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Henrique Raposo: expressão do pensamento débil

por João Martins

Nada tenho contra Henrique Raposo enquanto pessoa, porém, o Henrique Raposo comentador, esse activa em mim a mais inflamada repulsa e, que fique assente, nem é tanto pelo seu timbre irritantemente titubeante e persona emasculada.

Houve um tempo em que Henrique Raposo parecia destinado a ocupar um lugar singular no panorama intelectual português. Com a publicação de História Politicamente Incorrecta de Portugal Contemporâneo, demonstrou coragem para desafiar a narrativa oficial, questionando os mitos instalados e abordando episódios da nossa História sem a reverência habitual perante os dogmas que imperam nas universidades, dominadas pela esquerda cultural. O livro transmitia a ideia de que estávamos perante um autor intelectualmente inquieto, disposto a enfrentar o pensamento dominante e a pagar o preço da dissidência.

Infelizmente, esse Henrique Raposo é já uma distante memória. Nos anos que se seguiram, o cronista foi abandonando a ousadia que o distinguia, substituindo-a por um discurso cada vez mais alinhado com o consenso mediático. Seja por incapacidade de resistir ao permanente escrutínio do espaço público, seja pelo desejo de agradar simultaneamente à “direita” liberal e à esquerda moderada, o resultado foi paradoxal: acabou por desagradar a todos. Para a esquerda continuará sempre a ser um conservador indigno de consideração; para uma parte crescente da direita, tornou-se apenas mais uma voz do coro do politicamente aceitável, repetindo lugares-comuns sobre os benefícios da imigração, o “machismo” ou o populismo, precisamente nos temas em que antes se esperava dele independência de pensamento.

Há um fenómeno curioso na política portuguesa: certas figuras apresentam-se como homens de direita, mas, mal abrem a boca sobre os temas que afectam o nosso tempo, descobrimos que a sua bússola aponta invariavelmente para o mesmo sítio de sempre. Não para a justa defesa da identidade nacional, da soberania ou da continuidade civilizacional, mas para um confortável liberalismo progressista que, no essencial, acaba por validar as premissas da esquerda.

Henrique Raposo é um dos casos mais paradigmáticos do pensamento débil, empregando a oportuna fórmula cunhada por Guillaume Faye. Este pensamento débil expressa-se pela incapacidade de afirmar valores, de estabelecer hierarquias, de reconhecer conflitos ou de defender a continuidade da sua própria civilização, refugiando-se no relativismo, no igualitarismo e no moralismo universalista.

De modo geral, o portador do pensamento débil apresenta-se como conservador liberal, tece loas a Churchill, escreve sobre uma suposta tradição ocidental e acerca dos perigos do wokismo universitário, mas, quando chega a hora de discutir os problemas inerentes à imigração, a criminalidade daí decorrente ou do Partido Chega, o verniz estala e emerge um discurso peçonhento perfeitamente alinhado com aquilo que sempre foi considerado de esquerda.

Comecemos pela imigração. Durante anos, as elites garantiram aos portugueses que a imigração em massa era inevitável, desejável e economicamente indispensável. Agora que o país enfrenta uma pressão sem precedentes sobre a habitação, os salários, a Saúde, os serviços públicos, a segurança e a própria identidade, começam finalmente a admitir que talvez tenha havido “alguns excessos”. Mas o argumento do queixumeiro Raposo permanece praticamente inalterado: “Ou aceitam a imigração ou aceitam perder as reformas.”

É um falso dilema. A pergunta que nunca responde é outra: por que razão Portugal deve organizar toda a sua economia em torno da necessidade permanente de importar milhões de trabalhadores? Porque não discutir a produtividade, a natalidade, os incentivos fiscais às famílias, a automação, o combate à corrupção ou a reforma do Estado? Porque é que a única solução apresentada consiste sempre em substituir o défice demográfico por uma imigração contínua que vai redundar inevitavelmente na substituição populacional e transformação identitária? Tal não resolve a doença, apenas mascara os sintomas.

