por Filipe Carvalho
A continuidade histórica não significa imobilismo nem repetição mecânica do passado. Significa fidelidade a princípios que permitiram ao país existir como realidade distinta, com identidade própria e sentido de permanência.
“Autoridade e Continuidade” é uma obra obrigatória para todos aqueles que recusam aceitar o declínio nacional como uma fatalidade do destino. Numa prosa elegante, densa e cortante, Diogo Ribeiro de Campos recorda às elites tradicionais remanescentes que o seu dever não é a retirada para os quartéis de inverno do desespero privado, mas sim a reconquista da coragem intelectual.

Numa época em que o debate político em Portugal parece irremediavelmente confinado à espuma dos dias, à tecnocracia cinzenta e à gestão imediata de clientelas, a publicação de “Autoridade e Continuidade: Elites, Tradição e Ordem Política em Portugal”, da autoria de Diogo Ribeiro de Campos, surge não apenas como um sopro de ar fresco, mas como um murro no estômago do establishment progressista e liberal.
Longe de se render à nostalgia estéril ou ao panfleto fácil de barricada, este livro oferece-nos um ensaio de profunda solidez filosófica. A sua tese de partida é clara e sem concessões ao politicamente correcto: a hierarquia é um dado natural da condição humana. Ao pretender erradicá-la, a modernidade republicana não gerou homens mais livres, mas sim uma “mediocridade organizada”, onde a autoridade legítima foi substituída por um “caos administrativo” e por directores públicos cujo único critério é a sobrevivência no cargo.
Um dos pontos mais fulcrais da obra reside na anatomia que o autor faz das elites. Diogo Ribeiro de Campos resgata o conceito histórico da nobreza portuguesa, demonstrando que o seu pilar fundamental nunca foi o privilégio arbitrário, mas sim o serviço e a responsabilidade. Em contrapartida, o capítulo dedicado às “novas elites” — que o autor qualifica cruamente como a “vulgaridade no poder” — serve de espelho impiedoso para a nossa actual classe governativa, desprovida de sentido de transcendência, de cultura histórica e de subordinação à lei natural.
A defesa que o autor faz do princípio monárquico e do catolicismo como eixos directores da ordem política não soará a anacronismo. Pelo contrário: a monarquia é aqui apresentada na sua verdadeira valência — não como um arranjo institucional caduco, mas como o princípio permanente da personalização do poder e da salvaguarda da continuidade histórica contra os caprichos das maiorias momentâneas.
Na recta final do livro, na soberba conclusão intitulada “Continuidade ou dissolução”, Diogo Ribeiro de Campos coloca-nos perante um espelho existencial. O autor adverte-nos contra o perigo de reduzir a Tradição a um “objecto de nostalgia” ou a um “ornamento inofensivo” para turista ver. A Tradição ou é viva, fecunda e orientadora da acção política e social, ou deixa de cumprir a sua função.
Editado pela Contra-Corrente.
