenómeno mais profundo: a direita uruguaia, como tantas outras no mundo hispânico, renunciou durante décadas a travar a batalha cultural. Aceitou discutir a administração do Estado, mas não o quadro intelectual que define as regras do debate. E quando se aceita a linguagem do adversário, mais cedo ou mais tarde acaba-se também por aceitar a sua visão do mundo.
A vida política do Ocidente está estruturada, desde há séculos, por uma oposição fundamental entre duas concepções do homem e da sociedade. De um lado encontra-se a visão herdada do Iluminismo, segundo a qual o homem nasce livre mas é oprimido por estruturas sociais que seria necessário desmontar para lhe restituir a autenticidade. Do outro lado encontra-se uma concepção mais orgânica da comunidade política, para a qual o homem é, antes de mais, herdeiro de uma civilização histórica formada por tradições, instituições e normas que constituem simultaneamente o quadro da sua liberdade e o campo dos seus deveres.
Esta tensão percorre toda a história moderna europeia. Sob formas diversas, organiza a confrontação entre aquilo a que convencionalmente chamamos esquerda e direita. No entanto, o conflito contemporâneo não se explica apenas pela persistência desta oposição. O que caracteriza a nossa época é o profundo desequilíbrio cultural que se instalou entre ambos os campos.
Durante várias décadas, as correntes progressistas conseguiram conquistar posições decisivas nos espaços onde se formam as representações colectivas: a escola, a universidade, o mundo editorial, os meios de comunicação social e as indústrias culturais. Este fenómeno, frequentemente descrito como hegemonia cultural, corresponde a uma transformação profunda das estruturas simbólicas que organizam a percepção do mundo social.
Perante esta hegemonia cultural progressista, uma parte da direita começou recentemente a modificar a sua atitude. Onde durante décadas se limitava a disputar eleições ou a administrar o poder quando o obtinha, alguns sectores decidiram finalmente entrar no terreno da batalha cultural. A confrontação já não se limita ao plano institucional ou eleitoral: desloca-se para o campo das ideias, das representações e das normas culturais.
É precisamente esta evolução que alguns observadores hoje encaram com inquietação. Num artigo recente, o politólogo francês Thibault Muzergues alerta contra o aparecimento daquilo a que chama um «wokismo de direita». O seu diagnóstico não se refere à existência do conflito ideológico entre direita e esquerda, bem conhecido há séculos, mas a um fenómeno mais recente: o facto de uma parte da direita ter decidido combater a hegemonia cultural progressista utilizando os mesmos instrumentos de mobilização ideológica que a esquerda empregou com afinco.
Segundo Muzergues, esta transformação manifesta-se em vários aspectos: a centralidade crescente das questões identitárias no discurso político, o uso de uma retórica vitimista destinada a mobilizar os eleitores em torno de um sentimento de despossessão cultural, e uma tendência para deslegitimar opiniões divergentes no próprio campo conservador. Por outras palavras, a direita adoptaria gradualmente os métodos da guerra cultural desenvolvidos pelos seus adversários.
Tal interpretação revela, contudo, uma profunda incompreensão da dinâmica real da política contemporânea.
A batalha das ideias não é uma deriva ideológica recente. É a própria condição de toda a transformação política duradoura. Nenhuma sociedade muda a sua orientação política sem que antes mudem as categorias culturais através das quais interpreta a realidade.
Esta intuição foi compreendida com particular clareza por vários pensadores europeus da segunda metade do século XX. Alain de Benoist insistia em que o poder político não é mais do que a tradução institucional de uma hegemonia cultural previamente conquistada. Guillaume Faye recordava que as verdadeiras revoluções começam sempre no terreno das ideias. Mas esta reflexão tem também raízes profundas na tradição intelectual espanhola.
Já no século XIX, Juan Donoso Cortés compreendeu que as revoluções políticas são sempre consequência de revoluções teológicas e filosóficas prévias. No século XX, José Ortega y Gasset advertiu que a crise política da Europa era, antes de mais, uma crise das ideias e das elites culturais. Mais recentemente, o filósofo Gustavo Bueno analisou como os sistemas ideológicos dominantes configuram o próprio quadro dentro do qual se desenvolve o debate político.
A história recente oferece numerosos exemplos desta verdade estratégica.
Um dos mais instrutivos é o caso de Espanha. Após a morte de Franco, a direita espanhola optou por uma estratégia de apaziguamento e de modernização económica. Aquela transição permitiu estabilizar a sociedade e importar um modelo político liberal. Mas teve também uma consequência profunda: o abandono quase completo do combate cultural.
Durante décadas, a direita aceitou implicitamente que os espaços intelectuais, universitários e culturais ficassem sob a influência da esquerda. Enquanto os governos conservadores administravam a economia e as instituições, o progressismo ocupava as escolas, as universidades, o mundo editorial e a produção audiovisual.
