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An Armie of one

Citizen Vigilante não procura ser uma obra-prima do ponto de vista estético. Funciona, antes, como um murro no estômago cinematográfico.

por Nuno Barreira

Do controverso enfant terrible do cinema de exploração de baixo orçamento, o teutónico Uwe Boll, em parceria com o igualmente polémico Armie Hammer, recém-regressado da penumbra do cancelamento em Hollywood, surge Citizen Vigilante, [pode ser visto, na íntegra, nest link] o filme que tem abalado os alicerces das redes sociais um pouco por todo o mundo devido ao facto de ter sido banido comercialmente em países europeus como a sua Alemanha natal. O motivo? Talvez por se ter aproximado demasiado de uma realidade inconveniente que assola a Europa através dos fluxos migratórios oriundos do Terceiro Mundo, transformando ruas outrora pacatas em campos de batalha, onde crimes violentos como violações, tráfico sexual, assaltos e homicídios aleatórios se tornaram o prato do dia perante a (quase) passividade da lei. Os governos europeus traíram os seus cidadãos, tratando as vítimas como criminosos e os criminosos como vítimas, recorrendo à narrativa do «racismo sistémico» ou alegando que o perpetrador sofre de «distúrbios mentais».

Baseando-se num caso real ocorrido em Hamburgo, em 2016, quando um grupo de imigrantes islâmicos violou uma adolescente branca de 14 anos e recebeu apenas penas suspensas, Uwe Boll, aproveitando a onda de crescimento do movimento conservador, cada vez mais expressivo nas redes sociais, escreveu, fotografou e realizou este filme do subgénero vigilante, que bebe da influência dos seus antecessores, como o clássico Death Wish (estreado em 1974), protagonizado por Charles Bronson, adaptando a fórmula aos dias de hoje.

Um sóbrio, controlado e frio Armie Hammer interpreta Michael Sanders, um empresário imobiliário norte-americano, herdeiro de uma fortuna familiar, residente na Croácia, que utiliza os lucros gerados pelo seu vasto império imobiliário para financiar a sua cruzada clandestina como vigilante, numa espécie de Bruce Wayne/Batman que, tal como o Cavaleiro das Trevas, é órfão, solitário e obstinado na sua demanda por corrigir as injustiças do quotidiano.

Boll apresenta-nos o filme sob a forma de um videoclip, com montagem rápida, transições genéricas e constantes saltos temporais na narrativa. Tal como um DJ utiliza um best of nas suas listas de reprodução, o realizador pesquisou diversos crimes divulgados nas redes sociais e em determinados meios de comunicação, compilando-os para o universo do filme, onde Sanders actua para restaurar o equilíbrio.

Os monólogos de Sanders são desabafos directos, sem rodeios, e revelam-se eficazes quando culminam na sua execução de uma violência quase masturbatória. Ainda assim, o filme talvez apenas arranhe a superfície do problema, e algumas das acções e atitudes do protagonista poderão ser moralmente questionáveis para parte do público, como acontece na polémica cena envolvendo a prostituta.

Visualmente, este é um dos melhores filmes de Uwe Boll. Conhecido pelos seus excessos e pelas frequentes gralhas técnicas, o realizador apresenta aqui uma fotografia bastante competente para um orçamento diminuto, criando uma atmosfera simultaneamente realista e documental, sem nunca parecer barata. A inclusão de planos aéreos e de enquadramentos mais amplos confere ainda maior escala e respiração visual à obra.

Em suma, Citizen Vigilante não procura ser uma obra-prima do ponto de vista estético. Funciona, antes, como um murro no estômago cinematográfico, vivendo da sua própria controvérsia e do sensacionalismo do seu realizador, que tem deambulado por diversos géneros ao longo da carreira. Entre a realização crua e agressiva de Boll e a frieza calculista de Hammer, o filme resgata o espírito mais puro e violento do cinema de exploração dos anos 70, afirmando-se como uma obra provocadora que, ao tentar expor as falhas do sistema contemporâneo, acaba por colocar à prova aquilo que o público está disposto a aceitar no grande ecrã.