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Por um gramscismo digital de Direita

Quem não participa na construção cultural do seu tempo, aceita a cultura construída pelos outros.

por João Martins

A Internet é um meio de contornar o silêncio mediático e de devolver o gosto pela acção.”    [- Jean-Yves Le Gallou]

Gramsci e a hegemonia: a política antes da política

Antonio Gramsci foi uma das figuras centrais do pensamento político do século XX, não tanto pelas suas propostas institucionais imediatas, mas pela forma como reformulou a relação entre a cultura e o poder. A noção de hegemonia, desenvolvida nos seus Cadernos do Cárcere, sugere que a dominação política não se sustenta apenas pela força do Estado, mas pela capacidade de uma classe ou elite em fazer aceitar como “natural” a sua visão do mundo.

Nesta perspectiva, a política não começa nas eleições nem termina no parlamento. Antes disso, joga-se num terreno mais difuso e decisivo: a sociedade civil, onde se amoldam crenças, hábitos, linguagens e sensibilidades. A hegemonia é, por isso, uma forma de liderança cultural e moral que antecede e condiciona o poder formal.

Gramsci introduz também a ideia de “guerra de posições”, em oposição à “guerra de movimento”. Nas sociedades modernas, especialmente na europeia e eurodescendente, a transformação política profunda não ocorre por meio de uma ruptura súbita, mas por via de um trabalho prolongado de conquista cultural e institucional. Nesse processo, aqueles que Gramsci designa como intelectuais orgânicos desempenham um papel decisivo, funcionando como mediadores – por meio da sua influência e vulgarização – entre as ideias e a sociedade.

Esta leitura da política como disputa cultural de longa duração tornou-se uma das mais influentes do século XX e, paradoxalmente, viria a ser apropriada por correntes ideológicas muito distintas daquelas em que Gramsci se inscrevia.

Da esquerda à metapolítica: a apropriação pela Nouvelle Droite

A partir da segunda metade do século XX, a Nouvelle Droite francesa, associada, sobretudo, à figura tutelar do filósofo e politólogo Alain de Benoist e ao círculo do GRECE, começou a reinterpretar Gramsci fora do seu contexto marxista original, vindo a influenciar as demais correntes intelectuais da Direita europeia.

A inovação conceptual mais relevante desta corrente foi a ideia de metapolítica: a convicção de que a disputa decisiva não é apenas eleitoral ou partidária, mas cultural. Ou seja, antes da conquista do Estado, será necessário disputar os valores, os símbolos e as categorias através das quais uma sociedade se pensa a si própria. Na esfera pública, a luta por valores é possível e até permitida; dentro do Estado, não.

Esta leitura “gramsciana de Direita” não consiste numa simples importação de conceitos, mas numa mudança de foco: da política eleitoral para a longa duração do combate cultural.

Ora, se o conceito de hegemonia, em Gramsci, está ligado a uma análise das estruturas de dominação, não se trata de um manual estratégico universal, ainda que a sua adaptação por diferentes correntes ideológicas ateste precisamente a sua força analítica.

Da sociedade civil à esfera digital: uma nova arena de hegemonia

Se o século XX foi o século dos meios de comunicação de massa, o século XXI tornou-se o século das plataformas digitais. A televisão generalista, a imprensa e a publicidade continuam a ter peso, mas perderam o monopólio da formação de opinião.

A Internet introduziu uma transformação estrutural: a passagem de um modelo centralizado e hierárquico de produção de informação para um ecossistema distribuído, algorítmico e fragmentado. Isto alterou profundamente a forma como se constrói a hegemonia cultural.

Em Portugal, este fenómeno é particularmente visível. O espaço mediático tradicional continua altamente concentrado, a hegemonia cultural liberal-esquerdista impede os seus oponentes de entrarem na arena mediática, de terem voz nas universidades e nas instituições culturais e no mercado editorial comercial. Mas as redes sociais, podcasts, websites e plataformas de vídeo criaram uma esfera paralela onde a produção de discurso se popularizou, afirmando-se como a ultima ratio da liberdade de expressão.

Neste contexto, a disputa cultural já não se faz apenas através de editoriais, debates televisivos ou mesmo por meio da “longa marcha através das instituições” conforme declarou outrora o activista marxista Rudi Dutschke, mas através de:

  • Criadores de conteúdos;
  • Comunidades digitais;
  • Micro-esferas de influência;

A hegemonia, hoje, é essencialmente uma arquitectura de atenção.

