O problema de Portugal não é falta de debate. É falta de sentido de prioridades e a existência de forças de bloqueio permanente ao desenvolvimento.
por João Pereira dos Santos
Dei-me ao trabalho de indexar os temas que o Parlamento discutiu em 2026. E a conclusão a que cheguei é preocupante. Não penso que o Parlamento ande apenas a discutir frivolidades. Essa seria uma crítica fácil, mas pouco séria. O que me parece é mais grave: quando se olha para o padrão geral do tempo político gasto, percebe-se um sistema muito ativo, mas mal hierarquizado, disperso, reativo e pouco focado nas questões que verdadeiramente decidem o futuro do país.
Ao longo destes meses, houve forte incidência em nacionalidade e imigração, custo de vida e fiscalidade de curto prazo, tempestades e incêndios. Entre os temas mais recorrentes apareceram nacionalidade, ISP, inflação, violência doméstica, crianças em ambientes digitais, TVDE, creches, lei eleitoral, inteligência artificial em campanhas, Venezuela e regionalização. Isto, por si só, não prova desorientação. Mas diz bastante sobre a forma como o país escolhe gastar o seu foco.
Começo por fazer aqui uma distinção importante. O tempo dedicado a nacionalidade e migração, que é muito, não me parece excessivo. Pelo contrário. Num país que deixou degradar a sua política migratória, que criou mecanismos aberrantes como a manifestação de interesse e que extinguiu o SEF para salvar a carreira de Eduardo Cabrita, é natural que estas matérias absorvam tempo parlamentar, governativo e administrativo. Seria estranho que não o fizessem. O ponto não é esse.
O ponto é que esse tempo está a ser gasto, em larga medida, não a construir uma política nacional coerente, mas a tapar buracos abertos por decisões erradas do passado. E, para agravar o quadro, a esquerda parlamentar, que criou essa desordem, continua a atrasar, a bloquear e a desfigurar os próprios remendos de que o país precisa. Ou seja, não estamos apenas a pagar o preço do erro. Estamos também a pagar o preço do arrastamento da correção.
Isto é importante, porque muda a natureza da crítica. O problema não é discutir imigração. O problema é estar a discutir imigração numa lógica de reparação permanente, sob resistência adicional de quem mais responsabilidade teve em criar o problema. Uma parte relevante do tempo político está a ser consumida a gerir consequências que nunca deviam ter atingido esta escala.
E esse tempo tem um custo. Porque é tempo que não está a ser dado, com igual centralidade, às matérias que realmente definem se Portugal terá ou não futuro como país. E aqui o contraste torna-se difícil de ignorar.
Não se vê uma centralidade no debate que seja dada à despesa corrente do Estado enquanto problema estrutural. Não falo da pequena discussão administrativa sobre pagamentos em atraso ou de ajustes parcelares. Falo da questão essencial: como é que um país com crescimento anémico, baixa produtividade e enorme fragilidade demográfica, continua a viver num modelo em que a massa financeira do Estado é absorvida sobretudo por pensões e salários?
Também não se vê, com o peso que seria exigível, um debate persistente sobre a quase inexistência de investimento público com verdadeira função reprodutiva. O Estado cobra muito, distribui muito em despesa corrente e investe pouco no que altera estruturalmente o seu destino. E isto não é um detalhe. A falta de investimento é uma das linhas centrais da nossa estagnação nas últimas décadas.
Da mesma forma, quase não existe uma discussão séria, contínua e central sobre o futuro do país para lá do curtíssimo prazo. Não aparece uma agenda insistente sobre natalidade, formação de famílias, retenção de jovens, travagem da emigração qualificada, produtividade, capitalização empresarial, sustentabilidade da segurança social ou estratégia nacional para as próximas décadas. Há muita resposta ao presente e nenhuma preparação do futuro.
E isto é o que me parece mais revelador. Portugal continua a comportar-se politicamente como se tivesse margem para não pensar no futuro. Como se fosse um país com folga, capaz de se perder em sucessivos temas parcelares, em ciclos mediáticos, em urgências conjunturais e em debates de superfície. Mas não é. É um país envelhecido, demograficamente fragilizado, economicamente pouco dinâmico e cada vez mais comprimido entre despesa rígida, crescimento débil e dificuldade em reter população ativa qualificada.
Um país assim não pode viver como um mural de causas. Tem de escolher prioridades com muito mais dureza. Tem de aceitar que nem todos os temas merecem o mesmo peso num contexto de declínio continuado. E tem, sobretudo, de perceber que cada hora consumida a remendar crises criadas pelo próprio sistema é uma hora que deixa de ser usada para enfrentar as questões que realmente decidem a continuidade e a prosperidade da nação.
No fundo, o problema de Portugal não é falta de debate. É falta de sentido de prioridades e a existência de forças de bloqueio permanente ao desenvolvimento. E, no caso da imigração, o erro não está em o tema absorver tempo. Depois do que foi feito, era inevitável que isso acontecesse. O erro é que o país continua preso à gestão das sequelas, porque a esquerda parlamentar resiste às soluções sufragadas em eleições, o que adia conversas sérias sobre a estrutura da despesa pública, o bloqueio ao investimento, o colapso demográfico e a ausência de estratégia de longo prazo.
É isso que mais me impressiona. Não a inexistência de atividade, mas a sua desadequação ao momento histórico.
Prognóstico para o futuro? Vamos continuar a discutir os remendos à tragédia criada pelo PS em matéria de imigração. No momento em que escrevo, o PS já anunciou o envio, outra vez, da nova lei da nacionalidade, criando o risco de o país voltar a gastar tempo com o mesmo problema. E vamos continuar a reagir quase apenas aos acontecimentos da última semana. Ou seja, no que depender do Parlamento, vamos continuar no caminho do declínio. Governados pela esquerda, mesmo quando esta não, teoricamente, não governa.