As consequências desta divisão tácita não tardaram a manifestar-se. Com o passar do tempo, a esquerda conseguiu redefinir o relato histórico nacional e reconfigurar os próprios símbolos da memória colectiva. O caso do Vale dos Caídos constitui um exemplo particularmente revelador. Concebido originalmente como um monumento destinado a honrar os mortos da guerra civil e a simbolizar uma forma de reconciliação nacional, o local acabou por ser progressivamente reinterpretado como emblema de uma memória histórica reescrita segundo as categorias ideológicas do progressismo. O que tinha sido pensado como símbolo de encerramento da guerra civil foi transformado em prova permanente de culpabilidade histórica.
Este processo acelerou-se com a aprovação da chamada lei da memória histórica, que abriu a porta a uma reinterpretação oficial do passado espanhol conforme os critérios morais do presente. Sob o pretexto de reparar injustiças históricas, o Estado arrogou-se o direito de redefinir a memória colectiva, seleccionando que episódios deveriam ser lembrados e quais deveriam ser condenados ou apagados do imaginário nacional. O Vale dos Caídos tornou-se assim um dos principais cenários desta reengenharia simbólica.
Contudo, a transformação do significado daquele lugar não foi apenas resultado da ofensiva cultural da esquerda. Foi também consequência da renúncia de outros actores em defender o sentido histórico e espiritual dos seus próprios símbolos. Entre eles, um dos exemplos mais marcantes é o do episcopado espanhol.
Durante séculos, a Igreja Católica foi uma das principais colunas culturais de Espanha. A sua influência não se limitava ao âmbito religioso: fazia parte do tecido intelectual, moral e simbólico que estruturava a vida nacional. No entanto, perante a ofensiva ideológica dos últimos decénios, uma parte significativa da hierarquia eclesiástica adoptou uma atitude de prudente recuo. Em vez de enfrentar a confrontação cultural com clareza doutrinal e firmeza intelectual, optou-se frequentemente por uma estratégia de acomodação perante o poder político.
O caso do Vale dos Caídos é particularmente ilustrativo. Apesar de se tratar também de uma basílica consagrada e de um local de culto, a hierarquia eclesiástica evitou enfrentar abertamente o processo de ressignificação impulsionado pelo governo. Preferiu-se o silêncio prudente à defesa argumentada do significado histórico e espiritual do monumento. Com isso, a Igreja contribuiu, por cobardia, para facilitar a operação cultural promovida pelo poder político.
Este comportamento não é um fenómeno exclusivamente espanhol. Em vários países da Europa Ocidental observa-se uma tendência semelhante: instituições históricas que durante séculos estruturaram a vida cultural das nações parecem hoje vacilar na hora de defender os fundamentos intelectuais da sua própria tradição. Onde noutras épocas haveria confrontação doutrinal, hoje predomina frequentemente a vontade de evitar o conflito mediático ou político.
Quando uma instituição perde a confiança na legitimidade cultural da sua própria herança, a sua capacidade de resistência enfraquece inevitavelmente. Na ausência de uma coluna vertebral ideológica clara e de verdadeira coragem intelectual, a estratégia dominante torna-se a adaptação permanente às exigências do adversário.
O resultado é sempre o mesmo. Cada concessão feita para evitar o conflito prepara a concessão seguinte. E, na guerra cultural, as concessões acumuladas acabam por se transformar em derrotas históricas.
Porque a história demonstra repetidamente que os povos podem perder o poder político durante algum tempo, mas quando perdem também a capacidade de defender o sentido da sua própria civilização, a derrota deixa de ser política para se tornar cultural e, finalmente, civilizacional.
A experiência argentina oferece um exemplo inverso.
A ascensão política de Javier Milei não pode ser compreendida apenas em termos económicos ou eleitorais. Antes de se tornar presidente, Milei travou durante anos uma batalha intelectual frontal contra as categorias dominantes do discurso político argentino. Nas suas conferências, nos seus livros e nas suas intervenções mediáticas, questionou de forma sistemática os fundamentos ideológicos do estatismo, do populismo e do igualitarismo que haviam estruturado a vida política do país durante décadas.
A sua estratégia consistiu precisamente em disputar o terreno das ideias antes de aspirar à conquista do poder político. Em vez de se limitar a criticar as políticas concretas dos seus adversários, atacou as premissas intelectuais que as tornavam possíveis.
Quando finalmente chegou o momento eleitoral, uma parte do terreno já estava preparada.
Esta experiência confirma uma verdade elementar da política: as eleições não se ganham apenas nas urnas. Ganham-se muito antes, no campo das ideias.
Por esta razão, a crítica do suposto «wokismo de direita» surge em grande medida fora de lugar. O que alguns interpretam como uma radicalização ideológica não é mais do que o redescobrimento de uma regra estratégica fundamental: a política começa sempre pela batalha das ideias.
As sociedades não mudam apenas por leis ou decretos. Mudam primeiro pelas representações que fazem de si mesmas.