Por um gramscismo digital: linhas estratégicas para uma disputa cultural contemporânea

O “gramscismo digital” não deve ser entendido como um programa fechado, mas como uma metodologia de intervenção cultural pensada para operar a longo prazo.

  1. Da reacção à produção

Grande parte da presença política digital é ainda reactiva: comenta-se o que já foi dito. Uma estratégia de longo prazo exige deslocar o centro de gravidade para a produção contínua de conteúdos originais: ensaios, análises, investigação, vídeo, áudio e formatos pedagógicos.

  1. Formação de mediadores culturais

Mais do que influenciadores no sentido superficial que este termo encerra, o que faz falta são mediadores intelectuais capazes de traduzir ideias complexas em linguagem acessível sem perda de rigor. Isto implica uma aposta na formação e não apenas na comunicação.

  1. Ecossistemas e não apenas páginas

Ecossistema”, neste contexto, é uma metáfora importada da biologia para descrever um conjunto interligado, dinâmico e reciprocamente dependente de activistas e meios (websites, criadores, plataformas, públicos, formatos). A eficácia digital não reside em perfis isolados, mas em ecossistemas interligados que se alavancam mutuamente: podcasts que alimentam artigos, que por seu turno alimentam debates presenciais. A lógica deve ser cooperativa e em rede.

  1. Reocupação do espaço educativo informal

Grande parte da formação cultural contemporânea ocorre fora das instituições formais: YouTube, TikTok, podcasts, plataformas de cursos. Ignorar este espaço equivale a abdicar da formação das gerações mais jovens.

  1. Reforço da dimensão cultural e histórica portuguesa

Num país com forte centralização mediática e cultural, a recuperação da história, literatura, património e identidade linguística portuguesa revela-se como uma dimensão decisiva na disputa cultural.

  1. Independência e sustentabilidade

A autonomia cultural exige modelos de financiamento diversificados e deverá desdobrar-se através de editoras, assinaturas, apoios intracomunitários, mecenato, e estruturas independentes de produção.

  1. Cultura do debate e diversificação

Qualquer projecto intelectual sério exige diversificação temática, bem como debate e capacidade crítica. A hegemonia cultural constrói-se também pela robustez argumentativa e abrangência.

À guisa de conclusão: a hegemonia como tarefa para maratonistas políticos

“Se não quisermos ser uma curiosidade histórica ou uma nostalgia retrógrada, não podemos ser, antes de mais, senão realistas e empíricos. Devemos apoiar-nos não em dogmas abstractos mas nos próprios dados da vida. Os nacionalistas reconhecem antes de mais que fazem parte de um mundo onde tudo é luta.” [- Jean Mabire]

A noção de hegemonia lembra-nos que nenhuma cultura é estática, mas antes o resultado de um trabalho contínuo de produção de sentido, feito ao longo de gerações. O digital não eliminou esta dinâmica; apenas a acelerou e a tornou mais visível.

Falar de um “gramscismo digital” não significa, portanto, importar mecanicamente estratégias do passado para o presente, nem reduzir a cultura a um campo de batalha simplificado. Significa reconhecer que, numa sociedade altamente mediatizada, a política depende cada vez mais da capacidade de produzir linguagem, narrativas e formas de interpretação do mundo, aspectos que a esquerda desde sempre soube explorar com mestria.

O sucesso metapolítico reside em vencer a batalha pelos corações e mentes. Para alcançar isso, é preciso penetrar no senso comum. E se aprender com Gramsci é vital, devemos simultaneamente atender à estratégia implementada por Willi Münzenberg (1889–1940), propagandista comunista alemão, cuja originalidade residiu em transformar a agitação comunista amarrada a uma retórica partidária restrita numa empresa de comunicação social moderna e visualmente orientada, que colmatou a lacuna entre a ideologia de esquerda e o público em geral. Münzenberg criou um vasto império mediático, independente e de aparência comercial, concebido para influenciar os intelectuais e os trabalhadores. Os seus efeitos perduram até aos dias de hoje.

Revela-se imperioso edificar uma cultura alternativa, a “pólis paralela” sugerida por Václav Havel, e se há uma lição transversal a retirar de Gramsci é esta: quem não participa na construção cultural do seu tempo, aceita a cultura construída pelos outros. Nesse sentido, impõe-se urgentemente reabilitar a reflexão teórica numa corrente política sujeitada a um imbecil anti-intelectualismo, e mais do que um programa fechado, o desafio contemporâneo para a Direita faz-se com uma pergunta aberta: que tipo de presença cultural pretende ter no espaço digital que ela própria já habita?