Outra obsessão recorrente de Raposo é o “machismo boçal”. Curiosamente, essa indignação nunca é acompanhada por uma reflexão séria sobre a composição estatística de uma parte significativa da criminalidade sexual perpetrada por imigrantes e que hoje faz parte das preocupações de muitos europeus. O problema para este feminista de “direita” continua a ser o português que faz um comentário inconveniente, enquanto episódios muito mais graves são frequentemente tratados com um silêncio ensurdecedor ou explicados através de factores socio-económicos. Dá-se aqui uma estranha inversão moral. O homem português torna-se o suspeito permanente; o imigrante oriundo de culturas profundamente patriarcais surge um sem-número de vezes como alguém que deve ser compreendido antes de ser responsabilizado. É uma espécie de multiculturalismo selectivo, ou seja, o machismo só merece ser condenável quando fala português.

Depois existe a tara anti-Chega, um partido que faz parte da democracia e representa uma ampla fatia do eleitorado. Não deixa de ser curioso observar como este comentarista dedica mais energia a combater quem denuncia determinados problemas do que os próprios problemas. Quando milhares de portugueses manifestam preocupação com a imigração, a insegurança ou a identidade nacional, as conclusões do neurasténico Raposo nunca passam por perguntar se existe uma inquietação legítima. O seu impulso imediato – resultante de uma repugnante postura de superioridade moral – consiste em explicar que os votantes no Chega são ignorantes, que estão enganados, que são vítimas do populismo e votam emocionalmente.

A verdade é que os portugueses vêem os seus bairros a mudar, os serviços públicos a degradarem-se, a criminalidade a aumentar de forma galopante em muitas zonas e os salários a permanecerem estagnados. A casta dominante responde-lhes com estatísticas fabricadas, sermões morais e acusações de populismo. Depois espantam-se com os resultados eleitorais.

Mas a maior contradição está precisamente na forma como Henrique Raposo entende o conservadorismo. Ser conservador não consiste apenas em citar Edmund Burke ou Winston Churchill. Conservar implica querer preservar alguma coisa. Preservar a continuidade histórica de uma nação. Preservar a identidade cultural. Preservar a segurança. Preservar a coesão entre os integrantes da comunidade nacional. E, por extensão lógica, preservar a maioria civilizacional que moldou o nosso país durante séculos. Quando todos esses elementos são relativizados em nome de necessidades económicas de curto prazo, aquilo que resta dificilmente pode continuar a chamar-se conservadorismo. Trata-se somente de liberalismo económico embelezado com algumas referências literárias.

No fundo, Henrique Raposo é somente um membro do establishment, a casta cosmopolita urbana que domina o país e que impôs a si própria a patológica autoflagelação étnica, o desdém pelas camadas populares e as expressões ancestrais. Politicamente representa um tipo de “direita desconstruída” que acredita poder combater o progressismo adoptando as suas premissas fundamentais. Aceita a imigração como inevitável. Aceita a narrativa do machismo estrutural. Aceita o enquadramento moral da esquerda sobre boa parte do debate público. Depois surpreende-se e entra em birra histérica quando a verdadeira direita cresce precisamente entre aqueles que deixaram de acreditar nessas premissas. Raposo espelha a sandice de alguém que aceita jogar com as regras impostas pelo adversário sem perceber que nunca poderá vencer.

Durante anos, à semelhança do pedante tudólogo Raposo, muitos comentadores alertaram que os movimentos nacionalistas e identitários estavam a ganhar terreno. Poucos quiseram perguntar porquê. É mais confortável culpar os eleitores do que reconhecer que foram décadas de políticas falhadas, de censura moral e de desprezo pelas preocupações populares que deram azo ao seu crescimento.

A política tem horror ao vazio, ensinou-nos Julien Freund. Quando a “direita” institucional deixa de representar os seus eleitores, inevitavelmente alguém ocupará esse espaço. Não é um mistério, é apenas a História a repetir uma das suas leis mais antigas.