Terá a Igreja sacrificado a defesa concreta dos interesses espirituais e culturais dos seus fiéis em nome de uma concepção abstracta e idealizada da fraternidade universal?
por João Martins
A decisão, seguramente reflectida e debatida pela Igreja Católica Apostólica Romana, de não passar a tradicional procissão do Corpo de Deus pela zona do Martim Moniz, em Lisboa, constitui uma inequívoca capitulação perante uma realidade demográfica e cultural que muitos responsáveis eclesiásticos parecem encarar com resignação. Mais do que uma mera alteração de percurso, ela possui uma forte carga simbólica: transmite a ideia de que a Igreja já não se sente suficientemente confiante para afirmar publicamente a sua presença em espaços que durante séculos fizeram parte integrante da paisagem histórica, cultural e religiosa de Lisboa.
Desde o Concílio Vaticano II, uma parte significativa da hierarquia católica abraçou uma visão ecuménica e dialogante das relações entre religiões e civilizações. Essa orientação, dizem-nos, procura privilegiar o encontro em detrimento do confronto, a cooperação em vez da competição e a abertura ao mundo em vez da preservação identitária. Todavia, importa perguntar se tal estratégia não degenerou numa forma de desarmamento cultural e espiritual unilateral.

Enquanto a Igreja continua a insistir num universalismo ecuménico que pressupõe a reciprocidade, a compreensão mútua e o reconhecimento da sua presença histórica, a realidade parece frequentemente seguir noutra direcção. Em numerosas sociedades europeias, entre as quais a portuguesa, o Cristianismo recua, perde influência pública, vê diminuir o número de fiéis e assiste ao enfraquecimento das suas instituições. A pergunta impõe-se: terá a Igreja sacrificado a defesa concreta dos interesses espirituais e culturais dos seus fiéis em nome de uma concepção abstracta e idealizada da fraternidade universal?
O problema não reside no diálogo entre religiões, nem no respeito devido a todos os cidadãos, independentemente da sua origem ou crença. O problema surge quando o diálogo se converte em renúncia, quando a tolerância se transforma em autocensura e quando o respeito pelos outros passa a exigir o apagamento da própria identidade.
Recear a eventual hostilidade de imigrantes de confissão islâmica perante uma procissão católica realizada em espaço público constitui, nesta perspectiva, um gesto profundamente inquietante. Não apenas porque sugere falta de confiança na legitimidade da própria fé, mas também porque representa uma ruptura simbólica com a memória histórica de Portugal. A nação portuguesa nasceu no contexto da Reconquista, consolidou-se sob o signo do cristianismo e edificou a sua identidade colectiva através de séculos de afirmação religiosa e cultural.
A história portuguesa está repleta de figuras que testemunharam essa herança: reis, cavaleiros, missionários, santos e mártires que fizeram da fé católica um elemento central da sua vida e da sua acção. Independentemente do juízo contemporâneo que se faça sobre esse legado, ele permanece inseparável da formação histórica de Portugal. Agir como se tal herança devesse ser discretamente ocultada para evitar melindrar sensibilidades externas equivale a desvalorizar a memória colectiva de um povo e a enfraquecer os fundamentos culturais sobre os quais assenta a própria comunidade nacional.
Uma Igreja que receia manifestar publicamente a sua identidade acaba por transmitir aos seus fiéis uma mensagem de dúvida e hesitação. E uma instituição que abdica de ocupar o espaço público dificilmente poderá surpreender-se quando esse mesmo espaço é progressivamente ocupado por outras visões do mundo, outras crenças e outras referências culturais.
A questão fundamental não é a coexistência entre diferentes comunidades religiosas. A questão é saber se a Igreja Católica ainda acredita suficientemente na legitimidade da sua missão para afirmar, sem receios nem complexos, a sua presença na terra que durante séculos ajudou a formar.
E assim se vai escrevendo, dia após dia, a crónica dos últimos dias de um Portugal português e católico.
